Oliver Stone: de volta a Wall Street

por Pedro Cunha

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Jake Moore e Gordon Gekko: nova e antiga gerações de Wall Street

Conforme eu já havia avisado aqui Oliver Stone visitou mais uma vez Wall Street. Segundo o próprio diretor a vontade de retornar ao seu bem-sucedido filme de 1987 veio com a quebradeira de 2008. A crise das hipotecas imobiliárias que arrasou os EUA e o resto do mundo mostrou sua dimensão quando quebrou o Lehman Brothers, sólido banco de investimentos que funcionava nos EUA desde 1850. De lá para cá muitos norte-americanos perderam seus empregos e a recessão espalhou-se, em maior ou menor grau, por todo o planeta. Cinematograficamente falando a crise rendeu alguns frutos interessantes, como “Amor Sem Escalas” (Up in the Air, Jason Reitman, 2009). E agora a volta de Stone a um dos anti-herois mais interessantes dos anos 80: Gordon Gekko, uma espécie de encarnação de Wall Street que tinha como bordão um dos lemas da geração yuppie dos anos 80: “greed is good!”.

O filme começa com Gekko, numa interpretação inspiradíssima de Michael Douglas, saindo da cadeia depois de cumprir oito anos de pena em função de negociação com informações privilegiadas, o que aconteceu no filme de 1987. Uma das grandes sacadas da cena, infelizmente, me tinha sido antecipada pelo trailer. A cena termina com Gekko na porta da prisão sendo aguardado por… ninguém. O que restou para ele depois de ter sido um homem rico, poderoso e influente foi absolutamente nada. É a primeira das lições de moral que Stone coloca no seu filme.

A partir daí somos apresentados aos dois personagens em torno dos quais gravita o filme. O primeiro deles é Jake Moore. Jake é o executivo de Wall Street do século XXI: ele não deixa de ser arrojado e ganancioso, mas deixa muito claro, o tempo todo, que tem princípios. Sua grande ambição não é o próprio enriquecimento (ou pelo menos não só isso) mas sim financiar um sonho: uma refinaria de energia limpa na Califórnia que resolveria problemas ecológicos e energéticos. Um sonho verde, bem adequado aos anos 00. Seu mentor, Louis Zabel, é um banqueiro old school. Mas old school mesmo. Não dos anos 80, mas um daqueles dos anos 50, de gravatinha borboleta e tudo. O banco de Zabel, para o qual Moore trabalha, é uma alusão clara ao Lehman. A trama se desenrola com a quebra do banco de Zabel que, dignamente, suicida-se, numa alusão clara à Crise de 29, quando os executivos de Wall Street defenestravam-se desesperados em função da quebra dos seus patrimônios. A morte de Zabel, para mim, também representa no filme o fim daquele tipo de executivo, ético e responsável.

A segunda personagem central do filme é Winnie, a namorada/noiva de Moore. Winnie é jornalista e blogueira (odeio essa palavra!), um exemplo típico de trabalhadora da web 2.0 que escreve para um site de notícias independente. Totalmente anos 00, também. O detalhe é que a moça chama-se Winnie Gekko. Sim, é a filha de Gordon Gekko. A moça é o protótipo do que os americanos chamam de left/liberal: politicamente correta, engajada e responsável. Seu site é completamente independente e recusa qualquer vinculação a patrocínios, para manter a sua autonomia. Winnie guarda uma mágoa grande do pai em função da morte do irmão por overdose pela qual ela culpa o pai, que na época estava na cadeia.

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Gordon e Winnie Gekko: difícil relação e reconciliação de família também estão entre as questões morais do filme

A trama do filme, que eu não pretendo revelar, nos oferece dezenas de dilemas éticos e morais. Os personagens são arquetípicos, representando os velhos dilemas entre o enriquecimento fácil e o preço que se paga por ele, a ética e a responsabilidade, a família e o sucesso. Oliver Stone, um diretor político, coloca o dedo em cada ferida e remexe-as. As situações-limite testam os personagens e as suas convicções e certezas. O retrato dos EUA e da crise financeira é feito pela ótima Susan Sarandon, que representa a mãe de Moore. Enfermeira de formação ela larga o emprego para comprar casas, hipotecá-las e revendê-las por um preço maior, o que foi durante muito tempo o sonho do dinheiro fácil dos norte-americanos. Quando a bolha estoura e as hipotecas começam a vencer sem que a sra. Moore consiga pagá-las, o filho sugere que ela volte a ter um trabalho. Ela replica: “Mas eu tenho um trabalho… ah, você quer dizer um trabalho com um chefe, um horário, uma rotina??”. Interessantes os comentários de Jake sobre o trabalho anterior da mãe, como enfermeira, e como ele era um trabalho necessário para ajudar as pessoas. Novamente Stone e suas questões morais: a enfermeira humanitária havia sido transformada numa capitalista louca e selvagem. O roteiro é denso e por vezes um pouco arrastado, apesar de muito rico. São muitos diálogos e muitas reviravoltas durante o filme. Com exceção de Winnie Gekko todos os personagens, cada um no seu momento, parecem estar querendo passar a perna uns nos outros. A ideia é mostrar, na minha opinião, a selvageria e o vale-tudo do mercado financeiro. Várias falas de Gekko parecem respostas ao próprio Gekko do filme de 87 e nesse sentido há um resgate bem legal na cena do jantar em Wall Street, que eu não vou entregar para não estragar a surpresa de quem for ver o filme.

A direção de Stone é segura e ele sabe o que tirar da câmera. Achei o filme muito, mas muito bonito. Uma homenagem bem legal à cidade de Nova York: muitas, mas muitas skylines da cidade. E bem diferentes das óbvias, aquelas clássicas do Rio Hudson. Muitas tomadas do centro da cidade em ângulos bem inusitados mostrando os edifícios e arranha-céus de Manhattan. Os takes com os prédios vistos de cima para baixo e de baixo para cima dão uma sensação um tanto claustrofóbica que reflete bem as agonias de viver e trabalhar na Big Apple. Aliás, falando em Big Apple, vale a pena dar uma conferida no texto da Clarice sobre Nova York, aqui: https://paginadoisblog.wordpress.com/2010/10/04/uma-outra-new-york-city-parte-i-o-bairro-e-a-arte/

Deixei para falar sobre todas as atuações no final. Cinematograficamente falando, para mim, é o que o filme tem de melhor. Stone fez um trabalho muito bom na direção dos atores. Shia LaBeuf segura legal como Jake Moore. O filho do Indiana Jones consegue nos convencer que um jovem corretor de Wall Street pode sim ter uma alma e uma consciência. E Winnie Gekko, um papel difícil, ficou com a linda Carey Mulligan. Além de ser linda ela já tinha ido muito bem em “Educação” (An Education, Lone Scherfig, 2009). Winnie Gekko é densa e difícil e Mulligan tira de letra, além de estar linda. E eu já disse que ela está linda? Pois então, ela está linda. Fazendo esses dois funcionarem Stone conseguiu dar andamento tranquilamente para o seu filme. Os coadjuvantes todos estão muito bem, também. No início do filme há o sempre competente Frank Langella, fazendo o banqueiro Louis Zabel. Do meio para o fim há Susan Sarandon, como a mãe de Moore (que não tem nome, enfim). E Josh Brolin faz Bretton James, o banqueiro inescrupuloso que foi ao mesmo tempo responsável pela prisão de Gekko e pela falência e suicídio de Zabel. Bretton é o vilão do filme e ajuda Stone a montar a sua armadilha: todos nós acabamos, denovo, confiando e nos entregando ao Gordo Gekko de Michael Douglas, que está sensacional no papel. Gordon Gekko é um filho da mãe de marca maior, nós sabemos disso. Mas acabamos confiando e gostando dele.

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Brolin, Stone, Douglas, LaBeuf e Mulligan (já disse que ela está linda?)

“Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” faz um belo díptico com seu irmão mais novo de 87. Não é um filme leve, é um filme de Oliver Stone. Esse tipo de filme, que enseja reflexões e questionamentos, tem cada vez menos espaço. O que é uma pena, diga-se de passagem. O fim do filme me deu a impressão de que o diretor estava com preguiça de amarrar tudo e quis terminar o filme de uma vez, optando pelo caminho mais fácil. Se o filme não tem o brilhantismo dos melhores trabalhos de Stone como “Assassinos Por Natureza” (Natural Born Killers, 1994) ou “Platoon” (1986) passa longe também das coisas apagadas como “Alexandre” (2004) e “World Trade Center” (2006) que o diretor vinha fazendo ultimamente. Com certeza valeu o ingresso e deixou alguns questionamentos, o que é ainda mais importante.

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