João Paulo

joaopaulo
imagem: Anelise Schutz

por Clarice Casado

– O João Paulo morreu…!

Foi a frase que ouvi ao entrar no shopping. Uma senhora transtornada falava ao celular, rodeada por duas ou três mulheres que a olhavam com olhares de pena. Uma delas tomou da mão da senhora o telefone, e passou a conversar com a criatura do outro lado da linha, explicando que a dita senhora estava no shopping tal, no lugar tal; provavelmente o sujeito do outro lado da linha iria buscar a senhora. A senhora dizia que não ia esperar, que queria ir embora, enquanto a moça dizia, não, não, a senhora não pode dirigir neste estado. Não sei se se conheciam. A mim pareceu que a moça era apenas uma boa alma que estava ali no momento em que a senhora recebeu a notícia da morte do João Paulo, pelo celular.

Não foram nem dois minutos que passei assistindo a essa triste cena. Eu estava saindo do estacionamento e entrando no shopping, sentei em um banco para guardar quatrocentas coisas em minha bolsa gigante (eu sempre saio do carro com milhões de coisas na mão, tudo caindo pelo chão), quando ouvi, no banco ao lado, o lamento perturbador da senhora.

Ela poderia ser minha mãe. Sim, deveria ter uns setenta anos. O João Paulo poderia ser seu marido, filho, neto, irmão, um primo ou um amigo querido, talvez. Não era pai e nem avô, porque ninguém chama o pai ou o avô pelo primeiro nome.

É incrível o que um acontecimento que se presenciou por dois minutos pode fazer com uma pessoa. Principalmente uma pessoa como eu, que absorve os sofrimentos alheios como se fosse uma esponja gigante, de franjinha loira e óculos com armação rosa bebê.

Os verdadeiros problemas da vida da gente geralmente surgem em uma terça-feira qualquer, quando você menos espera; assim, não se preocupe à toa. Essa frase não é minha. É de um discurso de um orador de Harvard que eu costumava levar para os meus alunos em minhas aulas de inglês. É uma espécie de alerta para que o sujeito não se preocupe todo santo dia com bobagenzinhas, ou não sofra por antecipação, como eu costumo fazer, porque os problemas de verdade, na vida, são aqueles que te sacodem completamente em um dia comum: aqueles que te tiram do prumo, que balançam todas as suas estruturas sem dó nem piedade. Esses, de regra, são os problemas que você não pode prever os mais difíceis de serem solucionados.

Eu passei o dia todo pensando naquela senhora, em seu João Paulo, e no triste desfecho da história. Na coitada da senhora, que estava calmamente passeando no shopping, quando o destino veio impiedoso, lhe dar notícia ruim pelo celular. Malditos celulares. Antigamente, ela poderia ao menos ter terminado o passeio antes de saber da morte do João Paulo.

Os meus pensamentos, é óbvio, se centraram em algo tão, tão lugar-comum, mas tão verdadeiro: você sai no início do dia e aquele seu dia comum pode terminar sendo totalmente incomum. Aquele pode ser apenas mais um dia normal, ou pode ser um dia que vai mudar a sua vida para sempre. Simples assim. A rotina pode matar alguém de tédio, mas a falta dela pode levar o sujeito à loucura.

Não sei quem era o João Paulo e nem o motivo de sua morte. Não sei se ele estava doente e a senhora já esperava a qualquer dia por aquela notícia, mas a verdade é que notícia de morte de alguém querido é sempre inesperada e horrorosa, não importando se já fosse esperada, ou se foi absolutamente de repente.

O fato é aquela senhora perdeu João Paulo em uma tarde qualquer de quarta-feira, e ela nunca esquecerá que no dia em que ele morreu, ela estava naquele shopping, comprando sei lá o que, ou apenas passeando, e ela para sempre vai lembrar disso quando colocar os pés de novo naquele lugar. Vai lembrar da moça que a ajudou, mas certamente não lembrará de seu rosto e nem de sua voz. Porque em sua memória daquele dia, o que ficará, para sempre, será apenas João Paulo.

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