A Rede Social (The Social Network, David Fincher, 2010)

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por Pedro Cunha

Oquei, just shoot me. Não me lembro em qual dos meus textos anteriores eu, no meio de uma crítica à falta de criatividade da indústria cinematográfica, disse algo do tipo “estão fazendo até um filme sobre o Facebook!!”. Pois é, fizeram. E eu fui ver. E não é que eu gostei?

A minha opinião sobre “A Rede Social” começou a mudar quando eu me informei um pouquinho sobre o que era “o filme do Facebook”. A ideia de um filme falando do processo de criação do site de relacionamentos de maior sucesso nos EUA já era uma ideia mais legal. E quando eu soube que o projeto estava na mão de David Fincher eu tive certeza que o filme seria bom. Por quê? Você pergunta por quê??

O trabalho de Fincher começou a aparecer com “Alien³” (1992), um dos mais sombrios da série. Antes disso, e ainda depois, Fincher trabalhava com videoclipes de artistas como Madonna, George Michael, Sting e Aerosmith. Em 1995, ele dirigiu “Se7en”, um dos filmes mais legais dos anos 90 e o filme que me convenceu que Brad Pitt era um ótimo ator. Aliás, não só a mim. E é um baita thriller, um filme de suspense daqueles de deixar todo mundo grudado na cadeira. Se “Se7en” foi um dos filmes bacanas dos anos 90, em 1999 Fincher foi o responsável pelo “Clube da Luta” (Fight Club). Em várias listas, ele é O filme mais bacana dos anos 90. O que dizer sobre “Clube da Luta”? Regra número um: você não fala sobre o Clube da Luta.

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Brad Pitt e Morgan Freeman são os detetives em “Se7en, os Sete Crimes Capitais”

Dentre outros filmes, Fincher lançou ainda “Zodíaco” (Zodiac, 2007), a perturbadora história real de um serial killer que agiu nos EUA e nunca foi pego. Como fazer um filme que na real não tem final? Fincher fez. E em 2008 surpreendeu todo mundo com “O Curioso Caso de Benjamin Button” (The Curious Case of Benjamin Button), adaptação de um conto de F. Scott Fitzgerald sobre o homem que nasceu velho e foi rejuvenescendo até morrer bebê. Além da história fantástica sobre envelhecimento e amadurecimento, o filme conta com as atuações soberbas de Brad Pitt e Cate Blanchet. Fincher foi indicado ao Oscar por Benjamin Button.  E então vem “A Rede Social”

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Brad Pitt encarna o velho jovem Benjamin Button

O filme teve seu roteiro adaptado do livro “Bilionários por Acaso”, de Ben Mezrich, que conta a história da criação do Facebook e de todas as polêmicas envolvidas no processo. E que não foram poucas. Algumas críticas não gostaram da adaptação do roteiro feita por Aaron Sorkin por ele tomar algumas liberdades, mudar algumas situações e criar algumas falas. Mas esses puristas, acho eu, esquecem que a proposta nunca foi a de fazer um documentário e sim um filme. E um filme sobre o quê? Na minha opinião, sobre ética, moralidade, amizade e negócios.

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Você já está no Facebook?

Mark Zuckerberg é um gênio da computação estudando em Harvard. Já na primeira cena do filme Fincher nos apresenta o personagem: Zuckerberg é um gênio, mas tem dificuldades nos relacionamentos humanos. É inseguro e, ao contrário do Sheldon de The Big Bang Theory, sente sim a necessidade de aceitação pelos grupos, clubes e fraternidades da Universidade. É numa madrugada de dor de cotovelo, depois de levar um fora da menina com quem saía, que Mark, juntamente com seu amigo brasileiro Eduardo Saverin, cria a ideia que viria a ser o embrião do Facebook. A quantidade de acessos recebidos pelo site consegue derrubar o sistema de Harvard, chamando a atenção de toda a Universidade para Zuckerberg. Para o bem e para o mal, já que o site criado por ele era um onde comparavam-se fotos entre as meninas da universidade e votava-se em qual delas era mais interessante. Se no campo da programação Zuckerberg ficou famoso, entre as meninas de Harvard ele não se tornou tão popular assim.

O surgimento da ideia do Facebook é nebuloso. A ideia foi de Zuckerberg? Foi dos irmãos Winklewoss, típicos estudantes populares e remadores de Harvard que contrataram Zuckerberg para desenvolver um site com uma ideia beeeem semelhante, mas que ele nunca fez? A contribuição de Saverin foi fundamental ou não? E qual a importância da ajuda prestada por Sean Parker, o criador do Napster e ídolo de Mark Zuckerberg?

Essas perguntas são apresentadas num roteiro montado a partir de flashbacks e cenas de tribunais onde os processos dos irmãos Wiklewoss contra Zuckerberg e de Eduardo Saverin contra ele também vão sendo descortinados. Fincher e Sorkin fizeram uma aposta ousada, quebrando toda a linearidade da história. Se o resultado poderia ser confuso, acabou ficando longe disso. A história é perfeitamente compreensível e é muito, mas muito bem conduzida por Fincher. O diretor, aliás, transforma a história naquilo que ele sabe fazer melhor, um thriller de suspense. Colabora bastante para isso a trilha sonora composta por Trent Reznor, do Nine Inch Nails, que já era parceiro de Fincher em outros filmes. Se nesse ano Fincher foi finalmente indicado ao Oscar por Benjamin Button, certamente o será novamente por “A Rede Social”, que é uma aula de boa direção. Talvez leve, inclusive, o troféu.

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Zuckerberg entedia-se durante uma sessão do tribunal

Os atores, bem dirigidos, são ótimos. O destaque fica para Jesse Eisenberg, que interpreta Zuckerberg. O ator consegue passar a profundidade do personagem e deixar no ar a dúvida quanto ao caráter dele. É um aproveitador? É um mentiroso? É uma criança grande e inocente? Não dá para ter certeza. É um personagem denso e difícil e Eisenberg cumpriu a tarefa de colocá-lo na tela. Andrew Garfield faz o brasileiro Eduardo Saverin, o amigo traído. A ambiguidade do que ele sente por Zuckerberg também fica aparente. E há que se destacar também a participação de Justin Timberlake como Sean Parker, mais um personagem do qual nos questionamos a respeito das reais intenções e do caráter.

O resultado final é um filme que prende por duas horas e que lança perguntas sem trazer respostas. Até porque talvez não haja respostas. As pessoas não são bidimensionais, “do bem” ou “do mal”. São pessoas. E o filme de Fincher, no fim das contas, talvez seja sobre isso: sobre pessoas. O título do filme, aliás, tem um duplo significado. A Rede Social não é exatamente sobre o Facebook, mas sim sobre as relações entre as pessoas envolvidas na sua criação. Todos os modernos questionamentos sobre relações e amizades virtuais ficam em segundo plano quando nos defrontamos com as pessoas e os relacionamentos da vida real. Como Zuckerberg mesmo demonstra, sem dizer, relacionar-se com pessoas pode ser muito mais complicado do que criar um site com 1 milhão de usuários.

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