O que há com o cinema nacional?

por Pedro Cunha

Os últimos dez anos foram sensacionais para o Brasil. A economia cresceu e o país tornou-se mais justo, com uma surpreendente redução da (ainda gigante) desigualdade social. O país cresceu em termos geopolíticos, deixando de ser apenas exportador de pés de obra para os campeonatos de futebol europeus e tornando-se protagonista em ações internacionais, sendo referência em campos tão distantes como sustentabilidade, redução da pobreza e exploração de petróleo. E tudo isso com imprensa livre, eleições regulares e tudo mais. A questão então é: porque o cinema nacional patina?

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Antes que me atirem pedras, eu sei que há boas produções. Ainda não consegui assistir, por exemplo, “Os Famosos e os Duendes da Morte” (Esmir Filho, 2010), que tem sido bastante elogiado por todo mundo que viu. E “Tropa de Elite 2” (José Padilha, 2010) é a exceção que confirma a regra. É um baita filme de ação. O meu ponto é que o cinema brasileiro mainstream tem usado muito, muito dinheiro para fazer filmes… ruins. Pelo menos os filmes que mais gastam dinheiro e também os que mais arrecadam.

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Esse eu não vi, mas é muito bom, já diria o Sílvio… 

Há uma vertente recentemente descoberta que tem rendido muito dinheiro e muito público no Brasil: o cinema espírita. Não quero entrar no mérito religioso da coisa, mas cinema espírita está para cinema como literatura espírita está para literatura: é um ramo a parte. Qualquer filme que for lançado com a temática vai fazer uma bilheteria estrondosa. “Bezerra de Menezes” (Bezerra Filho e Joe Pimentel, 2008), “Chico Xavier” (Daniel Filho, 2010), “Nosso Lar” (Wagner de Assis, 2010) e “As Mães de Chico Xavier” (Glauber Filho e Halder Gomes, 2011) fizeram, todos, boas bilheterias. Mas cinematograficamente são muito ruins! Antes que alguém argumente falando da mensagem, de ler os livros etc eu já aviso: eu não sou gabaritado para analisar essa parte. Falando sobre cinema, e só sobre cinema, os roteiros são fracos, as atuações são caricatas e o dinheiro gasto (no caso de Nosso Lar foram R$ 20 milhões!!) foi muito, mas muito mal gasto! A cidade futurista de “Nosso Lar” é uma das coisas mais bregas e cafonas da história do cinema.

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Colônia Espiritual, mas pode chamar de “Sala da Justiça”… 

O filme brasileiro mais comentado da temporada, e que com certeza está fazendo boa bilheteria, é “Bruna Surfistinha: O Doce Veneno do Escorpião” (Marcus Baldini, 2011). Eu não li o livro da moça, mas o roteiro do filme tem mais buracos que queijo suíço. Não se entende o começo do filme, o meio é confuso e o final sem sentido. “Fora isso”, diriam alguns… Deborah Secco não está ruim no papel, mas falta conteúdo ao personagem. Sem falar no personagem do seu namorado/marido, interpretado pelo Cássio Gabus Mendes. Mais bidimensional impossível… mas a culpa não é dos atores: com aquele roteiro nem a Meryl Streep e o John Malkovich conseguiriam se sobressair.

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Entendeu? Então me explica… 

Além dele o outro suposto blockbuster brasileiro da temporada seria “VIPs” (Toniko Melo, 2010). O filme conta a história real de um cara de classe média que se deu bem se passando por outras pessoas e dando uma série de golpes, começando se passando por piloto de avião. Sim, você já viu esse filme e a comparação com “Prenda-me se for capaz” (Catch me if you can, Steven Spielberg, 2002) é inevitável. Acontece que ambas as histórias são reais e sim, bastante parecidas. Por mais que Wagner Moura esteja bem, como sempre, é mais um filme que gasta uma boa grana para ir de nada a lugar algum. Perde-se muito tempo em alguns detalhes da trama que não se explicam, alguns outros ficam óbvios demais e o roteiro, apesar de ter a mão do competente Bráulio Mantovani, não leva a lugar algum.

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Nem Wagner Moura salva sempre… 

Fazendo a forçosa comparação, nossos hermanos argentinos e uruguaios tem nos dado um banho, em termos de produção cinematográfica. E eu só não sou categórico em por junto peruanos, colombianos e mexicanos porque conheço pouco, quase nada, de suas produções. O curioso é que o pessoal do Prata trabalha com orçamentos muito mais apertados e em condições muito mais difíceis de arrecadação de grana. Aqui no Brasil, ainda por cima, temos uma série de isenções e benefícios que são como coração de mãe: sempre cabe mais um independente da índole ou da qualidade…

Tentando responder a minha questão, eu vejo que o cinema brasileiro fica no meio do caminho entre tentar ser Hollywood e tentar ser latino-americano. A questão é que, enquanto tentar imitar as comédias românticas de Hollywood o cinema brasileiro vai SEMPRE sair prejudicado, porque para o bem e para o mal, ninguém consegue fazer Hollywood como Hollywood. Os cinemas argentino e uruguaio, até em função de limitações, tem de caprichar muito nos roteiros, nos diálogos e nas atuações. São filmes mais densos, muitas vezes mais pesados. Mas acabam tendo uma qualidade muito grande. De orelhada (e sem citar o ganhador do Oscar do ano passado…) eu lembro de “Abutres” (Caranchos, Pablo Trapero, 2010), XXY (Lúcia Puenzo, 2007), O Banheiro do Papa (El Baño del Papa, Cesar Charlone e Enrique Fernandez, 2007), Gigante (Adrián Biniez, 2009)… enfim, são vários. Todos com essas características comuns: bons diálogos, trabalhos interessantes de fotografia e enquadramento, atores (não modelos ou apresentadores, enfim) trabalhando bem. Será tão complicado assim.

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Para não dizer que eu só detonei… 

E para não dizer que não falei de flores, hoje eu vi um bom filme nacional. “Como Esquecer” (Malu de Martino, 2010). Mais parecido com os filmes argentinos do que tentando ser Hollywood, temos um filme sensível e um belo trabalho de Ana Paula Arósio como atriz. O filme fala sobre desilusões amorosas, finais, recomeços, partidas e chegadas. E sobre juntar os pedaços e como cada um lida com a perda, seja a perda da morte, a perda do abandono ou tantas outras perdas que possamos viver. Destaque para as atuações dos coadjuvantes: Murilo Rosa já ganhou inclusive algumas premiações internacionais pelo seu papel como Hugo, um dos amigos de Júlia, a personagem de Arósio. E Natália Lage… tá, deixa eu contar um segredo: eu meio que sou apaixonadinho por ela desde que ela fez a novela Perigosas Peruas, novela das 19h que foi ao ar no longínquo 1992. Ela tinha 14 anos, como eu, e eu a achava linda. Enfim, ela foi meu sonho de consumo durante muito tempo… e a “Pollyana hippie” (A definição é da Júlia, personagem do filme) que ela interpreta em “Como Esquecer” é bem meu tipinho, também. Natália Lage, um beijo para ti! Passado o momento stalker/confissões de adolescente, resta dizer que ela também está bem no filme. E resta também nos perguntar, porque o cinema brasileiro não pode ser mais brasileiro, como foi nesse filme.

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