Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, Woody Allen, 2010)

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por Pedro Cunha

Todo mundo tem um restaurante preferido. Aquele restaurante que a gente conhece cada mesa, mas tem uma preferida, que quando está ocupada acaba nos deixando com um sentimento quase que de assalto. Nesse restaurante o garçom nos trata pelo nome e não pergunta qual a bebida que nós queremos. Ele pergunta como vão as coisas no trabalho e sobre aqueles amigos que vem sempre junto, porque eles não vieram dessa vez e essas coisas. Na hora de pedir nós já conhecemos cada um dos itens do cardápio. E mesmo que já saibamos exatamente o que vamos pedir, sempre damos aquela passada de olhos no cardápio para ver se tudo continua certo ali. Quando chega o prato nós já sabemos o que vem. Já sabemos como cheira, já sabemos o gosto que tem. Ao colocar o primeiro pedaço na boca a satisfação que sentimos é a satisfação da repetição: é comer algo que gostamos muito e que já sabemos exatamente quais sensações irá nos despertar. Pois então, é mais ou menos assim que eu vou assistir a qualquer filme novo do Woody Allen.

“Você Vai Conhecer o Homem da Sua Vida” (um título que não tem relação com o filme e que, argh, dá a impressão de uma comédia romântica das mais vagabundas), o quadragésimo quinto filme dirigido por Woody Allen, não tem data de estreia prevista no Brasil. Quando eu vi no jornal que haveria uma sessão de pré-estreia em Porto Alegre, nem pensei duas vezes. Garanti o ingresso e fui feliz, tendo uma boa ideia do que ia ver.

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Allen dirige Naomi Watts pelas ruas de Londres

O filme passa-se em Londres, mais uma vez, como em “Match Point” (2005), “Scoop – O Grande Furo” (2006) e “O Sonho de Cassandra” (2007) . Depois deles o diretor foi à Espanha em “Vicky Cristina Barcelona” (2008) e voltou à sua Nova Iorque em “Tudo Pode dar Certo” (2009). As paisagens, os parques e os prédios de Londres já são manjados pelo diretor/roteirista, que consegue ambientar a história na cidade sem aquele olhar de turista, o que eu achei que não aconteceu, por exemplo, no filme de Barcelona. O roteiro trata dos assuntos tradicionais de Allen: relações humanas, metafísica e busca pela felicidade e completude. O roteiro segue a vida de dois casais: um de idosos, Helena (Gemma Jones) e Alfie (Anthony Hopkins) e outro formado pela filha deles, Sally (Naomi Watts) e seu marido Roy (Josh Brolin). Ambos os casais estão em crise: Helena e Alfie separaram-se recentemente porque ele teimava em não aceitar a velhice. Como consequência Helena, não vendo mais sentido na vida, tenta o suicídio. Já Sally e Roy vivem uma crise em função da carreira dela como marchand estar decolando enquanto a dele como escritor não conseguir passar de um primeiro romance promissor seguido de várias decepções. Cada um dos quatro personagens principais vai conhecer uma pessoa que, de alguma maneira, mexerá com o seu status quo: Alfie vai enamorar-se de uma atriz/modelo/etc com metade da sua idade, Charmaine (Lucy Punch). Sally começa a trabalhar com Greg (Antonio Banderas), dono e gerente de uma galeria que esbanja charme. Roy, pela janela do apartamento, descobre Dia (Freida Pinto), uma musicista recém mudada para o prédio vizinho a quem ele espiona. Helena, por sua vez, conhece Cristal (Pauline Collins), uma vidente charlatã que faz as vezes de terapeuta/auto ajuda para a velha Helena.

Quatro vidas que serão transformadas de diferentes formas. Quem se dá bem? O que é melhor, apostar no sobrenatural? Num amor idealizado? No sucesso profissional a qualquer custo? Na ilusão? É essa a pergunta que Allen tenta responder. Não, não vou entregar a resposta, não se preocupem. Mas a trama desenvolve-se bem de acordo com as tramas do narigudo, com algumas situações inusitadas que tornam-se reviravoltas e forçam os personagens a fazerem escolhas difíceis.

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O ótimo Josh Brolin observa, pela janela, a linda Freida Pinto

Allen sempre foi um bom diretor de atores. Nesse filme o destaque, na minha opinião, é Josh Brolin, que tem se mostrado um ótimo ator. Seu desempenho em “Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme” (Wall Street – Money Never Sleeps, Oliver Stone, 2010) é uma das melhores coisas do filme e ele também é ótimo em “Milk – A Voz da Igualdade” (Milk, Gus van Sant, 2008). A interpretação dele para Roy deixa transparecer os conflitos internos do personagem e consegue nos fazer torcer por ele, mesmo quando suas ações são eticamente questionáveis. Anthony Hopkins está divertidíssimo e extremamente convincente, como de costume. Gemma Jones faz uma velha excelente. Chata na medida, impossível não lembrar, em vários momentos, das nossas próprias mães, sogras ou avós. Agora, quem rouba o filme para mim é Lucy Punch, a prostituta Charmaine. Seu acentuado sotaque britânico e a cara de barata tonta que ela faz durante o filme todo são geniais. A atriz de 33 anos é mais um daqueles achados de Allen, que gosta de procurar para seus filmes atores fora do grande escalão. Naomi Watts e Antonio Banderas, os “medalhões” do elenco, juntamente com Hopkins, também estão ótimos.

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Anthony Hopkins não mastigou ninguém no filme, mas Lucy Punch roubou-o

Falar sobre a condução do filme, o enquadramento ou a fotografia seria repetitivo. É um filme de Allen clássico. Não um dos melhores, é verdade. Mas também longe de ser um “Woody Allen ruim, se é que isso existe”, conforme disse a Zero hora ontem. Acho que não é um filme que eu recomendaria de olhos fechados para qualquer um, mas se você gosta de Woody Allen… bem, você sabe o que vai encontrar. É bem isso mesmo.

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