O mundo muito particular de Harry Nilsson

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por Cassiano Rodka

“Nilsson é o meu favorito”. Essa foi a resposta de John Lennon, em 1968, quando indagado por um repórter sobre qual seria sua banda americana preferida. Logo em seguida, Paul McCartney ouvia a mesma pergunta. A resposta: “Nilsson”. Ninguém sabia de quem se tratava, mas no dia seguinte à entrevista, Harry Nilsson teve seu nome estampado em algumas das maiores revistas de música da época.

A verdade é que Harry Nilsson foi tão influente para os Beatles quanto eles foram para o compositor. O primeiro disco de Nilsson, “Pandemonium Shadow Show”, foi lançado em 1967 e trazia duas covers dos quatro rapazes de Liverpool: “She’s Leaving Home” e “You Can’t Do That”, em uma versão mais lenta e com backing vocals cantando frases de outras 20 músicas dos Beatles. A inusitada versão entrou no Top 10 das paradas canadenses.

Em uma passagem pelos EUA, Derek Taylor, assessor de imprensa dos Beatles, escutou a faixa “1941” no rádio enquanto esperava a sua esposa no carro. Apaixonado pela música, foi atrás do disco e comprou cópias para vários amigos, incluindo John, Paul, George e Ringo. Lennon declarou que escutou o álbum ininterruptamente por 36 horas seguidas. Harry Nilsson recebeu telefonemas dos músicos parabenizando pela álbum e convidando para ele ir à Londres conhecê-los. O encontro eventualmente ocorreu durante as gravações do “White Album” dos Beatles em 1968. Harry desenvolveu uma duradoura (e turbulenta) amizade com John e, em especial, com Ringo, que se tornou um de seus melhores amigos.

Ao lançar seu segundo disco, “Aerial Ballet”, Harry Nilsson fez sua fama crescer, principalmente depois que o single “Everybody’s Talkin'” foi escolhido como tema do filme “Perdidos na Noite” (Midnight Cowboy). A emocionante cover de Fred Neil escalou as paradas musicais e garantiu um Grammy a Nilsson. O álbum ainda continha alguns dos singles mais conhecidos de Harry até hoje: “One” (com uma linha de piano baseada no som de ocupado do telefone), “Good Old Desk” (provando que uma letra sobre uma mesa pode ser belíssima) e “Daddy’s Song” (que foi gravada pelos Monkees).

Em 1969, Nilsson estreou no cinema fazendo aquela que seria a sua primeira de muitas trilhas. A comédia “Skidoo” não foi um grande sucesso, mas realçou a criatividade de Harry como compositor, em especial na divertida música de abertura do filme, “The Cast and Crew”, onde ele cantava os créditos da produção. No mesmo ano, Nilsson lançou “Harry”, um álbum que ia do folk ao rock ao jazz, sem se intimidar a assumir um rótulo específico. Essa seria uma das grandes marcas de Harry Nilsson, que sempre preferiu fazer o que bem entendia sem seguir tendências ou dar atenção ao que esperavam dele. No ano seguinte, quando todos aguardavam por mais composições próprias, Harry resolveu lançar um álbum inteiramente de covers: “Nilsson Sings Newman”, onde o cantor interpretava músicas de Randy Newman, um compositor desconhecido na época. Em 1971, ele resolveu criar uma fábula infantil. Escreveu a história de “The Point!” e produziu um desenho animado para a rede ABC com narração do amigo Ringo Starr. A encantadora trilha sonora foi composta inteiramente por Nilsson que a lançou em disco, rendendo o single “Me and My Arrow”.

Com o crescente sucesso do compositor, a gravadora RCA queria relançar os dois primeiros discos de Harry. Relançar era coisa muito sem graça para ele, então Nilsson decidiu fazer algo novo com as canções desses álbuns: mesclou as faixas dos dois LPs, alterando o andamento de algumas músicas, regravando instrumentos e vozes, e resultando naquele que é considerado um dos primeiros álbuns de remixes do mundo, “Aerial Pandemonium Ballet”.

Como se não bastasse o disco infantil e o álbum de remixes, Nilsson reservou outra grande surpresa para 1971: uma seleção de composições inéditas que resultaria no seu maior sucesso de vendas até hoje, o disco “Nilsson Schmilsson”.

Produzido por Richard Perry, o álbum mostra o compositor no auge da criatividade e rendeu três singles bastante distintos que se tornaram marcos em sua carreira. O primeiro é a cover de “Without You” da banda Badfinger, uma balada que ganhou uma interpretação tão emocionada na voz de Harry que transformou sua versão na referência definitiva para as covers que viriam desde então. A música ainda conferiu ao cantor mais um Grammy. O segundo single, “Coconut”, é uma música de um acorde só e chama atenção pelas três vozes que Nilsson usa para interpretar os diferentes personagens da letra. A canção foi escolhida para acompanhar os créditos finais de “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs) de Quentin Tarantino anos depois. O terceiro single, “Jump into the Fire”, é um rock progressivo gritado de quase 7 minutos de duração. A faixa também teve espaço no cinema, servindo de trilha para uma cena bem conhecida de “Os Bons Companheiros” (Goodfellas).

“Nilsson Schmilsson” tinha tudo para ser o primeiro de muitos discos de sucesso por parte do compositor. Mas tudo o que Harry menos queria era se repetir ou deixar de se surpreender com o que fazia. No ano seguinte, foi lançado “Son of Schmilsson”, que, apesar do título, não é exatamente uma cria do álbum anterior. Chutando o balde, Nilsson apresentou uma seleção de canções bem peculiares. Com palavrões, humor negro e muito deboche, o compositor surpreendeu quem esperava uma continuação de “Nilsson Schmilsson”. Alguns fãs consideram esse disco um deslize, mas eu confesso que acho ele uma pérola! Entre as minhas faixas preferidas estão “Joy” (um country falado e cheio de duplos sentidos), “You’re Breakin’ My Heart” (um soul-rock beijo-me-liga que certamente inspirou Cee-Lo a criar o seu hit “Fuck You”), “Spaceman” (um rock-pop espacial a la Bowie) e “I’d Rather Be Dead” (uma canção sobre as agruras de envelhecer cantada por… um coro de velhinhos!!).

O álbum não foi muito bem comercialmente, mas pouco importou para Harry. Fechando seus ouvidos para todos à sua volta, ele seguiu fazendo o que queria. Seu álbum seguinte? Um disco de standards acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Londres. O produtor Richard Perry considerou a ideia um suicídio comercial e largou de mão o projeto, deixando o cargo para Derek Taylor, o assessor de imprensa dos Beatles. Mas o lançamento de “A Little Touch of Schmilsson in the Night” era fichinha perto do que viria a seguir… o filme “Son of Dracula”! Produzido pela Apple Filmes e estrelado por Harry Nilsson (como o filho do Drácula) e Ringo Starr (como Merlin, o mágico), o filme foi considerado um dos piores de todos os tempos. O roteiro tosco e as más atuações são de doer, mas a faixa “Daybreak”, criada para a trilha e com participação de George Harrisson na percussão e Peter Frampton na guitarra, faz tudo ser perdoado!

Em 1974, John Lennon deu um tempo com Yoko Ono. Viajou para a Califórnia e lá bebeu todas com o amigo Harry. Da parceria, além de tragos homéricos, surgiu o disco “Pussy Cats”, produzido por John Lennon. Entre altos e baixos, o disco deixa claro que a gravação das músicas não era a prioridade e a voz de Harry mostra seus primeiros sinais de cansaço. Seguem três discos onde Nilsson sofre para cantar e compor: “Duit on Mon Dei”, “Sandman” e “… That’s the Way It Is”.

Cansado de deixar as drogas sufocarem seu talento, o cantor resolveu se concentrar em compor um grande disco em 1977. Quando terminado, “Knnillssonn” deixou Harry satisfeito com o que considerava ser suas melhores canções em muito tempo e a gravadora ficou confiante no material. Mas a morte de Elvis Presley desviou a atenção da RCA, abafando o que poderia ter sido uma grande volta para o artista. Frustrado, o compositor decidiu deixar a gravadora.

Em 1980, Harry compôs a trilha sonora do filme “Popeye” (de Robert Altman) e lançou o disco de inéditas “Flash Harry”, exclusivamente no Reino Unido. Mas o assassinato de John Lennon no final daquele ano fez com que ele decidisse largar de vez seu emprego como músico e o transformou em um ativista pelo controle de armas, filiando-se ao grupo Coalition to Stop Gun Violence.

Durante dez anos, Harry focou-se em sua luta contra as armas, ficando à margem do mercado musical. Em 1993, ele decidiu gravar um último álbum, mas uma parada cardíaca tirou a vida do compositor, fazendo com que o disco fosse engavetado e nunca fosse lançado até hoje.

Seja pela emoção de sua voz de muitas oitavas, pelos seus arranjos inteligentes ou pelas suas letras debochadas, há um mundo de motivos para conhecer as canções de Harry Nilsson. Então dá uma garimpada nos discos do cara e mergulhe fundo no universo de Schmilsson!

Uma boa dica para conhecer mais sobre o cara é o documentário “Who Is Harry Nilsson (And Why Is Everybody Talkin’ About Him)?”, dirigido por John Scheinfeld e lançado em 2010.

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