Kiss and say goodbye: Faith No More em Santiago

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Onze anos após o término de suas atividades em 1998, o Faith No More decidiu retomar sua formação para fazer uma última turnê mundial. Os bons tempos da banda foram revividos em 75 shows ao redor do planeta, onde a banda tocou sets diversos alternando entre 57 músicas de seu repertório.

Depois de dois excelentes shows em Santiago em 2009, um abaixo-assinado foi organizado pelos fãs chilenos pedindo que a banda retornasse à capital para encerrar a Second Coming Tour. Tocados por essa devoção, os integrantes do Faith No More decidiram retornar ao Chile para tornar o desejo desses dedicados fãs uma realidade. Assim, no dia 5 de dezembro de 2010, o Estadio Bicentenario Municipal De La Florida tornou-se o palco da histórica última apresentação de uma das maiores bandas do século XX.

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imagem: Cassiano Rodka

Os integrantes da banda entraram vestidos em ternos brancos, diferentemente dos outros shows da turnê em que apareciam em ternos coloridos. A primeira música não podia ter sido mais inesperada: “Epic”, o maior sucesso do Faith No More, tomou de assalto os fãs presentes que cantaram em coro o refrão. Mais tarde, em uma festa pós-show, questionei o vocalista Mike Patton sobre a escolha da música de abertura e ele me explicou que a banda queria dar início ao show com algo completamente inesperado. Eles se perguntaram qual seria a maneira mais estúpida de começar a apresentação e o tecladista Roddy Bottum sugeriu “Epic”. Mantendo o clima de surpresa, a canção seguinte foi um dos presentinhos da noite, “Everything’s Ruined”, um single pouco difundido em sua época de lançamento em 1992 e tocado apenas nos três últimos shows da Second Coming Tour. Seguiram mais duas faixas do disco de 92, “Angel Dust”: o funk rock de “Be Aggressive”, cantada em coro pela galera, e o peso paranóico de “Caffeine”.

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imagem: Cassiano Rodka

Para acalmar um pouco os ânimos, surgiu a primeira cover da noite. A singela balada “Ben”, composição de Michael Jackson, ganhou uma versão debochada nas mãos do Faith No More. No fim da música, Mike Patton foi pro meio da galera pedir silêncio para entoar os últimos versos no meio das pessoas. De volta ao palco, o riff de guitarra de “The Gentle Art of Making Enemies” chamava o público a incendiar-se novamente. Os gritos de “I never felt this much alive” fazem muito mais sentido quando cantados ao vivo por uma multidão de fãs despedindo-se de sua banda preferida. Continuando com o clima de despedida, a letra de “Last Cup of Sorrow” não podia soar mais triste do que nesta noite. Composta na época em que a banda estava gravando seu último disco, a música faz pleno sentido mais uma vez: “This is getting old and so are you/Everything you know and never knew/Will run through your fingers just like sand/Enjoy it while you can” (“Isso está ficando velho, assim como você/Tudo que você conheceu e deixou de conhecer/Vai escorregar por entre os seus dedos como areia/Aproveite enquanto pode…”).

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imagem: Cassiano Rodka

A segunda música preparada especialmente para a noite foi a balada “Helpless”. Tocada apenas uma vez em 1997, a inclusão da faixa no setlist foi realmente um presentão para os fãs. Os gritos de “help!” entoados pelo púbico no final da música acrescentaram um bocado à performance da canção, que funcionou melhor ao vivo do que eu imaginava. Direto do quinto álbum da banda, “King for a Day Fool for a Lifetime”, surgem duas faixas que mostram dois lados quase opostos do Faith No More: o peso de “Cuckoo for Caca”, costurado pelos gritos desesperados de Patton e os riffs de baixo de Bill Gould; e a levada soul cool de “Evidence”, que traz um incrível diálogo musical entre os teclados climáticos de Roddy Bottum e a guitarra jazzística composta por Trey Spruance. Cantada em espanhol por Mike Patton pela 4ª vez em Santiago, “Evidence” dessa vez foi entoada por grande parte do público, que já sabia de cor a versão da letra.

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imagem: Cassiano Rodka

Regredindo um bocado no tempo, a banda desencavou a ótima “As the Worm Turns”, faixa do primeiro disco, “We Care a Lot”, para deleite dos “fãs das antiga”. Seguiu o hit “Midlife Crisis”, com seu refrão altamente cantável e direito à citação instrumental de “Sir Duke” do Stevie Wonder. A terceira música preparada especialmente para o final da turnê foi “Spirit”, do segundo álbum da banda, “Introduce Yourself”, tocada raras vezes ao vivo. Com vocais cantados por toda a banda na introdução e a voz de Mike Patton no lugar de Chuck Mosely (vocalista original do Faith No More nos dois primeiros álbuns), a música ganhou vida nova e foi um dos destaques do show. Sem falar que foi interpretada por Patton sob uma máscara mexicana de luta livre.

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imagem: Cassiano Rodka

A ótima “King for a Day” começou meio atrapalhada, sem o som da guitarra de Jon Hudson, mas acabou de forma brilhante, com citação da música “Qué He Sacado con Quererte” da cantora chilena Violeta Parra. Os chilenos acompanharam Patton na cantoria e aplaudiram muito ao final da canção. O riff de “Ashes to Ashes” cortou o silêncio anunciando mais uma cantoria em clima de adeus, mas aos gritos e pulos: “Smiling with the mouth of the ocean/And I’ll wave to you with the arms of the mountain/I’ll see you” (Estou sorrindo com a boca do oceano/E eu vou abanar para você com os braços da montanha/Adeus). Fechando o set, a excelente balada “Just a Man” apareceu para fazer todos levantarem os braços sob o comando de Mr. Patton.

O primeiro bis começou com “Zombie Eaters”, tocada apenas pela segunda vez durante toda a turnê. Uma boa surpresa com uma excelente interpretação de todos, com exceção talvez de Jon Hudson, que dá umas “atalhadas” em algumas guitarras mais complexas criadas por Jim Martin. Mas vá, nada que prejudique essa pérola do clássico “The Real Thing”. Do mesmo disco, surge “Surprise! You’re Dead!”, perfeita para ser cantada em coro, assim como a faixa que segue, o primeiro single da banda, “We Care a Lot”.

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O segundo bis iniciou com a famosa cover de “Easy”. Para ser sincero, nem tinha me dado conta de que ela ainda não tinha sido tocada, o que deu um sabor de surpresa para o momento. E foi mais uma música que soou como despedida: “Know it sounds funny, but I just can’t stand the pain/Girl, I’m leaving you tomorrow(…)/That’s why I’m easy/ I’m easy like Sunday morning” (“Sei que soa estranho, mas não posso suportar essa dor/Garota, estou deixando você amanhã(…)/É por isso que estou tranquilo/Estou tranquilo como uma manhã de domingo”). Seguindo a ordem de lançamento dos singles da banda, “Digging the Grave” veio logo após, convidando todos a berrarem o refrão até o final. Houveram vários pedidos por “Ricochet”, mas não foram atendidos. Patton até debochou respondendo “O quê? Pinochet?”.

O terceiro e último bis veio com a cover ensaiada especialmente para o fim da turnê, “Kiss and Say Goodbye”, da banda The Manhattans. A escolha não poderia ter sido mais apropriada, uma balada soul sobre despedida. Assim como “Reunited” (da dupla Peaches & Herb) foi a música perfeita para o início da turnê, “Kiss and Say Goodbye” é o fechamento ideal para uma reunião inesquecível de uma das melhores bandas dos anos 90. Adaptando um pouco a letra da canção, Mike Patton agradeceu a todos por esses meses de shows e convidou os presentes a curtirem esse momento final e seguirem suas vidas: “I wanna hold you just one more time/When you turn and walk away don’t look back/I want to remember you just like this” (Eu quero abraçar vocês mais uma última vez/Quando forem embora, não olhem para trás/Quero lembrar de vocês exatamente como agora). Cumprindo a promessa, Patton desceu para a galera e se jogou nos braços de todos que estavam mais próximos repetidas vezes, como se não quisesse ir embora. A banda foi se retirando, um a um, restando apenas Roddy Bottum nos teclados repetindo o riff da música. Depois de muitos arranhões e puxões de cabelos, Patton se levantou em frente à multidão e cantou os últimos versos da canção. Deixando o microfone na plateia, Mike se retirou abanando. O microfone foi aparentemente destroçado, pelos barulhos que se ouviam, mas não sem antes um fã gritar “PATTON!” com a pronúncia típica chilena. Graças ao efeito de delay no microfone, o grito repetiu-se algumas boas vezes antes do som cessar, deixando claro que nada há de silenciar o fanatismo pela banda mais inusitada do planeta.

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imagem: Cassiano Rodka

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