Aqui, hoje

aquihoje
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“And If I say I really loved you
And was glad you came along
Then you were here today.
Uh, uh, uh, for you were in my song.”

“Here Today”, Paul McCartney
“Esta noite, eu finalmente entendi a Beatlemania”. Foi a frase que ouvi de meu Padrinho, Jorge, após o show de Sir Paul McCartney em Porto Alegre, no último dia 7 de novembro de 2010. Um dia para ficar na história do rock’n’roll. E também na história de Porto Alegre, do Brasil e na história da minha família, uma família beatlemaníaca.

Eu nunca tinha ido a um show em estádio. Tenho pavor de multidões, então, sempre evitei qualquer tipo de aglomeração. Dia desses, fui a uma final de campeonato de futebol – especificamente um GreNal, o clássico do futebol gaúcho – e isso me deu um pouco mais de coragem.

Quando eu soube que Paul McCartney viria ao Brasil, e tocaria em Porto Alegre, prometi ao meu filho mais velho, Vito, de 11 anos (um dos mais jovens beatlemaníacos do mundo!), que nós iríamos a esse show, chovesse ou fizesse sol! E fez sol. E como fez sol no último dia 7 de novembro de 2010. Um sol escaldante de 32 graus instalou-se na cidade para receber o mais “comportado” e hoje mais aclamado dos Beatles, na minha terra natal. Em Porto Alegre, quando faz calor, é calor meeeeesmo. Quem é porto-alegrense sabe muito bem disso. E quem é porto-alegrense não esquecerá facilmente esse 7 de novembro de 2010. Na minha memória, ao menos, vai ficar gravado como o dia mais quente de minha vida. Um dia de aquecer não só o corpo, mas principalmente a alma e todas as emoções. De fritar o coração, de escaldar os nervos, de ferver os ouvidos e garganta. Tudo por obra da melhor música já feita nos últimos tempos.

E para Porto Alegre fomos, de avião, na manhã do lindo domingo que foi o dia 7 de novembro. Eu, Vito e o Márcio, aquele colorado fanático, meu marido. Chegando em Porto, encontramos meu irmão, o Cassi Rodka, que todos vocês conhecem bem (ele postou nessa semana belíssimas impressões dele sobre o show na seção Música deste P2, confiram!). O Cassi estava com nossos ingressos, retirados com antecedência no Estádio Beira-Rio, casa de tantos momentos maravilhosos para o nosso time, o Internacional de Porto Alegre, que agora abrigaria com carinho um dos quatro garotos de Liverpool. Assim, convidamos o meu mano para nos acompanhar nos nossos deliciosos momentos “pré-show”.

Assim, fomos para o hotel, onde também estavam hospedados Paul, banda e equipe toda. A emoção era gigante. Meu filho não conseguia conter o entusiasmo e a ansiedade, pois torcia por poder dar de cara com seu ídolo. Almoçamos no hotel, que estava cheio de fãs do lado de fora e também no lado de dentro, pessoal que se hospedou lá apenas para tentar “tirar uma casquinha” de Sir Macca! Minha irmã, Camila, também chegou depois por lá, e, juntos, ficamos de “tocaia”, no lobby do hotel, pois havia rumores de que Paul sairia logo para o Beira-Rio. A banda desceu antes, e conseguimos autógrafos e fotos com os fabulosos músicos de Paul: Abe Laboriel, baterista; Brian Ray e Rusty Anderson, guitarristas, e Paul “Wix” Wickens, tecladista. E nada dele! Esperamos, impacientes, até que um burburinho começou a indicar que ele estava por descer de seu quarto para o lobby. Os seguranças armaram um cordão de isolamento e pediram que não ultrapassássemos. Ai, ai, ai!! Ele estava chegando! Vito estava emocionadíssimo. Nós cinco começamos a combinar quem iria filmar, quem iria tirar fotos, e quem iria tentar pegar um autógrafo. Depois de uns quarenta minutos de espera, o elevador se abre, e Sir Paul aparece, fingindo surpresa (colocou as mãos na boca). De óculos escuros, sorrindo e acenando amigavelmente para todos. Um cara pra lá de simpático. Aliás, um dos jornais locais o chamou, muito apropriadamente, de “Sir Simpatia”. Cercado por seguranças, passou desfilando pelo lobby, enquanto o povo gritava e clicava sem parar! Meu irmão conseguiu tirar fotos e apertar a mão dele (sim!), e meu filho e meu marido fizeram ótimos filminhos. Eu estava decidida a apenas olhar, sim, observar, porque é o que faço de melhor nesta vida, depois de escrever, claro(!). Já na rua, os fãs que estavam do lado de fora foram à loucura, e Paul continuou sendo mega caloroso com todos. O autógrafo, infelizmente, não deu para pegar. Ah, mas já valeu demais. Só vê-lo de pertinho já foi muito emocionante.

Em seguida, começamos a nos organizar para sair para o estádio. Eram ainda quatro horas da tarde, e o show só começaria às nove, mas meu irmão, um frequentador de shows veterano (já esteve cara a cara com Mike Patton!), recomendou que fôssemos cedo. Lá chegando, ainda ficamos algum tempo aguardando a abertura dos portões dentro de nosso carro, pois o calor estava de matar.

A fila do Gramado VIP, onde ficamos, andou sem maiores problemas. Entramos no Beira-Rio por volta das seis da tarde, e foi uma imagem fantástica. O estádio já estava bem lotado, mesmo faltando três horas para o início do show. Encontramos meu Padrinho, de quem já falei no início desta crônica, e também na crônica “No Submarino Amarelo”. Ele foi o responsável pela Beatlemania na nossa família. Ele estava com a minha tia Maria Augusta, e suas quatro filhas, minhas primas Luísa, Laura, Isabel e Lívia estavam espalhadas por outras áreas do estádio (infelizmente, por conta da loucura que foi a venda de ingressos, não conseguimos ficar juntos, mas certamente estávamos todos juntos em pensamento, cantando e chorando de emoção e felicidade!).

Estávamos todos muitos felizes por estarmos ali. O show ainda nem havia começado, e eu já me sentia totalmente contagiada pelo clima do espetáculo que estava por vir. Eu e meu filho fomos a uma banca que vendia camisetas do show, porque ele queria muito ter uma lembrança (ele adora lojinhas de “souvenirs”). Comprou uma linda camiseta preta, onde se lia “Paul McCartney Up and Coming Tour Brasil”, com uma bandeira do Brasil ao fundo e uma foto do Paul por cima.

E chegou a hora! Após a abertura, feita por uma banda chatinha pra caramba, os telões começaram a exibir imagens com Paul e os Beatles em diversas fases de suas vidas e carreiras, com algumas músicas deles tocadas em mixagens diferentes. Muito bonito, legal demais. Quando as imagens cessaram, as luzes se apagaram. Ao se acenderam novamente, a banda entrou, com Paul à frente. Coração em disparada, senti que minha alma se destacou do meu corpo, e eu parecia que eu podia ver meu rosto em êxtase! Uma sensação inigualável e inesquecível…

Quando ouvi os primeiros acordes de “Venus and Mars”, a canção que abriu o espetáculo, fui invadida por uma felicidade imensa e incomparável. Já dei à luz dois filhos: não há êxtase maior. Mas ouvir Paul McCartney a alguns metros de distância arrepiou-me desde os fios dos cabelos até as pontinhas dos dedos dos pés. Meu filho, que estava já confortavelmente postado na garupa de meu marido, trocou comigo um olhar mais do que cúmplice, com um sorrisinho de canto de lábios que só ele sabe dar: ele estava me dizendo (porque ele sempre fala comigo pelo olhar), “Mamãe, o cara tá aqui!”.

Depois de tocar as duas primeiras músicas, ele deu um empolgado “Boa noite, Porto Alegre! Boa noite, Brasil!” (pronunciando, “Boa noitchi”!), seguidos de um gigantesco grito da plateia inteira, emocionada, gritando, pulando, traduzindo a essência da Beatlemania. E não foi só isso que ele falou em português: se esmerou para dizer muita coisa para a plateia em nossa língua, mas se esmerou mesmo, como se tivesse ensaiado com muito afinco, um bom aluno, sem dúvida! “Bah, tchê”, “Tri legal”, “Vamos lá, gaúchos” (dizia “gaútchus”), foram as frases que levaram a multidão à loucura. Outras frases: “Essa música eu fiz para a minha gatinha Linda” (antes de tocar “My Love”), e “Essa música eu fiz para o meu amigo John” (antes de “Here Today”, linda música, letra de levar às lágrimas), e ainda “Essa é para o meu amigo George”, que disse antes de cantar “Something”, que foi um dos momentos mais emocionantes para mim, já que George é o meu segundo beatle favorito, e “Something”, umas das minhas canções preferidas. Na hora de “Something”, ao fundo, no telão do palco, apareciam imagens de George, lindas! Mais ao final, entoando um “Ah, eu sou gaúcho”, os fãs ainda fizeram com que Paul repetisse a frase! Demais, demais, demais!

E assim, em uma sucessão de canções cuja ordem sabíamos de cor, já que o Cassi tratou de nos enviar o “set list” há mais de um mês, cantamos, gritamos, dançamos, pulamos e choramos, em uma catarse coletiva como eu nunca tinha visto em minha vida. Meu filho parecia perplexo. Seus olhinhos pareciam cansados e ao mesmo tempo incrédulos: “Mamãe, o cara está MESMO aqui!”. Meu marido aguentou bravamente o guri nas costas, durante quase todas as três horas de show, cantando emocionado “Band on the Run”, “Live and Let Die” e “The Long and Winding Road”, suas músicas preferidas.

Pulei e gritei demais em “Back to the U.S.S.R”, “Helter Skelter” e “O-Bla-di-O-bla-da” (que foi tocada pela primeira vez no Brasil, de acordo com informação dada pelo próprio Paul) e vibrei e me emocionei demais particularmente em “Something”, “I’ve Just Seen a Face”, “Blackbird”, “Here Today”, “Let it Be”e “Hey Jude”, que provocou um dos momentos mais bonitos do show, com o povo todo acendendo isqueiros e celulares e cantando, de acordo com o que Paul pediu, novamente em português, “Só os homens!”, e “Só as mulheres!”, e “Everybody now!”. Um espetáculo à parte!

Quando foi cheganda a hora de Paul tocar e cantar as duas últimas músicas do show, “Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “The End”, eu juro que comecei a ficar com vontade de chorar, porque a minha alegria era muito imensa, e também porque eu não queria que o espetáculo acabasse jamais… Eu nunca pensei que fosse tão fantástico assim assistir a um show em estádio lotado. Principalmente quando este show foi orquestrado por um de meus ídolos, Paul McCartney. Foi como se eu tivesse tomado um banho gigante de uma chuva leve e super refrescante, uma chuva que me fazia massagens sutis no espírito.

Saí de lá com um alívio imenso, como se eu tivesse tirado o peso do mundo de meus ombros: “Don’t carry the world upon your soulders!”. Meu irmão Cassi me disse que só ao final do show eu sentiria fome, cansaço, sono, vontade de ir ao banheiro, tudo junto. Ele tinha razão. Durante o show, foi como se o corpo parasse por três horas. Só a mente trabalhou, irracionalmente, fazendo um desenho de cores e sons nunca antes por mim vistos. Fazia tempo que eu não me divertia tanto assim, fazia tempo que eu não ficava tão feliz assim. Fico revivendo os momentos do espetáculo, e isso me faz um bem imenso. Foi como eu tivesse entrado uma pessoa, e saído outra. Depois do dia 7 de novembro de 2010, minha vida nunca mais será a mesma. Será mais leve. Disso tenho uma certeza muito presente. E crescente.

Thanks a lot, Sir Paul McCartney.

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