A sessão perfeita

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por Pedro Cunha

Eu não canso de repetir que as pessoas que questionam os lugares marcados no cinema serão, em determinado momento da história, tão ridicularizadas quanto são hoje aqueles que diziam que a Terra era plana ou os que achavam que o cometa Halley trazia a destruição e o fim do mundo. Oquei, talvez nem tanto, mas algo perto disso. Quem é que pode achar que há algum problema em saber já de antemão quais são os lugares disponíveis e, se for o caso, desistir da sessão em função deles? Outra: quem já foi ao cinema acompanhado e teve que sentar separado sabe com certeza dar valor aos lugares marcados.

Outra coisa que será devidamente estudada a seu tempo é a preferência das pessoas em entrar na fila mais longa só porque na mais curta (às vezes inexistente) não será atendido por uma pessoa e sim por uma máquina. A máquina mágica de compra de ingresso no cinema é extremamente indutiva: não tem como se confundir. Você escolhe o filme, a sessão e os lugares. Paga com o cartão, digita a senha. Os ingressos são impressos e saem pelo buraquinho ali embaixo. Pronto. Já contei, uma vez, 25 pessoas na fila do caixa e nenhuma no caixa eletrônico que, sim, estava funcionando: eu comprei meu ingresso ali. O filme era “Onde Vivem Os Monstros” (Where the Wild Things Are, Spike Jonze, 2009), para não dizer que eu estou chutando.

E já que estamos falando dos hábitos de ir ao cinema, eu sonho com o dia em que não permitirão mais pipoca no cinema (minha namorada me matará quando ler isso, mas tenho a impressão que ela não costuma ler meus textos…). Pipoca faz barulho. Ainda mais quando consumida, como de hábito, com a boca aberta. Desnecessário, não? Uma rede aqui de Porto Alegre, o Cine Guion, durante muitos anos proibiu a pipoca. Além disso quando vendiam as tradicionais balas Azedinhas eles as tiravam do pacotinho tradicional, daquele plástico mais duro, e colocavam as balas num saquinho de plástico molinho, que não fazia barulho. Legal, né? Pois é, nem lá. Até o Guion se rendeu. Pipoca, azedinhas e tudo mais. Mas haverá um dia em que tudo isso será considerado muito estranho.

Nesse mesmo dia também, tenho certeza, vão criminalizar o bate-papo e o celular no cinema. Quem entrar numa sessão de cinema vai saber se portar numa sessão de cinema. Qualquer barulho advindo de um telefone celular durante uma sessão de cinema será advertido com um pequeno choque elétrico na poltrona. Reincidência levará a abertura de um buraco no chão onde o infrator será jogado num fosso cheio de jacarés famintos. Oquei, não precisa isso. Digamos apenas que o infrator reincidente levará uma quantidade estipulada de chibatadas nas costas. Pena que ainda não chegamos nesse nível de civilidade.

Falando em suposições de como as salas de cinema serão no futuro, podemos também especular um pouco sobre a presença de crianças. O bom senso nos diz que há filmes e sessões que são adequados para crianças, outras não. O bom senso ainda nos diz também que os pais conhecem seus filhos e sabem o quão preparados eles estão para ver um filme de determinado gênero ou duração. Infelizmente bom senso não foi uma das qualidades distribuídas pelos Deuses com generosidade: a grande maioria das pessoas não dispõe dele. O que faz com que seja necessária, num futuro não muito distante, uma legislação severa sobre a presença de crianças no cinema, regulando que tipo de filmes elas podem assistir e, principalmente, em quais sessões elas NÃO podem ir. Oquei, nesse meu mundinho ideal os pais farão um exame psicotécnico para poderem ter filhos, mas só para garantir vamos ter uma legislação específica para o cinema também.

E já que eu tirei o dia para reclamar do cinema, da educação dos frequentadores do cinema, dos hábitos das salas de cinema e de tudo mais, por que não reclamar também dos horários dos cinemas? Às vezes o mesmo filme está em cartaz em seis ou sete cinemas diferentes. “Que bom!”, você pensa. “Vou poder ver o filme tranquilamente!”. Pois é. Mas em todos Os sete cinemas as sessões começam num intervalo de 40 minutos. Por exemplo, se uma sessão começa às 19h a sessão mais “distante” dela começa às 19h40min. O que significa que entre 19h40min e 21h, no mínimo, não há sessão. Porque não escalonam melhor isso? Por que não, nos diferentes cinemas, colocar o filme as 19h, as 19h30, as 20h e as 20h30min? Tudo é uma conspiração, eu sei. Tudo é para evitar que eu vá ao cinema e que eu veja um filme novo. Mesmo que hajam filmes bons e interessantes no cinema eles tramam arduamente para me impedir de vê-los. Assim, é claro, eu não vou ter um filme novo sobre o qual escrever essa semana. Eu sabia!! Tinha que ter uma causa para tudo!!!

PS: Talvez você duvide, mas eu não odeio cinema. Na verdade eu gosto tanto do cinema que levo ele a sério. Talvez a sério demais, enfim, mas aí são esses problemas dos apaixonados…

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