Naquele dia de verão

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Acordei cedo, fiz todo ritual que uma mulher entrando nos trinta precisa começar a fazer  e fui trabalhar. Recebi um elogio sobre minha blusa verde e segui pelo pátio cantarolando Djavan: “Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão….” Dei minhas aulas sentindo o suor escorrer-me por dentro até observar um solitário pingo evaporando-se no chão. Ouvi alguns desaforos (como costumeiro). Exercitei o que fui aconselhada: Presente ausente! É isso mesmo. Uma versão “cara de paisagem” para deixar “entrar por um ouvido e sair por outro”. Ganhei uma flor colhida do chão de meu aluno e um lindo desenho com dedicatória: “Você é a melhor professora do mundo!” Na saída da escola encontrei com o Sr. Zé que me ofereceu uma dúzia de laranjas: “Mais doces que mel!” Como ele diz. E me pergunta: “Tem banana em casa?” Sim, Sr. Zé. Quase com vergonha por ter comprado as minhas no Pão de Açúcar. Mesmo sem sair com as laranjas eu sempre levo uma lição do Sr. Zé. Naquele dia, foi algo sobre como devemos valorizar nosso trabalho. Ele também muito delicadamente me perguntou qual era minha idade e, quando contei, me encheu de elogios.
– Meu dia estava apenas começando, mas já prometia.
À tarde, depois de almoçar, peguei meu material e fui para a segunda longa parte de meu dia. Destino: Real Parque. Sentei e fiz um trato com meu aluno de 10 anos: dali em diante, apenas inglês na sala de aula e, quem descumprisse o acordo, pagaria sua pena ao final. Ouvimos e cantamos “Let it be” dos Beatles e ele me impressionou com sua bela pronúncia e afinação. (Só podia ser meu aluno!). Segui, para o Alto da Boa Vista. Numa linda casa gelada, cheia de muitos empregados e pernilongos que costumam me devorar. Não naquele dia. Lembrei de colocar meu Off na bolsa. Minha aluna estava mais preocupada com sua festa de quinze anos, a ser realizada num dos melhores e caros Buffets de São Paulo. Trocas de vestido, valsas, cerimônias e eu tentando fazê-la lembrar do “does” na terceira pessoa do singular presente interrogativo. Última parte do dia e as nuvens começam a se formar no céu anunciando uma tempestade daquelas que adoro, mas que me sinto mal em adorar… Cidade louca esta na qual temos um certo dever moral de detestar algo tão belo e intenso como uma tempestade. Imagina se digo que gosto e depois conheço alguém cuja casa, carro, ou parente foi engolido por um dos córregos. “Vou-me embora pra Pasárgada” ou “back to the woods” onde possa desejar minhas tempestades sem limite e censura. Moema: última parada. Estacionei o carro no lugar de sempre. O barulho dos trovões e aviões se misturava e eu precisei interromper a aula diversas vezes. A chuva rompeu sem dó. Insisto, adoro o prelúdio, o barulho, o cheiro e ainda mais seu desfecho, especialmente quando é um atrevido raio de sol. Como estávamos na varanda, tivemos que entrar e, num certo momento, perguntei se ela havia fechado as janelas. Em minha casa, adoro deixar para o último momento e sair correndo, lutando contra o vento para fechá-las. Ela me respondeu que achava que sim e me acompanhou até o térreo. O porteiro nos alertou que não era possível sair. Mal sabe ele que adoro andar na chuva ao final do dia, pensei. Infelizmente, “he really meant it!”

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