Os Melhores de 2010

Melhores de 2010 - Cinema.jpg

por Pedro Cunha

2010 chega ao final e foi, cinematograficamente falando, um bom ano. Melhor ainda para mim, que se não consegui ir às telonas com a frequência que eu gostaria fui agraciado com o convite para escrever no PáginaDois, o que me obrigou a ter alguma frequência nos cinemas e, mais gratificante ainda, a constantemente estar pensando sobre cinema. Já que no clima de final de ano pipocam as listas de melhores e piores, vou apresentar a minha também. Como sempre, cinco filmes. Dez são demais e cinco é uma homenagem bacana a “Alta Fidelidade”, também…

5) Tropa de Elite 2 (José Padilha, 2010)

Um trailer que não prometia nada. Aliás, um trailer que prometia coisas ruins. Quando o Capitão Nascimento olhava para a câmera e a voz em off dizia “E dessa vez é pessoal” a sensação era que uma mistura de Rambo, Braddock ou Stallone Cobra era o que ia acontecer. T2 parecia ser uma sequência caça-níqueis de um dos grandes filmes brasileiros desde a chamada “retomada” (meados dos anos 90, sem a Embrafilme), que foi, é verdade, mais destaque pelas polêmicas ao seu redor do que pelo (bom) filme em si. E enfim veio T2. Um filme mais elaborado que o anterior. Um filme mais político que o anterior. Um filme menos violento, fisicamente, que o anterior. E um filme, por incrível que pareça, MELHOR que o anterior. Tropa de Elite 2 não só superou o primeiro Tropa como tornou-se, em tempos de internet e pirataria, o filme brasileiro mais visto de todos os tempos com mais de 11 milhões de espectadores, superando “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (Bruno Barreto), que era soberano nas bilheterias brasileiras desde 1976…

4) À Prova de Morte (Death Proof, Quentin Tarantino, 2007)

A participação de Tarantino no projeto Grindhouse, com Robert Rodriguez, só entrou em cartaz em Porto Alegre devido ao estrondoso sucesso de “Bastardos Inglórios” (Inglorious Basterds, 2009) e com absurdos três anos de atraso. Um filme despretensioso e que foi feito para ser kitsch e trash. Um filme com uma trilha sonora escolhida a dedo como só Tarantino sabe fazer. Um filme com cenas pesadas de violência. Mas tão, tão pesadas que chegam a ser… engraçadas. O filme dialoga com “Planeta Terror” (Planet Terror, Robert Rodriguez, 2007), seu duplo em Grindhouse, e com outros filmes de Tarantino e Rodriguez como Kill Bill (Tarantino, 2003 e 2004) e “Um Drinque no Inferno” (From Dusk Till Down, Rodriguez, 1996) através de alguns personagens repetidos e situações insólitas. Kurt Russel como assassino serial está excelente e onde todos esperavam que o destaque fosse Rosario Dawson quem apareceu foi Zoe Bell, dublê que já tinha trabalhado com Tarantino em diversos filmes e que em “À Prova de Morte” faz o papel de… Zoe Bell. A sequência final do filme é tão acachapante que se sai do cinema ao mesmo tempo chocado e as gargalhadas…

3) Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, Woody Allen, 2009)

Mais um Woody Allen. Um que fala sobre relacionamentos. Um que se passa em Nova Iorque. Um que tem um protagonista intelectualmente genial mas cheio de neuras. Um protagonista que apesar do sucesso acadêmico tem problemas (seríssimos) nos relacionamentos humanos. Você acha que já viu esse filme? Acha que já o viu várias vezes? Pois é, eu também achava. Mas “Tudo Pode dar Certo” é um pouquinho… diferente. Talvez por causa de Larry David, que sobe fazer um personagem Woody Allen ótimo sem fazer uma tentativa de cópia do próprio Woody Allen. Talvez por Evan Rachel Wood, que faz muito bem um personagem difícil porque extraordinariamente simples. Talvez porque seja a volta de Allen à Nova Iorque depois de uma fértil temporada de quatro filmes europeus. Ou talvez porque, quando se trata de Allen, eu seja sempre suspeito. O fato é que a mensagem do filme, repetida e explicada, o fato de David natural e organicamente quebrar a quarta parede, a trilha, a fotografia e os planos-sequência estarem naturalmente encantadores ajuda “Tudo Pode dar Certo” a ser, para mim, um dos filmes do ano.

 

2) A Origem (Inception, Christopher Nolan, 2010)

Difícil dizer mais alguma coisa sobre esse filme. Tanto já foi dito, tanto já foi escrito, tantas teses já foram defendidas… O fato é que Inception poderia marcar a afirmação de Nolan como “gente grande” se essa já não tivesse vindo antes, praticamente desde “Amnésia” (Memento, 2000), o primeiro longa dele. “A Origem” foi definido na Zero Hora da semana passada como um “blockbuster cabeça” (não lembro  se foi o Roger Lerina ou o Ticiano Osório, desculpem!), que é uma definição que eu gostei bastante. É um filme de ação que tem um argumento denso, um roteiro sólido, um elenco sensacional (que inclui Di Caprio, um dos maiores atores em atividade em Hollywood), efeitos de primeira, fotografia caprichada e uma trilha sensacional. Nada no filme está lá por acaso. Daqui 20 ou 30 anos teses continuarão sendo escritas sobre o pião no final do filme e o fato dele cair ou não. “A Origem” é o “Blade Runner” (Ridley Scott, 1982) de nossos dias. Até inovações e experimentações técnicas o filme traz, como a já famosa cena da luta no hotel em gravidade zero. Eu não sei vocês, mas fazia muito tempo que eu não ficava duas horas literalmente grudado na cadeira.

 

1) O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Juan José Campanella, 2009)

E o melhor do ano, para mim, é argentino. “O Segredo dos Seus Olhos” conta duas histórias: um thriller policial de suspense e uma linda história de amor. As histórias se misturam organicamente, sem forçação. Os três protagonistas tem atuações primorosas: Guillermo Francello, o assistente do oficial, é engraçadíssimo. Ele faz um contraponto cômico importantíssimo para que a história não fique tensa demais. Ricardo Darín, um dos melhores atores argentinos de sua geração, faz Benjamín Espósito, o inspetor policial aposentado que busca resolver os casos deixados abertos no seu passado. Tanto no sentido profissional quanto no sentido pessoal. E há Soledad Villamil. Quem viu o filme sabe que não é necessário dizer mais nada além de citar Soledad. Tecnicamente o filme tem uma cena maravilhosa, o famoso plano-sequência do estádio de futebol. Mas a presença dessa cena, histórica, quase que eclipsa o filme muito, mas muito bem feito. Enfim, o filme do ano. Em um ano de ótimos filmes.

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