Mais quatro indicados

por Pedro Cunha

Os filmes se acumularam! Vou pedir desculpas a todos e prometer, no decorrer do semestre, analisar mais detalhadamente alguns deles. Mas para resenhar todos antes do Oscar, que é domingo, vou fazer um bastantão hoje. Vou falar sobre quatro, eu disse QUATRO filmes! “Minhas Mães e Meu Pai”, “Bravura Indômita”, “Inverno da Alma” e “127 Horas”. Vamos que vamos!

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are Alright, Lisa Cholodenko, 2010)
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Indicado em quatro categorias: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo); Melhor Atriz Coadjuvante (Annette Bening); Melhor Roteiro Original (Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg)

A história da família formada por duas lésbicas (Annette Bening e Julianne Moore) e seus filhos (Mia Wasikovska e Josh Hutcherson), resultados de inseminação artificial com um doador anônimo começa a se transformar quando a menina, Joni, atinge a maioridade e, instigada pelo irmão, busca conhecer o pai biológico (Mark Ruffalo). A chegada do pai abala antigas certezas e questiona o conceito de família do século XXI. A diretora e roteirista Lisa Cholodenko produziu um filme pautado nos diálogos e nos estereótipos familiares, questionando alguns e, ao final do filme, chegando numa solução bastante conservadora. O filme tem algo de pessoal, uma vez que a diretora e roteirista é militante do movimento lésbico e tem um filho, resultado de inseminação artificial com doador anônimo. Muitas vozes do movimento LGBT não gostaram do filme. Eu gostei, mas naquelas. Os atores estão bem, mas nenhum deles encanta. Apesar das quatro indicações recebidas o filme corre o sério risco de sair do Kodak Theatre de mãos abanando.

Bravura Indômita (True Grit, Joel & Ethan Coen, 2010)
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Indicado em dez categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor (Joel e Ethan Coen), Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Edição de Som, Mixagem de Som, Melhor Ator (Jeff Bridges), Melhor Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfeld), Melhor Roteiro Adaptado

“Bravura Indômita” é uma refilmagem de um western clássico de 1969, dirigido por Henry Hattaway e estrelado por John Wayne, Glen Campbell, Robert Duvall e Dennis Hopper. Os irmãos Coen, queridinhos da Academia, empilharam indicações. A história é uma das arquetípicas do faroeste: a busca de vingança após a morte de um membro da família. O filme tem uma produção caprichadíssima (não por acaso as indicações nas categorias de Direção de Arte, Fotografia e Figurino), como de praxe no caso dos Coen. Outra característica deles, a boa direção de atores, se faz presente: Jeff Bridges (o US Marshall Rooster Cogburn), Matt Damon (o Texas Ranger LaBeuf) e Hailee Steinfield (a decidida e cabeça-dura Mattie Ross) funcionaram muito bem e a todo momento demonstram o sarcasmo e o humor negro, tão característicos dos Coen. O sempre bom Josh Brolin está ótimo como Tom Chaney, um dos vilões, e se afirma como um dos competentes atores da atualidade. Achei um filme divertido e bem naquele climão meio “western realista” que o Clint Eastwood definiu em “Os Imperdoáveis” (Unforgiven, Clint Eastwood, 1992). É filme para ver comendo pipoca. Ah, e as indicações? Acho que pode levar algum dos prêmios de arte. O figurino está caprichado e a fotografia usa e abusa do pó, da luz e dos tons pasteis do western. Bridges, tentando ganhar o prêmio pelo segundo ano consecutivo, corre por fora. Hailee Steinfield tem um páreo duro contra Melissa Leo e Amy Adamns. E os Coen… bom, a academia gosta deles. Não dá para dizer que eles não tem chance.

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Hailee Steinfield, Matt Damon e Jeff Bridges, dando vida aos diálogos ácidos dos Coen

Inverno da Alma (Winter’s Bone, Debra Granik, 2010)
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Indicado em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (John Hawkes), Melhor Atriz (Jennifer Lawrence) e Melhor Roteiro Adaptado (Debra Granik e Anne Rossellini)

“Inverno da Alma”, o terceiro filme de Debra Granik, foi muito bem recebido pela crítica. O filme se passa em alguma cidade do interior dos EUA onde uma menina de 17 anos (Jennifer Lawrence) tem que tomar conta da família (dois irmãos e uma mãe doente) em função da ausência do pai, envolvido com tráfico de drogas. A menina tem de ir atrás do pai em função dele ter dado a casa e o terreno onde a família vive como garantia da sua fiança e ter desaparecido depois disso, não comparecendo nas suas audiências. A menina então tem que buscar o pai num submundo podre ao mesmo tempo em que tenta a todo custo evitar a desagregação da família. O filme é tenso e funciona todo em torno da personagem de Lawrence. A menina tem 21 anos e segura legal o rojão. Uma atuação tecnicamente perfeita e bem escudada por John Hawkes, que faz o papel de seu tio. Justas as indicações para ambos (mas acho que nenhum deles leva, deram azar… competir com Natalie Portman e Christian Bale nesse ano está complicado.). O filme angustia e não tem uma mensagem otimista. A luta pela preservação da família é levada praticamente para o nível animal, de instinto de sobrevivência. O desfecho, se não é feliz, pelo menos é esperançoso.

127 Horas (127 Hours, Danny Boyle, 2010)
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Indicado em seis categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Edição, Melhor Canção Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Ator (James Franco) e Melhor Roteiro Adaptado (Danny Boyle e Simon Beaufoy)

“127 Horas” é um filme de Danny Boyle, e isso é perceptível nos primeiros minutos do longa. A narrativa rápida, o ritmo de videoclipe, as imagens fragmentadas e a desconstrução do som e da imagem, marcas registradas dos trabalhos anteriores de Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário, A Praia, Por Uma Vida Menos Ordinária, Trainspotting…), estão lá. Mas Boyle escolheu uma história real bastante complicada para adaptar: um jovem alpinista e explorador de cânions sofre um acidente e fica isolado sozinho dentro de um cânion no meio do nada. “E sai um filme disso?”, você se pergunta. Sim, sai. E o filme de forma alguma é parado ou monótono, apesar do protagonista passar 90% do tempo do filme no mesmo lugar. Aí aparecem os talentos de Boyle, como diretor, e de James Franco. O ator que já havia vivido Harry Osborn nos três filmes da série “Homem-Aranha” (Sam Raimi) já tinha mostrado alguma maturidade na ótima interpretação de Scott Smith em “Milk – A Voz da igualdade” (Milk, Gus van Sant, 2008). “127 Horas” poderia ser uma bomba se a atuação de Franco comprometesse. Mas o que acontece é justamente o contrário: o trabalho do ator faz com que o filme fique ainda melhor. Há momentos emocionantes. Há momentos de prender a respiração. Há momentos tensos. E tudo isso sem o protagonista sair do mesmo lugar. Méritos para Boyle e para Franco, que podem levar as estatuetas de Diretor e Ator (a categoria de melhor ator, para mim, é a mais difícil de prever…). Os prêmios de edição e trilha sonora (aqui a concorrência é forte) não seriam injustos, também. Filmaço, daqueles de prender na cadeira do início ao fim. Os cenários do filme em canyonville, nos EUA, são deslumbrantes e o diretor sabe tirar proveito dele para fazer um filme que além de bom é incrivelmente lindo.

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Danny Boyle orienta James Franco na única locação do filme

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