Abutres (Carancho, Pablo Trapero, 2010) e outras coisas mais

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por Pedro Cunha

Que o cinema argentino e uruguaio está bombando você já sabe. Que Ricardo Darín é um baita ator e tem olhos incrivelmente expressivos você já sabe. Que um filme pode se segurar fundamentalmente em cima de um bom roteiro e de atores competentes você também já sabe. Que janeiro e fevereiro são meses interessantes para os cinéfilos você certamente também já sabe. Sabe sim, já que nesses meses deságuam por aqui os favoritos ao Oscar e também os sempre interessantes indicados (ou quase) em língua estrangeira. E esse é o caso de “Abutres”.

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O filme de Pablo Trapero certamente só ganhou circuito comercial no Brasil em função de “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Tus Ojos, J. Campanella, 2009) ter abocanhado a estatueta de melhor filme em língua estrangeira no ano passado. E combine isso com a presença em ambos de Ricardo Darín, o grande ator de sua geração na Argentina. Mas fora a presença de Darín e o espanhol com sotaque portenho “Abutres” tem pouca relação com “O Segredo dos Seus Olhos”.

“Abutres” é um roteiro que fala sobre podridão humana. Como bem comentou a @graziels, são personagens que não tem carimbo de “bonzinho” ou “malvado” na testa. O filme, a princípio, fala de advogados que exploram inocentes vítimas de acidentes de trânsito, ficando com boa parte das indenizações a que os acidentados teriam direito. Esses mesmos advogados também, algumas vezes, fabricam alguns acidentes para gerar as tais indenizações. Darín é Sosa, um desses advogados que se envolve com Luján (Martina Gusman), uma paramédica que faz plantões atendendo aos casos de acidentes durante a madrugada. Ela também tem seus segredos, como logo descobrimos.

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Sosa, o advogado (Darín), e Luján, a médica (Martina Gusmán): Quem são os Abutres?

O filme se passa quase totalmente em tomadas internas e noturnas, com pouquíssima luz natural, o que acaba reforçando a boa atuação principalmente dos dois protagonistas. O capricho na fotografia é possível de ser percebido nos detalhes, como na apresentação dos personagens. Da primeira vez em que aparecem nunca são retratados de frente, mas sim muito de perto, com atenção para detalhes de cabelos, nariz, orelha, boca e demais partes do rosto. Somos primeiro apresentados às partes, para depois conhecer o todo.

O filme é daqueles perturbadores. Mas é perturbadoramente bom, de vez em quando, um passeio pela podridão da alma humana. Outra reflexão que eu fiz foi pensando no Brasil: gostamos muito, as vezes, de nos menosprezar e achar que falcatrua e jeitinho são monopólios nossos. O filme mostra que não. Certas coisas, não tem jeito, são do interior do ser humano mesmo. Se vale a pena ver? Sem dúvida que sim. Mas não marque nada muito animado para depois…

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Bardem tentando ficar feio no novo filme de Iñarritu

Falando em temporada de Oscar, tem coisa boa em cartaz por aí. Ainda não consegui conferir “Biutiful” (Alejandro Iñárritu, 2010), do mesmo diretor de “Amores Brutos” (2000), “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006) e com Javier Barden, outro ator do qual eu gosto muito. Parece ser uma pedida bacana para quem está procurando algo para assistir. Além dele estão por aí também “Além da Vida”, o novo filme do Clint Eastwood com o Matt Damon (que não deve ser diferente dos outros filmes do Clint Eastwood com o Matt Damon) e “Entrando Numa Fria Maior Ainda” deve repetir as piadas dos dois anteriores, mas o elenco com Ben Stiller, Robert de Niro, Dustin Hoffman e Barbra Streisand é ótimo e deve segurar bem.

E alguém mais, além de mim, está roendo as unhas à espera da estreia de “Cisne Negro” (Black Swan, Darren Aronofsky, 2010)? Eu já tinha dito que o filme tem os cartazes mais lindos do ano. Mas o filme, além disso, tem arrebatado a crítica por onde passa. Natalie Portman levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz, como esperado, já que sua atuação está sendo elogiadíssima. Não sei vocês, mas eu estou bem animado para esse filme…

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Portman, o “cisne negro”, com seu Globo de Ouro

Ainda o Globo de Ouro: Difícil ser mais previsível. “A Rede Social” (The Social Network, David Fincher, 2010) foi, como esperado, o papão da noite. Vamos combinar que o próprio Fincher (“Seven”, “Clube da Luta”, “O Curioso Caso de Benjamin Button”…) já fez coisa bem melhor. Não é que eu não goste do filme, eu só não consigo achá-lo a bolachinha mais recheada, como parece que a crítica gringa tem achado. Portman levou o de atriz, dizem, com justiça. E dizem que Collin Firth, por “O Discurso do Rei”, também. Resta esperar ambos os filmes estrearem por aqui…

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