Wes Craven fez de novo

por Pedro Cunha

Alguns diretores tornam-se referência dentro de um gênero em função de o terem modificado, renovado, inserido algo novo ou olhado para ele de outra maneira. E quando se fala do sempre subestimado gênero do horror, não há mais como não incluir Wes Craven nessa lista. Até porque ele não fez isso uma ou duas vezes. Com o lançamento de “Pânico 4” (Scream 4, Wes Craven, 2011) ele acaba de ter feito isso pela TERCEIRA vez.

Se por nenhum outro motivo, Craven merecia estar na galeria dos grandes diretores de horror em função de ter sido o roteirista e diretor de “A Hora do Pesadelo” (Nightmare on Elm Street, 1984). O filme criou uma série de paradigmas, regras e modelos que foram repetidos a exaustão nos dez anos seguintes. Sem falar no personagem Freddy Kruger: Seu chapéu coco, seu suéter listrado vermelho, seu rosto queimado e, principalmente, sua luva com lâminas se tornaram mais do que símbolos: foram ícones. Nos 10 anos seguintes a fórmula de Craven foi repetida a exaustão. Dezenas de filmes e sequências utilizavam-se do serial killer que, de uma maneira ou de outra, voltava para vingar-se. Além do Freddy Kruger de Craven também definiram as regras dos filmes de horror nos late 80s e nos early 90s Jason Vorhees, da série “Sexta-Feira 13” (Friday the 13th) e Michael Myers, da série “Halloween”. Jamie Lee Curtis, heroína de “Halloween”, tornou-se um dos símbolos daquelas mocinhas que corriam, corriam, corriam e acabavam sempre alcançadas pelos vilões que, invariavelmente, caminhavam lentamente. Alcançadas elas eram. Escoriações, obtinham várias. Mas pegas? Nunca. Elas sobreviviam. O que nós já sabíamos desde o início do filme…

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Freddy Krueger e a sua indefectível luvinha…

A fórmula tornou-se desgastada. Depois de muito sucesso Freddy, Jason e Cia já não assustavam mais ninguém. E então Craven apareceu e mudou as regras do jogo. “Pânico” (Scream, 1996) inaugurava novas regras, mas mais do que isso: começava o jogo dos metafilmes. Os filmes que falam dos filmes. “Pânico” falava, inclusive, das regras dos filmes de terror, inventadas por Craven. E nos apresentava um novo serial killer, um tanto quanto diferente: Ghostface, como acabou ficando conhecido em função de sua máscara. Ghostface não tem poderes sobrenaturais. Ele liga de um telefone e avisa para as pessoas que elas estão para morrer. E então ele as apunhala. Várias vezes. Mas no meio do caminho, Ghostface corre. E tropeça. E erra, várias vezes. E se bate, e se machuca e nos proporciona alguns momentos de humor bizarro e nervoso. Ghostface é, de certa forma, a antítese dos grandes vilões de filmes de horror. E mais ainda porque, como observamos nas sequências “Pânico 2” (Scream 2, 1997) e “Pânico 3” (Scream 3, 2000), Ghostface nunca é a mesma pessoa.

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Pânico mudou as regras dos filmes de horror e se tornou um clássico dos anos 90 

As duas sequências, aliás, brincam mais ainda com os clichês do cinema. “Pânico 2” usa e abusa, propositadamente, de todos os clichês das sequências de filmes de horror. Já “Pânico 3” lança ideias e teorias sobre o conceito de trilogias, e já se anuncia como o último da sequência. Os três filmes orbitam em torno de um núcleo de três personagens: Sidney Prescott (Neve Campbell) é a vítima. Gale Wheaters (Courtney Cox) é a jornalista inescrupulosa que cobre o evento dos assassinatos seriais e acaba se envolvendo com Dewey (David Arquette), o policial encarregado de resolver os crimes. Foi durante as gravações de “Pânico”, aliás, que Courtney Cox acabou tornando-se (e hoje não é mais) Courtney Cox-Arquette. Cambpell chegou a experimentar algum momento de estrelato, em função do sucesso da série, mas no começo dos anos 2000 caiu na vala das atrizes comuns com algumas escolhas erradas de trabalho.

A metalinguagem sobre os filmes de horror está ainda mais presente em “Pânico 2” e “Pânico 3”. As duas sequências, inclusive, faziam referências ao filme “Stab”, pretensa obra de ficção baseada nos crimes de Woodsboro, que ocorreram no primeiro pânico. É metalinguagem pura, inclusive porque o assassino de “Stab” é… Ghostface, ele mesmo! Quando as cenas dos filmes começam a se misturar, às vezes fica difícil entender se o que está rolando é o filme “real” ou o “filme do filme”. “Pânico 3” encerra a trilogia e não dá margem à sequência. O que deixa no ar a pergunta: por que fazer “Pânico 4”?

Eu tenho, sempre, ressalvas com sequências. Na maioria das vezes elas são descartáveis e desnecessárias, a não ser para o bolso dos produtores. Mas de vez em quando uma sequência se justifica. E é o caso de “Pânico 4”. O filme começa com uma cena forçada de Ghostface em ação. E logo descobrimos que se trata de uma cena de “Stab 6”. Que está incluída, aliás, no início de “Stab 7”. É o filme dentro do filme dentro do filme. “Pânico 4” traz o mesmo núcleo-base (Campbell, Arquette e Cox) e a trama é a mesma. Trazendo, porém, as referências do século XXI. No início do filme há uma referência (ácida e crítica) à série “Jogos Mortais” (Saw), que foi o que de mais inovador apareceu no cinema de horror nesse século. Há muitas, mas muitas referências a filmes e diretores: “Stab 1”, o “Pânico” dentro de “Pânico”, foi dirigido, por exemplo, por Robert Rodriguez. Um determinado policial se chama Perkins. Anthony Perkins, numa clara alusão ao ator do clássico “Psicose” (Psycho, Alfred Hitchcock, 1960). E há uma série de cenas onde aparecem nomes e cartazes de filmes antigos de horror, sem falar nos diálogos de alguns personagens fazendo jogos de perguntas e respostas sobre filmes de horror.

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“Pânico 4”: Nova década, novas regras… 

“Pânico 4” fala de internet, de live broadcast e faz uma crítica surpreendentemente forte à sociedade das subcelebridades virtuais e dos reality shows dos anos 2000. O diretor brinca, também, com a nova mania de Hollywood: os reboots. “Pânico 4” não deixa de ser um reboot do primeiro, e isso é tratado abertamente no próprio filme, inclusive com uma “nova” Sidney Prescott. É um filme que garante bons momentos de risadas e alguns sustos, no que Wes Craven continua muito bom. E, acima de tudo, Craven encerra um ciclo: se em 1996, com “Pânico”, ele mostrou o esgotamento da fórmula que ele mesmo inaugurara em 1984 com “A Hora do Pesadelo” agora em 2011, com “Pânico 4”, ele esgota a vertente que havia inaugurado em 1996. Resta ver o quanto ele servirá de modelo para os filmes de horror daqui para frente…

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