Itália, come ti amo

italia
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Das relações de amor que tenho com cidades e países, a com a Itália é, sem dúvidas, a mais especial. Porto Alegre e o Rio Grande do Sul são a minha terra natal, representam o amor materno, me dão aquela sensação de segurança e acolhimento sem igual. Já São Paulo e eu somos ligadas por aquele amor manso que surge depois da maturidade, o amor que permanece. New York City é o amor doido, apaixonado, capaz de loucuras, aquele que até se acalma com o tempo, mas ressurge com força toda vez que nos vemos novamente! A Itália (sim, no caso dela, preciso falar do país como um todo, e não de uma cidade específica) é o amor de avó: aquele amor carinhoso, que te põe no colo, te faz cafuné e te dá um doce. Justamente porque a Itália, como bem disse dia desses meu pai, é, de fato, a nossa “pátria avó”, porque é de lá que vieram nossos antepassados, de um povoado chamado Fastro, na província de Belluno, região do Veneto, no norte do país.

Lá estive apenas duas vezes, e a sensação que tenho é que a conheço tão bem, que parece que nos vemos todos os anos. Nesta segunda e última vez, nas férias, fui com meu marido, Márcio, e também com meus pequenos ítalo-germano-gaúcho-paulistanos, Vito e Angelina. Aliás, em nossa entrada na Itália, pela linda Milano, o agente alfandegário, após examinar os passaportes de meus filhos, perguntou se morávamos lá! A alfândega italiana é a mais simpática, despreocupada e rápida do mundo: ninguém ali acha que você é capaz de querer morar ali, e, se quiser, que fique, “Benvenuto!”. Os italianos são exatamente isso: a sua filosofia de vida se resume a comer um monte, beber um monte, viver um monte, e com intensidade. Assim, quando eu entro na Itália, eu digo, “Ciao, nonna, te voglio tanto bene!”. E mergulho fundo nela, sem vontade de voltar tão cedo à superfície.

Nessa nossa viagem, fomos abraçados com amor por todas as cidades por onde passamos, em nosso possante carro que mais parecia um micro-ônibus, que nos conduziu aos mais belos lugares, passando por impressionantes estradas e vales nevados, lindas parreiras ressecadas pelo inverno rigoroso, belíssimas árvores das mais diversas cores de frio (cinza, laranja, amarelo-queimado, marrons, bege, branca…), estonteantes cidadezinhas medievais cercadas por muros e com ruazinhas estreitas e antigas.

Milano e Firenze, capitais, respectivamente, da Lombardia e da Toscana, impressionam pelos prédios e museus antigos, pelas galerias enfeitadas pelas luzes de Natal, pelos seus Duomos brancos e majestosos, pelas lojas de grife, pelos restaurantes impecáveis, pelos museus e igrejas datados de séculos e séculos atrás. Passear a pé sentindo o friozão no nariz e nas orelhas é uma das coisas mais gostosas de se fazer nessas cidades no inverno. Muita gente nas ruas, canções natalinas no ar, aromas maravilhosos de pastas, pizzas, gelattos e cafés em cada cantinho… Inesquecível!

Mas foi na nossa deliciosa road trip por Pisa e pelos deslumbrantes vales vinícolas da Toscana que mais nos divertimos. Começando por Pisa, localizada a mais ou menos uma hora de Firenze. Meus filhos estavam curiosíssimos para ver de pertinho a torre inclinada. Quando a cidade vai se aproximando dos visitantes, pode-se se ver ao longe a lendária torre de oito andares, que, por ter sido construída sobre solo arenoso por volta de 1300, começou a inclinar-se já durante os trabalhos de construção, que seguiram, mesmo assim. Em 1995, foi restaurada, para reduzir um pouco sua inclinação e torná-la segura para visitação. De segura, porém, não tem nada, de acordo com meu marido e meu filho, que subiram até o topo. Degraus de mármore tortos e desgastados pelo tempo, ausência de corrimão e corredores estreitíssimos levam os visitantes até o alto da famosa torre, com muito esforço e cuidado! A vista lá de cima, contaram-me eles, é de fato maravilhosa, de toda a cidade de Pisa e arredores. A descida, porém, era ainda mais perigosa, considerando-se que havia chovido e os degraus estavam escorregadios. Uma “aventura” das boas, sem dúvida, como meu filho gosta!

Nossas próximas paradas foram as cidades medievais de Monteriggioni e San Gimignano, situadas na região vinícola da Toscana. A estrada que leva até elas, partindo de Firenze, tem uma das paisagens mais lindas que conheço. Da outra vez em que lá estive, era primavera, e quase enlouqueci com as cores das árvores, flores e montanhas. Desta vez, mesmo sendo inverno, a coisa foi também de tirar o fôlego de um vivente! São uns cinzas e uns laranjas desmaiados, com aquele sol toscano iluminando e tornando lindão o que já é lindíssimo, enfim, é melhor eu parar de descrever para não tornar o texto piegas demais…! Afinal, quando se trata de paisagens, não há descrição que perfeitamente faça jus a elas. Só vendo.

Monteriggioni é uma das cidades medievais cercadas por muros da Itália, localizada na província de Siena, cidade rival de Firenze na Idade Média. Quando a avistamos, ao longe, meus filhos adoraram, porque mais parece um castelo de conto de fadas. As muralhas altas dão o tom. Entrar ali é ainda mais divertido. Uma pequenina cidade de 7.000 e poucos habitantes, com uma praça central, que fica logo na entrada da cidade, e tem uma capela charmosa e gelada, algumas lojinhas de produtos culinários locais e um simpático e minúsculo museu, com um pouco da história medieval da cidade. Ali, os visitantes podem ver maquetes com as batalhas medievais travadas na cidade (os muros serviam para a defesa da cidade contra os ataques inimigos), bem como apreciar, vestir e pegar armaduras e armas utilizadas na época. Sim, vestir e pegar: não preciso dizer que meus filhos curtiram muito esse museu!

Outra cidade medieval cercada por muros é a bela San Gimignano. O caminho de Monteriggioni a San Gimignano, uma subida sinuosa, era também de paralisar os sentidos, pela beleza. “San Gimi”, como eu comecei a chamá-la, foi uma das visitais mais legais que fizemos. A entrada da cidade é por uma porta (isso é uma coisa que chama a atenção em muitas cidades italianas, os portais ou portas gigantes mesmo), que conduz os visitantes à uma rua íngreme, de calçadas estreitas, cheia de lojinhas de louças, facas e presentes, produtos alimentícios (muito salame, carne de javali, queijos e vinhos), pequenas cantinas e trattorias, que desenbocam na praça central, com uma espécie de poço de desejos no meio, com a igreja e mais restaurantes e lojinhas. Foi lá que encontramos por acaso o que apelidamos de “o menor restaurante do mundo”, uma trattoria minúscula que ficava em um vicolo, um bequinho, e que tinha sido eleita por anos consecutivas o melhor lugar para comer em viagens pela Itália por uma revista de viagens. O lugar tinha apenas quatro mesas, para no máximo umas 15 pessoas. O dono do restaurante é o host, o chef, o garçom e o maitre, com apenas uma ajudante na cozinha, com portas abertas ao pequeno salão. Um atendimento impecável e uma das melhores refeições que fizemos na Itália: provamos a iguaria local, javali, como secondo piatto e uma bela pasta como primo piatto. Bravo! A única pena é que simplesmente não consigo me lembrar do nome do lugar. Preciso voltar para anotar.

E infelizmente nossa jornada à minha nonna Itália chegou ao fim, mais uma vez. O que me conforta é saber que mesmo que eu demore um pouco a voltar, quando eu chegar, ela vai me receber de braços abertos, com um sorrisão nos lábios e um monte de guloseimas fantásticas para me oferecer. Coisa de avó.

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