Cisne Negro (Black Swan, Darren Aronofsky, 2010)

por Pedro Cunha

“Aquele que luta com monstros deve tomar cuidado para não tornar-se também um monstro. Quando você olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você”.

Friederich Nietzsche

 

A indústria cinematográfica de Hollywood passa por um momento de profunda crise. A criatividade parece ter se esgotado e as grandes bilheterias são, sem exceção, remakes, reboots, refilmagens e continuações. Quando não adaptações de quadrinhos, seriados ou de outras coisas, como brinquedos ou videogames. Fiquemos em 2010, por exemplo: o top 10 das bilheterias começa com “Toy Story 3” (Lee Unkrich), uma continuação, passa por “Alice no País das Maravilhas” (Tim Burton), uma re(re-re)filmagem, segue com “Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte 1” (Harry Potter and The Deathly Hollows – Part 1, David Yates), adaptação E sequência, continua com “A Origem” (Inception, Chris Nolan), único filme 100% original até aí, continua com “Eclipse” (David Slade), “Homem de Ferro 2”, “Meu Malvado Favorito” (Despicable Me, Pierre Coffin / Chris Renaud), “Como Treinar Seu Dragão” (How to Train Your Dragon, Dean DeBlois/Chris Sanders) e fecha com “Fúria de Titãs” (Clash of Titans, Louis Leterrier). São 10 filmes dos quais apenas três são roteiros originais. E dois deles são animações.

Já faz algum tempo que Hollywood tornou-se um banco de aplicações. Quando se faz um filme o que se calcula é o quanto ele pode potencializar o investimento: quantas sequências ele pode gerar, quando pode gerar em merchandising, qual o público alvo etc. Alguns desses filmes tem mais dinheiro investido em publicidade e divulgação do que no filme em si. Os produtores e muitos diretores, ao invés de pensar no filme que querem fazer, pensam em negócios. O cinema é menos arte do que já foi, bem menos.

Os atores e as atrizes, muitas vezes, tornaram-se personagens deles mesmos. Ao invés de trabalhos de interpretação nós temos os mesmos rostos fazendo as mesmas caras e bocas. Atores muito talentosos tem dificuldades para conseguir bons papeis enquanto outros, medianos ou ruins, recebem mais da metade do orçamento de um filme porque eles farão com que o filme seja visto, não importa se seja bom ou ruim.

Então, vem a pergunta, por que eu vou ao cinema?

Daria para responder essa pergunta de um monte de maneiras. Mas, de certa forma, é como um jogo de azar. Eu vou perder, na maioria das vezes.Vou ganhar poucas vezes. Mas uma única vitória dessas faz valer todas as outras derrotas. Até porque, dependendo do espírito, jogar e perder pode ser tão divertido quanto ganhar. Mas ainda assim, as vezes ganhamos.

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E foi mais ou menos essa a minha sensação ao sair do cinema depois de assistir “Cisne Negro” (Black Swan, Darren Aronofsky, 2010). Ganhei na Mega Sena, acertei o pleno na roleta, o jogo abriu e eu tenho um four de ases. Não me lembro quando foi a última vez (se é que houve outra, antes dessa) que eu passei arrepiado do início ao fim de um filme. A cena de abertura, com a bailarina Nina ensaiando num fundo preto e contando o seu sonho, dá o tom do filme. Vi algumas críticas tentando ser mais realistas que o rei e dizendo que “Cisne Negro não retrata o mundo real do ballet. Só que, na minha opinião, Aronofsky não passou nem perto de querer fazer isso.

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“Cisne Negro” é um daqueles filmes que temos uma dificuldade enorme de encaixar em algum gênero. É um drama? Suspense? Horror? Thriller? É tudo isso misturado. E mais um pouco. Um enorme pouco. Aronofsky fez um filme sobre humanidade, loucura, obsessão, compulsão e paranoia. E além disso foi muito feliz na sua viagem sinestésica em que roteiro, fotografia, figurino, trilha sonora e atuação são, organicamente, uma coisa só. O filme é lindo. Perturbadoramente lindo. Enquanto ele rola na tela grande não conseguimos parar de olhar, embora a sensação de mal-estar só vá crescendo e crescendo.

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Se o roteiro e a direção foram primorosos, o filme também só aconteceu por causa de Natalie Portman. Sabe aquelas felizes coincidências, da pessoa certa no lugar certo na hora certa? Essa é Natalie Portman em “Cisne Negro”. Uma jovem e talentosa atriz naquela atuação visceral pela qual ela será eternamente lembrada. A perturbada Nina e suas confusões (que o filme torna nossas também) entre realidade e fantasia não seria tão doentia se não fosse pela atuação de Portman e sua alquimia com o diretor. A câmera passa o tempo todo perseguindo Nina, nos tornando quase um stalker dela. A ideia, feliz, do diretor é que a confusão de Nina seja também a nossa confusão. Destaque-se também o ótimo trabalho da coadjuvante Mila Kunis, que alterna-se entre a companheira de dança de Nina e uma versão do subconsciente da própria bailarina.

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A essa altura do campeonato (eu sei, me atrasei para escrever sobre esse filme) resta muita pouca coisa a ser escrito sobre “Cisne Negro”. O que eu tenho para dizer? Assista. E assista novamente. E assista também os outros filmes de Aronofsky, em especial “O Lutador” (The Wrestler, 2008), o filme que buscou Mickey Rourke no ostracismo e que é, de certa forma, um estudo para “Cisne Negro”. Ambos os filmes falam sobre exigir do corpo mais que ele pode dar, ambos os filmes mostram narcisismo e perfeccionismo e ambos os filmes terminam num salto para a eternidade.

As premiações, como era de se esperar, quase ignoraram “Cisne Negro”. Com exceção do prêmio de Melhor Atriz para Portman (que simplesmente não poderia ser tirado dela) o filme perdeu em todas as categorias que estava indicado, mesmo que merecesse em algumas delas como Fotografia, Direção e Edição. Poderia ter sido, no mínimo, indicado na categoria figurino, também. As roupas de ballet estão lindas de morrer.

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PS: Desculpem-me, meus dois leitores, pela ausência prolongada. Passei por mudança de endereço e estou em Salvador, Bahia. Estava em regime de internato e agora que estou conseguindo reorganizar a minha vida. Prometo aquela regularidade constante daqui para a frente…

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