O certo e o duvidoso

por Pedro Cunha

Segunda-feira, feriado. Enquanto aqui no Rio Grande do Sul comemorava-se a “epopeia farrapa” (sic) eu decidi tentar a sorte no cinema. A pobreza da programação e a rigidez dos horários me proibiram de ir ao cinema na noite dessa segunda, juro: os (poucos) filmes bons em cartaz eu já tinha visto e os maomeno que eu poderia ver não estavam passando em horários razoáveis. Resultado: apelar para a coleção de DVDs, que está ficando cada vez mais gordinha, aliás.

A bola da vez foi Woody Allen. Dá um desconto, vá. É meu diretor favorito. Não quer dizer que seja o melhor, na minha opinião, mas sim que é aquele que eu mais gosto. São coisas diferentes, sim. Mas enfim, escolhi rever um filme que eu tinha assistido faz bastante tempo e gostado muito na época: “Poderosa Afrodite” (Mighty Afrodite, 1995).

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Há quem diga que a década de 90 do Allen foi para esquecer. Eu não posso concordar com isso. Claro que ela não é tão regular quanto a década de 80 de Allen, mas também não é sempre que um diretor consegue emplacar, em menos de 10 anos, filmes como “Zelig” (1983), “A Rosa Púrpura do Cairo” (The Purple Rose of Cairo, 1985), Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters, 1986), “A Era do Rádio” (Radio Days, 1987) e a memorável participação de Allen em “Contos de Nova Iorque” (The New York Tales, 1989). Mas a mal falada década de 90 de Allen também tem muita coisa boa: eu adoro o “Misterioso Assassinato em Manhattan” (Manhattan Murder Mistery, 1993) e gosto muito de “Tiros Sobre a Brodway” (Bullets Over Brodway, 1994) e de “Celebridades” (Celebrity, 1998). “Desconstruindo Harry” (Desconstructing Harry, 1997) e “Todos Dizem Eu Te Amo” (Everybody Says I Love You, 1996), o musical de Allen, são bons filmes também. No conjunto, convenhamos, difícil alguém ter TANTOS filmes bons quanto o narigudo de Nova Iorque.

Mas enfim, deixando o lado tiete e indo de novo à “Poderosa Afrodite”: é um filme que envelheceu bem, muito bem. O roteiro é muito simples: um casal (Allen e Helena Bonham Carter) de intelectuais nova-iorquinos, ele jornalista esportivo e ela marchand, resolve ter um filho pulando a parte chata da gestação, que poderia ser prejudicial para a carreira dela. Adotam uma criança. Quando o menino começa a demonstrar uma inteligência incomum o jornalista resolve ir atrás da mãe genética da criança, surpreendendo-se ao descobrir que a moça (Mira Sorvino, no papel que a lançou e que lhe rendeu o Oscar de Atriz Coadjuvante) não passa de uma prostituta e atriz de filmes pornográficos, que é tão simpática quanto estúpida.

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Mira Sorvino, a prostituta Linda Ash e Woody Allen, o jornalista esportivo Lenny

Se num primeiro momento o roteiro parece ser mais uma daquelas histórias de relacionamentos problemáticos de Allen ele acabou achando uma solução brilhante para torná-lo diferente: transformou o filme numa tragédia grega. Mesmo. Com direito a coro e corifeu, fazendo o papel de narradores e de fios condutores da trama. Alguns personagens clássicos gregos fazem pontas: Tirésias, o adivinho cego, Édipo, Jocasta e a impagável Cassandra (“Prevejo desastre! Prevejo catástrofe! Pior… prevejo advogados!!”). A condução pelo coro foi uma sacada realmente genial. E também a trajetória do próprio coro, que no início do filme é grave e solene e no decorrer do longa vai se soltando até nos proporcionar um espetáculo de canto e dança nos créditos finais. A escolha de fazer os personagens de Allen e de Bonham Carter em determinados momentos dialogarem com o coro (e principalmente com o ótimo corifeu de F. Murray Abraham, um ator mais conhecidos por papeis secundários na TV do que por grandes participações no cinema.

A direção e o roteiro de Allen são quase que marcas registradas. Atuações sólidas baseadas em longos diálogos e planos sequência a exaustão. Os tradicionais parceiros de produção (Santo Loquasto) e de fotografia (Carlo Di Palma) mantém a discrição de seus trabalhos inclusive nas difíceis cenas do coro em campo aberto, filmadas num anfiteatro localizado na Itália. Cenas ao ar livre sempre são difíceis, e essas ficaram muito boas.

Murray Abraham comanda o coro grego, a grande sacada do filme

Em termos de atuações, há que se destacar Mira Sorvino, sem sombra de dúvida. Sua Linda Ash é uma prostituta tão doce que todos corremos o risco de Lenny, o personagem de Allen, que acaba se interessando por ela. A Sorvino está tão bem no papel que é realmente difícil entender a sumida que ela deu no cinema. Helena Bonham Carter é, como sempre, excelente. É legal vê-la jovem e ver que o talento todo, que hoje é tão evidente, já estava ali. Já Woody Allen… bom, ele é Woody Allen. Alguns diriam, fazendo o papel de Woody Allen. O próprio ficaria incomodado com o comentário e diria que aquele não é ele, mas sim um dos poucos personagens que ele consegue fazer. Mas algumas piadas do filme, como a da casa nos Hamptons, são claramente baseadas em histórias da vida do próprio Allen, como podemos descobrir no excelente livro “Conversas com Woody Allen”, do jornalista Eric Lax.

“Poderosa Afrodite” é um típico filme de Woody Allen. Diverte de maneira inteligente e tem uma coletânea de “quotes” da qual eu já tinha esquecido. Um humor fino e cheio de referências que vai sempre bem, pelo menos para mim. Resta esperar, agora, que as estreias melhorem um pouco a grade dos cinemas. E se não melhorarem, bom, sempre tem mais alguns filmes do narigudo mais antissocial de Nova Iorque para a gente ver de novo…

A cena dos créditos, com o showzinho do coro

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