Perfil

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Comecei a mirá-lo pelos sapatos. Gosto de ver como as pessoas se prendem ao chão. Eram negros e grosseiros, porém com ar pueril – um tanto parecidos com os antigos congas da época da escola. Combinavam com seu rosto redondo e grande; com seus olhos escuros e seus espessos lábios. O cabelo lhe escorria de quando em vez sobre o olho e ele o retirava abrindo os dedos das mãos como um leque, aproveitando para penteá-los ao mesmo tempo.
A voz preenchia todo o galpão, voz grave de acalento que repetia e repetia:
– no, no? Como se para verificar se compartilhávamos de seu entusiasmo.
Homem que encontrou a razão de ser o que é: louco por pessoas e pelo que as faz ser quem são. Buscador daquela exceção que revela a regra de cada um – ou, como ele mesmo se define, um escavador. A cada “no” percebia sua vontade de continuar falando e mostrando as estranhas descobertas e as possibilidades de seu fazer – um tradutor de abismos e incoerências.
Os lábios se moviam tortos para o lado direito da boca, revelando uma imperfeição curiosa que por alguma razão me fez vidrar. O vai e vai daquele lábio oblíquo, que será que esconde? Confessar é palavra que afirma odiar. Talvez porque os pecados confessos e as confissões declaradas embacem sua visão. Bom mesmo é caçar a gente, cavocar as contradições lá do íntimo. Fazer gerar o que é na mistura do que nós somos.

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