Blake Edwards (1922 – 2010)

por Pedro Cunha

O cinema ficou um pouco mais sério em 2010. Além de Leslie Nielsen, que faleceu no final de novembro, semana passada Blake Edwards também nos deixou. E sem ele a sétima arte fica menos engraçada e o humor no cinema, sem dúvida, bem menos elegante.

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Blake Edwards e seu instrumento de trabalho

Blake Edwards nasceu William Blake Turn em Tulsa, Oklahoma, em 1922. Desde cedo esteve envolvido com a atmosfera do cinema. Seu padrasto, Jack McEdwards, de quem ele tirou também o sobrenome artístico, foi produtor de cinema e o pai dele, J. Gordon Edwards, roteirista. Durante a Segunda Guerra Mundial, antes de servir, Blake trabalhou como ator em alguns filmes mas nunca se destacou, já que, nas palavras dele próprio, sempre preferiu dar ordens à segui-las. Sua primeira experiência dirigindo e roteirizando um filme se deu com “Bring Your Smile Along”, de 1955. Mas seu primeiro sucesso foi “Anáguas a Bordo” (Operation Petticoat), uma comédia estrelada por Cary Grant e Tony Curtis que se passava durante a Segunda Guerra onde um capitão tinha que se virar num submarino cor-de-rosa avariado e cheio de enfermeiras do exército. Uma comédia romântica leve e divertida, ainda antes do gênero ser inventado.

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Cary Grant e o seu submarino amare… rosa, quer dizer, rosa!

Em 1961 Blake Edwards dirigiu “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany’s), talvez o seu mais cultuado filme até hoje. O roteiro foi baseado num livro de Truman Capote, adaptado por George Axelrod, que já tinha sido responsável pelos roteiros de “O Pecado Mora ao Lado” (The Seven Years Itch, Billy Wilder, 1955) e “Nunca Fui Santa” (Bus Stop, Joshua Logan, 1956), filmes que consagraram Marilyn Monroe como grande objeto do desejo de Hollywood. “Bonequinha de Luxo” foi o filme que consagrou Audrey Hepburn. Ela pode ter feito filmes melhores, ela pode ter tido atuações mais consistentes, mas _O_ personagem de Hepburn foi, sem sombra de dúvidas, Holly Golightly. E “Bonequinha de Luxo” é um filme que envelheceu muito bem. Continua charmoso e engraçado na medida. Em tempos nos quais parece que para ser engraçado é necessário fazer besteirol um humor sutil e inteligente ainda prova ter muito valor.

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Audrey Hapburn é Holly Golightly. É, bem mais ou menos, não? hshshshs…

Se “Bonequinha de Luxo” é o mais cultuado, talvez o melhor dos filmes de Edwards seja “A Pantera Cor de Rosa” (The Pink Panther, 1963). A história da busca do atrapalhado Inspetor Clouseau pelo famoso diamante é o resultado de uma feliz parceria entre Edwards e Peter Sellers, que encarna magistralmente o protagonista. O próprio Edwards disse que uma das inspirações para o filme veio dos inúmeros filmes mudos de humor de Buster Keaton e Charles Chaplin que ele assistira e isso foi perfeitamente entendido por Sellers, que encarnou Clouseau como todos os trejeitos de um daqueles herois do cinema mudo. Se já não fosse um excelente filme, “A Pantera Cor de Rosa” poderia tornar-se clássica apenas pela sensacional trilha sonora de Henry Mancini. Ou então pela personagem que surgiu na abertura do primeiro filme e tornou-se estrela da sua própria série de desenhos animados. Uma estrela muda, por sinal. Pelo menos na versão clássica do desenho. “A Pantera Cor de Rosa” teve incríveis OITO sequências, entre 1964 e 1993. Todas essas sequências foram dirigidas por Edwards e algumas delas são realmente boas. As duas últimas, posteriores à morte de Peter Sellers (1980), tiveram o italiano Roberto Begnini como protagonista e já não são tão boas assim. As refilmagens de 2006 e 2009, com direção de Shawn Levy e Harald Zwart e com Steve Martin no papel principal são até divertidas, mas só, eu acho, para quem nunca viu os originais.

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Inspetor Clouseau: um dos personagens mais engraçados da história do cinema

A parceria entre Sellers e Edwards também rendeu mais um dos grandes momentos da carreira do diretor: “Um Convidado Bem Trapalhão” (The Party, 1968), um filme simples para caramba onde vemos o que Edwards e Sellers tem de melhor, aquele humor simples e por vezes inocente herdado do cinema mudo.

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Birdie num num

A única indicação de Edwards ao Oscar veio com “Victor ou Victória” (Victor or Victoria, 1982), filme que conta com a participação da eterna Noviça Rebelde Julie Andrews, com quem o diretor foi casado de 1969 até o seu recente falecimento. Andrews fazia o papel de uma mulher que se passa por um homem travesti para conseguir um papel num musical. A situação, engraçada por si só, rende muito bem na mão de Edwards. O diretor foi indicado na categoria “Melhor Roteiro Adaptado” e perdeu para “Missing”, de Costa-Gavras.

A Academia, aliás, reconheceu (como quase sempre, tardiamente) o trabalho de Edwards. Em 2004 ele recebeu aquela estatueta “do conjunto da obra”. Ele não está sozinho: Buster Keaton, Gene Kelly e Fred Astaire, por exemplo, só conheceram esse Oscar. A Academia certamente vai lembrar dele novamente no ano que vem, naquele sempre emocionante clipe dos falecidos do ano anterior…

Jim Carrey entrega o Oscar pelo conjunto da obra para Edwards, que não perde o bom humor…

Edwards já não dirigia desde os anos 90, trabalhando como roteirista principalmente para telefilmes e seriados. Certamente agora ele vai retomar a parceria com Sellers e, quem sabe, fazer mais um excelente episódio da saga da Pantera Cor de Rosa…

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