O Concerto (Le Concert, 2010)

por Pedro Cunha

O que você faria para poder mudar um ponto específico na trajetória da sua vida? Que ponto seria esse? E como essa mudança se refletiria no resto da sua vida? Como se sentiria aquele atacante italiano se pudesse novamente bater o pênalti que perdeu? E aquele candidato que marcou errada uma alternativa na grade e não passou no concurso, se pudesse refazer aquela prova? E aquele cara que estava com o telefone sem bateria e por isso não viu o torpedo da menina, que sem resposta saiu com o outro… se ele pudesse ver a mensagem, será que o faria?

Esse tema já foi amplamente discutido no cinema, que se dá ao luxo de brincar de viagem no tempo. “Corra, Lola, Corra” (Lola Rennt, Tom Tykwer, 1998), “O Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, Harold Hamis, 1993) e “Melinda e Melinda” (Melinda and Melinda, Woody Allen, 2004) são exemplos dessas brincadeiras temporais. O filme sobre o qual eu vou falar hoje de certa forma também brinca com ansiedades e sonhos frustrados. Mas de uma maneira drasticamente mais humana.

“O Concerto” (Le Concert, Radu Mihaileanu, 2010) é um filme francês que conta a história de Andreï Filipov (Alexeï Guskov), um maestro russo que nos tempos soviéticos sofreu perseguições pelo governo Brejnev e por isso caiu em desgraça no seu momento máximo. Seu grande trauma foi a interrupção do Concerto para Violino de Tchaikovsky por um comissário do Partido Comunista. A queda foi brusca: Filipov, que era o regente da Orquestra do Teatro Bolshoi, tornou-se faxineiro do Bolshoi. Sua orquestra foi “expurgada” dos músicos judeus e ciganos que passaram a trabalhar em bicos e subempregos. 30 anos depois, enquanto limpa o escritório do diretor do Bolshoi que constantemente humilha-o, Filipov tem a sua chance de ouro: ele intercepta um fax do Teatro Châtelet, em Paris, que convidava o Bolshoi para uma apresentação na capital francesa.  Por que não reunir sua antiga orquestra e terminar, enfim, aquele concerto? Dentre as exigências feitas pelo maestro está a presença da francesa Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurant)  como solista, uma virtuose conhecida por jamais ter tocado Tchaikovsky. Durante o filme descobrimos que a escolha de Filipov não foi meramente técnica ou musical…

O roteiro peca em vários momentos pela falta de verossimilhança. Se o regime comunista desmoronou faz mais de 10 anos porque o tal maestro não poderia ter uma carreira exitosa no ocidente? Os russos do filme também são EXTREMAMENTE estereotipados. O fato de o diretor ser romeno e de os romenos não terem boas recordações dos russos talvez colabore para isso. Mas a questão é que esses detalhes ficam em segundo plano quando as atuações de Alexeï Guskov e, principalmente, de Mélanie Laurant (que já esteve ótima em Bastardos Inglórios, BTW) vão nos seduzindo e durante o filme passamos a não dar tanta bola assim para esses pequenos furos do roteiro.

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Alexeï Guskov, o maestro, e Mélanie Laurent, a solista

Os demais personagens russos fazem um um núcleo cômico formidável onde, repito, os estereótipos pululam: o judeu dinheirista, o cigano ladrão, o mafioso novo-rico, o alcoólatra afetivo… esse, em especial, colabora para o filme: Dimitri Nazarov interpreta Sasha, o motorista de ambulância e músico que é o melhor amigo de Filipov. Seu jeito esfuziante e expansivo faz o contraponto ao traumatizado comportamento de vítima do velho maestro. As piadas sobre o Partido Comunista, tanto na França quanto na Rússia, também dão o tom do filme. E são parte do que ele tem de bom.

O melhor do filme é, sem sombra de dúvidas, a cena do concerto, que o diretor reproduziu inteiro. A música maravilhosa de Tchaicovsky inundando o Châtelet daquela forma improvável faz com que fiquemos com a respiração suspensa por alguns instantes. É o momento final, no qual enfim o filme se torna uma declaração de amor à música e à arte. Enfim, é um filme que encanta. E cujo final, por incrível que pareça, surpreende. Será que Filipov, 30 anos depois, consegue fazer seu gol? Será que valeu a pena esperar? Será que tudo isso tem um sentido? São as perguntas que o diretor tenta responder no filme…

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Mélanie Laurent, de novo. Por quê? Ah, vá, ela é linda!

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