“Biutiful” (Alejandro Iñárritu, 2010)

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por Pedro Cunha

Imagine um filme todo rodado em Barcelona. Imagine esse filme estrelado por Javier Bardem. Não. Não é o que você imaginou. Você não vai ver a fachada da Sagrada Família. Não vai ver cenas de pôr do sol em Port Vell. Não vai ver caminhadas na beira da praia em La Barceloneta. Sim, a rambla aparece, mas apenas uma vez. E tenha certeza que a ênfase, nessa cena, não é nos cafés, nos bares ou nas lojas de flores. Imagine Barcelona. Então tire Barcelona de Barcelona. E então você começa a ter “Biutiful”.

Iñárritu, o diretor de “Amores Brutos” (Amores Perros, 2000) é um diretor que gosta de trabalhar com a grande questão da miséria e da podridão humana, como já demonstrou em “Babel” (2006), filme que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e valeu para Iñárritu uma indicação como Melhor Diretor. Outros temas recorrentes na obra do diretor são a metafísica e a espiritualidade,  presentes por exemplo em “21 Gramas” (21 Grams, 2003). “Biutiful” trata dos dois temas. O roteiro todo gira em torno de Uxbal, o personagem de Javier Bardem. Uxbal é um meio vigarista, meio explorador que batalha para tentar sustentar seus dois filhos pequenos, não podendo para isso contar com a mãe das crianças, Marambra (Maricel Alvarez), uma massagista que sofre de um grave distúrbio bipolar. Uxbal sobrevive ora agenciando trabalhadores ilegais chineses e africanos (e extorquindo-os no processo), ora usando um dom que possui, de se comunicar com os mortos, cobrando dos vivos para transmitir “recados”. A vida pobre na sub-Barcelona segue seu rumo até que Uxbal descobre um câncer avançado e a perspectiva de ter que deixar os filhos pequenos sozinhos (ou ainda, com a mãe) o perturba.

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Javier Bardem tenta educar os filhos na Barcelona que não está nos guias turísticos 

A proximidade da morte faz com que Uxbal comece também a temer o acerto de contas final. Mesmo comunicando-se com os mortos há uma clara mudança no comportamento do personagem que busca aproximar-se da mãe dos seus filhos e, de certa forma, compensar as suas ações em relação aos imigrantes ilegais. Mas nem sempre nobres intenções são premiadas com bons resultados, como Iñárritu faz questão de nos mostrar. As pontas da vida de Uxbal vão se encontrando na sua relação tumultuada com o pai, que ele nunca conheceu mas está presente em ambas as pontas da sua vida. A relação de Uxbal com o pai e com o filho, aliás, é uma das linhas-mestras do filme.

O filme todo é centrado em Uxbal, o personagem de Bardem. A atuação do espanhol é tão boa que lhe valeu uma indicação ao Oscar como melhor ator. Andei lendo que teria sido a primeira vez que uma atuação inteiramente em língua espanhola é indicada ao Oscar, mas não tenho certeza se a informação é verdadeira. Na verdade de memória eu lembro de Roberto Begnini indicado por uma atuação toda em italiano por “A Vida é Bela” (La Vita è Bella, Roberto Begnini, 1997) e Fernanda Montenegro indicada atuando o tempo todo em português em “Central do Brasil” (Walter Salles, 1998). Mas independente disso a atuação de Bardem conduz o filme e comprova que ele é um dos grandes atores da atualidade. A atuação correta de Maricel Alvaréz como a bipolar Marandra, comedidamente exagerada, se é que isso é possível, ajuda a conduzir o filme e dá para o personagem de Bardem, racional e quase calculista, um bom contraponto.

Tecnicamente o filme vence o desfio de mostrar Barcelona sem os clichês de Barcelona. Ambientes fechados, luzes noturnas e tons escuros poderiam contribuir para mais clichês, o que não aconteceu. O filme é bonito, dentro da ideia de que lixo, pobreza e miséria podem ser plasticamente bonitos. A montagem também foi extremamente feliz, sendo um elemento importante para que o filme funcione.

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Uxbal, sozinho. Completamente sozinho. 

“Biutiful” é um soco na boca do estômago. Um pisão na unha encravada do pé. Uma catarrada na cara. É um filme que mostra o que há de podre e de errado no mundo, sem apresentar uma perspectiva de solução. Não há um final feliz. No máximo, há descanso. E tranquilidade, que talvez fosse mais do que Uxbal pretendesse encontrar. O filme é bom, apesar de extremamente triste. E se perde um pouco para mim pela quantidade de assuntos complexos que Iñárritu tenta abraçar. Imigrantes chineses, imigrantes africanos, bipolaridade, câncer, morte, pós-morte, homossexualismo, corrupção policial, problemas com pai, problemas com filho, questões trabalhistas… a impressão que dá é que o filme podia ser um pouco mais sólido se o diretor tivesse restringido as questões. Abordar todas acaba não explorando devidamente nenhuma delas.

PS: “E o Oscar?”, você me pergunta. E com razão. Mas ele vem, calma. Eu tive que dar uma pausa porque são muitos filmes e eu estava ficando para trás… aguardem atualizações no decorrer da semana!

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