Paul, o beatle gaúcho

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

São 21h do dia 7 de novembro e o estádio Beira Rio encontra-se tomado por fãs de Paul McCartney de todas as idades. Mais ou menos 50 mil pessoas aguardam a entrada do músico inglês. No telão, diversas imagens contam a história do beatle ao som de remixes de canções compostas por ele. Depois de uns dez minutos, Paul entra no palco com sua banda e recebe todo o carinho que merece.

O show tem início com um medley de três músicas da época de McCartney com os Wings. A curta baladinha “Venus and Mars” não pode ser mais apropriada para abrir o set, com seus versos que dizem “Sitting in the stand of the sports arena/Waiting for the show to begin” (“Estou sentado na pista do estádio/Esperando o show começar”). Ela encaixa em “Rock Show”, exatamente como no disco de 1975, fazendo o público tirar o pé do chão. Logo em seguida entra “Jet”, convidando a galera a levantar as mãos a cada grito de “JET!”.

Na primeira conversa com o público, Paul mostra toda sua simpatia em português: “Oi! Tudo bem? Boa noite, Porto Alegre! Boa noite, Brasil!” A música que segue é “All My Loving”, primeira música dos Beatles a aparecer no setlist, levando todos à loucura. A letra é cantada em coro por todo o estádio. “Obrigado, gaúchos!”, agradece o músico.

“Letting Go” dá uma acalmada na galera, com seu ritmo marcado por guitarras mais lentas. Paul volta a arriscar o seu português: “Esta noite vou tentar falar português. Mas vou falar mais inglês”, brinca. O riff de abertura de “Drive My Car” chama novamente o coro de 50 mil vozes. Imagens de carros e dos Beatles em ação aparecem nos telões. Seguindo no clima estradeiro, a gaita de boca do tecladista Paul Wickens puxa “Highway” (do projeto de Paul com Youth, The Fireman) para meu deleite pessoal, pois sou fãzaço do disco “Electric Arguments”.

Depois é a vez de mais uma da época de Paul com o Wings, “Let Me Roll It”, do clássico álbum “Band on the Run”, relançado em edição especial neste ano de 2010. A canção termina com uma citação instrumental de “Foxy Lady”, de Jimi Hendrix. McCartney senta ao piano de cauda e traz as primeiras lágrimas a este que vos escreve ao tocar a bela “The Long and Winding Road”. Paul volta ao clássico álbum do Wings  com o divertido som do pianinho roqueiro de “Nineteen Hundred and Eighty-Five”. Depois é a vez de “Let ‘Em In”, única faixa do disco “Wings at the Speed of Sound” a ser tocada.

“My Love”, uma das preferidas de meu sobrinho, é dedicada aos casais presentes em bom português: “Eu escrevi esta música para a minha gatinha, Linda. Mas esta noite ela é para todos os namorados.” Após a balada, Paul pega o violão para mandar o countryzinho de “I’ve Just Seen a Face”, acompanhado com palmas do público. Um pedido de “toca Raul” quebra o silêncio após a música, mas Paul opta por mais uma faixa dos Beatles, a bela “And I Love Her”. “Mas bah, tchê!” exclama o músico ao terminar a canção, para delírio da gauchada.

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imagem: Cassiano Rodka

Sozinho ao violão, ele toca a sua inesquecível “Blackbird”. Ao fundo, uma paisagem digital mostra uma enorme árvore perto de Paul enquanto uma lua desce em frente ao telão. Logo depois vemos uma Terra descendo enquanto Paul toca “Here Today”, composta e dedicada – em português, é claro – a John Lennon: “Eu escrevi esta música para meu amigo John”.

O clima se anima novamente com “Dance Tonight” com Paul tocando mandolin sobre uma bateria eletrônica enquanto o baterista Abe Laboriel Jr. faz dancinhas engraçadas ao fundo. “Mrs. Vandebilt” dá continuidade ao clima animado, com o público cantando em coro o divertido coro de “ô-ê-ô” até o final em ritmo de polka. “Eleanor Rigby” ganha vida com a maestria do tecladista Paul Wickens reproduzindo as cordas da música e o ótimo backing vocal do baterista Abe Laboriel Jr.

Com um ukulelê em punho, McCartney toca a singela “Ram On”, de seu segundo disco solo e continua com o instrumento para interpretar “Something”, dedicada ao seu compositor, George Harrisson, que aparece ao lado de McCartney em diversas imagens no telão. “Esta próxima música é para meu amigo George”, diz o músico à plateia. “Brigado, gaúchos!”, diz ele antes de tocar mais uma do Fireman, “Sing the Changes”, que soa muito bem ao vivo e é ilustrada por imagens de Barack Obama no telão. Ao final da canção, ele mais uma vez experimenta a língua brasileira: “What do you think of my ‘português’? Vou tentar falar português.” E repete várias vezes a palavra “português”, dando ênfase ao som do “R” brasileiro, tão incomum a um inglês. E chega a hora do grande clássico do Wings, “Band on the Run”.

Antes de “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, ele convida todos a cantarem junto, destacando que é a primeira vez que ele toca a canção em solo brasileiro. “Tri legal!”, comemora o músico ao fim da cantoria. A música que segue é outro destaque do álbum branco dos Beatles, “Back in the U.S.S.R.”, capaz de tirar do chão qualquer fã da banda. O público grita “Paul! Paul! Paul!” e o músico brinca fingindo que o coro está muito baixo e ele não ouve. Logo em seguida convida todos a repetirem seus gritos de “Oh, yeah!”, “Y-ha”, Yeah yeah yeah”, etc. até ele gritar “Enough!”, o que a plateia acaba repetindo também: “Enough!”

A última hora do show é quase exclusivamente dedicada aos sucessos dos Beatles. O dueto com John Lennon “I’ve Got a Feeling” ganha os vocais do guitarrista Rusty Anderson e do baterista Abe Laboriel Jr. no lugar de John. Em “Paperback Writer” Paul diz que vai tocar a música com a guitarra original que usou na gravação da canção. Outra homenagem a John Lennon surge em “A Day in the Life”, composição de John (tirando a parte do meio, que é assinada por McCartney) que ganha interpretação do músico com direito a citação de “Give Peace a Chance” no final.

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imagem: Cassiano Rodka

De volta ao piano, Paul McCartney dedilha os acordes da delicada “Let It Be”, acompanhada em coro pela plateia, com direito a isqueiros e celulares acesos para o ar. “Live and Let Die”, criada para o filme homônimo de James Bond, surge de mansinho e explode (literalmente!) em um show de labaredas no palco e fogos de artifício no céu. Depois de tamanha comoção, só mesmo o clássico “Hey Jude” para unir as vozes de 50 mil pessoas em um interminável coro de “nananas”. Paul coordena a cantoria: “Agora só os homens. Ok, agora só as mulheres. Todos!”. E a cantoria continua enquanto Paul deixa o palco.

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imagem: Cassiano Rodka

Balançando uma bandeira do Brasil, McCartney retorna ao palco sob um coro de “Ucho, ucho, ucho, o Paul é gaúcho”. A resposta dele? Para surpresa de todos, Paul vai até o microfone e grita “Ah! Eu sou gaúcho!”. O primeiro bis começa com dois singles que não entraram em nenhum álbum dos Beatles, mas mesmo assim tornaram-se grandes clássicos: “Day Tripper” e “Lady Madonna”. Para completar, a clássica do Let It Be “Get Back” tira mais uma vez todos do chão cantando em uníssono o refrão “Get back to where you once belonged”.

No segundo bis, o músico retorna com seu violão para tocar a balada “Yesterday”, possivelmente o maior coro da noite – tirando os nananas de “Hey Jude”. Depois é vez de Paul provar que é um dos pais do heavy metal mandando a maravilhosa barulheira caótica de “Helter Skelter”. Antes de continuar, o músico agradece a presença de todos e lê alguns dos cartazes na plateia. Brinca com um cara que diz querer tocar bateria com ele: “Nós já temos um baterista. Vamos deixar para outra vez”, canta rapidamente um “Parabéns a Você” a uma garota que diz estar de aniversário e depois convida duas gurias para subirem no palco, pois elas pedem que ele autografe o braço delas para tatuarem a assinatura. O músico topa e pede que elas subam. Depois de uma certa dificuldade, elas sobem e realizam o sonho.

O rock continua com a preferida de Mr. Jimi Hendrix, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise)”. O som de uma das guitarras não sai e eles têm de recomeçar. Assim como “Venus and Mars” é perfeita para o início do show, “Sgt. Pepper’s” é perfeita para o encerramento com seus versos “We hope you have enjoyed the show (…)/We’re sorry but it’s time to go” (“Esperamos que vocês tenham gostado do show/Desculpem, mas chegou a hora de irmos embora”). A música encaixa em “The End” acompanhada pela belíssima animação feita para a música para o jogo Beatles Rock Band. E assim o concerto termina com Paul McCartney cantando uma das grandes verdades que ele escreveu durante sua carreira: “And in the end, the love you take is equal to the love you make” (“E no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você faz”).

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