Tropa de Elite 2

tropa-de-elite-2_00

por Pedro Cunha

Eu fui ao cinema na última segunda-feira para assistir “Tropa de Elite 2” (José Padilha, 2010) tendo quase certeza do que eu iria encontrar. E achando, aliás, que não seria grande coisa. Tinha dois receios grandes. O primeiro deles é o tradicional receio das sequências. “Tropa de Elite”, de 2008, foi um dos maiores acontecimentos da história do cinema nacional e parecia uma história contada sem programação de sequência. Um 2 agora, dois anos depois, gritava “CAÇA NÍQUEIS” nos meus ouvidos. E o segundo receio é que eu tenho uma implicância grande com o primeiro filme por um motivo que, sendo justo, pouco tem a ver com ele, que é a leitura rasa e equivocada que a maioria das pessoas faz do filme e que promove o Capitão Nascimento a herói e repete aquela cantilena de “bandido bom é bandido morto, tem mais é que atirar em todos eles mesmo”. Esse discurso me incomoda e, sendo justo, ele não é o discurso do primeiro filme, mas sim uma leitura que tiram dele. O trailer do filme, que eu já tinha visto umas vezes, não prometia nada diferente do primeiro. Pelo contrário, parecia anunciar mais do mesmo, requentado e reprocessado. Pois é, parecia.

Tropa de Elite 2_01.png
Vai encarar? André Mathias, o “Aspira”, está de volta, agora comandando um esquadrão

Pois bem, eu fui. E a primeira coisa que eu tenho que dizer é que “Tropa de Elite 2” se justifica plenamente. Padilha fez o roteiro em conjunto com Bráulio Mantovani, um dos expoentes da nova geração do cinema brasileiro. Mantovani foi roteirista em Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002), Última Parada 174 (Bruno Barreto, 2008) e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (Cao Hamburger, 2006), alguns dos filmes de maior repercussão na última década no Brasil. O roteiro é mais encorpado do que no primeiro Tropa e dá a impressão que Padilha, injustamente acusado de “fascista” após o primeiro longa, decidiu ser muito claro nesse segundo. A hiperviolência que por vezes foi exagerada em 2008 não está ausente, mas sua presença é mais discreta. Está lá, para quem gosta, mas de uma maneira bem mais suportável.

tropa-de-elite-2_02
Nascimento e o filho: relação complicada e amadurecimento do personagem

Sem entrar em detalhes do roteiro para evitar muitos spoilers (mas já aviso: HÁ SPOILERS NO TEXTO), Padilha já no começo faz a crítica à recepção que o primeiro longa teve. Numa das primeiras cenas do filme, após uma desastrada operação antimotim em Bangu I, Nascimento entra num restaurante para confrontar o secretário estadual de segurança pública. A cena começa nos políticos, que conversam entre si e chamam Nascimento de “louco”, “celerado” e “alucinado” em função da chacina de diversos presidiários pelo BOPE. Quando o próprio agora Tenente-Coronel Nascimento entra no restaurante os políticos assistem, incrédulos, o restaurante inteiro levantar e aplaudir o policial. Ainda com cara de tacho eles próprios abraçam e dizem ser “uma satisfação” ter Nascimento ali. Para mim a cena é uma clara alusão ao tratamento de herói nacional que o então Capitão Nascimento recebeu depois do primeiro filme.

Tropa de Elite 2_03.png
Fortunato, o apresentador/político corrupto caricaturalmente construído pelo ótimo André Mattos

A discussão a que o filme se propõe fica mais ampla com a introdução de outros personagens importantes, dos quais o fundamental é Fraga, ativista dos direitos humanos e deputado (dizem ser inspirado em Marcelo Freixo, um deputado do RJ). O ator Irandhir Santos está bastante a vontade no papel e segura bem demais ao lado de Wagner Moura, que sabemos que não é fácil. Fraga e o seu humanismo fazem o contraponto ideal para a truculência de Nascimento, que enxerga o mundo em preto e branco e dividido em bem e mal. Ambos os personagens, no início do filme, são um pouco caricatos demais. Felizmente tanto um quanto o outro são um pouco suavizados no decorrer do filme. A relação de Fraga e Nascimento com o filho do comandante do BOPE também é um dos detalhes interessantes do filme. Além deles temos o apresentador “isso é um absurdo!!” histriônico de tevê, no maior estilo Datena, brilhantemente encarnado por André Mattos. Fábio (Milhen Cortaz), o policial corrupto do primeiro filme, está de volta muito mais nocivo, fazendo parceria com Russo (Sandro Rocha). Os corruptos se dão conta que com a saída do tráfico das comunidades, afugentado pelo BOPE, abre-se espaço para uma série de outros negócios tão (ou mais lucrativos) do que receber propina do tráfico. É o surgimento das milícias, que hoje são um problema tão grande ou maior que o tráfico. O panorama fica ainda mais amplo quando Padilha coloca os políticos na roda. O secretário de segurança do Rio, o próprio governador e todos os seus assessores aparentemente sem função completam um quadro que é complexo, definitivamente. O discurso final do próprio Nascimento na CPI das Milícias, convocada por Fraga, é tremendamente didático: a solução apontada pelo militar passa longe da lógica simplista “bandido/cidadão” que era bastante esperada por alguns. O filme consegue passar essa mensagem de difícil reflexão sem deixar de lado a catarse do bem contra o mal, que tanto fez pelo primeiro filme. A cena na qual Nascimento espanca o secretário de segurança já está na lista das cenas mais antológicas da história do cinema brasileiro.

Tropa de Elite 2_04.png
Fraga: ativista de direitos humanos e contraponto do Tenente-Coronel Nascimento

A direção de Padilha dá ao filme um ritmo hollywoodiano. Há quem diga isso em tom de crítica, o que não é meu caso. A levada as vezes é frenética, como nas ótimas cenas de ação, e por outras vezes alivia, nas cenas mais pessoas, para nos dar um tempo para respirar. Os efeitos visuais e o som são de qualidade extrema, fazendo valer o investimento em técnicos americanos de efeitos. Em termos visuais a cena do início do filme, no presídio Bangu I (onde Seu Jorge, o arroz de festa do cinema brasileiro, faz uma ponta como presidiário), com a narração de Nascimento no fundo, poderia valer o filme, se ele não fosse substancialmente bom. Poderia valer pelo filme também a atuação madura e segura de Wagner Moura. Sem a farda preta do BOPE seu Nascimento ganhou mais profundidade e deixou de ser tão bidimensional quanto no primeiro filme. Tornou-se mais humano e, portanto, mais próximo de nós.

Tropa de Elite 2_05.png
Nascimento sem farda: surpresa, ele é humano!

“Tropa de Elite 2” conseguiu em uma semana a marca quase absurda de 2,9 milhões de espectadores. O recordista de todos os tempos do cinema nacional, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (Bruno Barreto, 1976) corre seríssimos riscos de ser batido, já que foi visto no cinema por 10,7 milhões de pessoas. Essa audiência toda quer dizer alguma coisa: o público quer ver, pensar e discutir esse problema. Porque essa é a melhor qualidade do filme, ao meu ver: ele não traz uma resposta pronta. Ao jogar um monte de questões no ar e terminar com uma cena panorâmica do Congresso Nacional, ele dá o que pensar. “Tropa de Elite 2” talvez seja o maior filme da história do cinema brasileiro. E consegue isso sem deixar de ser um dos melhores, qualidades que não andam juntas tão comumente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s