Uma Noite em 67 (Renato Terra e Ricardo Calil, 2010)

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por Pedro Cunha

21 de outubro de 1967. No Teatro Paramount, no Rio de Janeiro, era disputada a final do III Festival da Música Popular Brasileira. Os festivais agitavam um cenário marcado, por um lado, pela grande novidade que era a televisão e, por outro, a explosão de uma nova geração da MPB que buscava o seu espaço com o ímpeto e a energia dos vinte e poucos anos e de quem tem muita coisa para provar e para dizer. Essa é a atmosfera que Renato Terra e Ricardo Calil quiseram recriar em “Uma Noite em 67”, documentário que está em cartaz em alguns poucos cinemas pelo Brasil.

O gênero documentário é o que mais conseguiu crescer e se firmar depois da chamada “retomada” do cinema brasileiro, em meados dos anos 90. Injustamente, porém, é um gênero que ainda não consegue firmar-se nas salas comerciais. Talvez pela falta de ousadia das próprias produtoras, que não fazem campanhas de marketing ou lançamentos mais agressivos como, por vezes, fazem de insossos longas de ficção nacional de qualidade duvidosa. “Doutores da Alegria”, de Mara Mourão, e “Do Luto à Luta”, de Evaldo Mocarzel, ambos de 2005, são exemplos de ótimos documentários que passaram praticamente batidos pelas salas de cinema.

Calil e Terra, em “Uma Noite em 67”, tem um trunfo muito grande: um enorme acervo de imagens originais da TV Record sobre o festival. Não só as apresentações dos artistas mas também muitas horas de entrevistas nos bastidores. Difícil errar o filme com todo essa material à disposição. E Calil e Terra, como era de se esperar, acertaram. Poderiam, porém, ter acertado mais.

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Ao lado dos argentinos Beat Boys, Caetano fez uma plateia inicialmente hostil ovacioná-los

Vamos primeiro falar dos acertos do filme. Os diretores acertaram ao confiar nas imagens originais. As apresentações, na íntegra, de performances de Roberto Carlos (Maria, Carnaval e Cinzas), Caetano Veloso (Alegria, Alegria), Chico Buarque e MPB-4(Roda Viva), Gilberto Gil e Os Mutantes (Domingo no Parque) e Edu Lobo (Ponteio) são emocionantes por si só. Ver esses cantores quando ainda eram jovens e inseguros é um dos pontos altos do filme. É estranho hoje pensar em Caetano ou Roberto sendo vaiados num palco, mas isso aconteceu em 67, no início de suas apresentações. Ver no rosto dos cantores o medo e a insegurança de quando eles ainda não eram “Caetano” e “Roberto” é muito legal. Da mesma foram ouvir suas entrevistas explicando suas músicas cheios de expectativas e dúvidas, também é interessante. Tão diferente de hoje em dia, quando qualquer coisa lançada por Chico, Caetano ou Roberto já tem público e já é sucesso de vendas (e no caso de Chico e Caetano, de crítica também). Nesse ponto outra grande sacada dos diretores: alternar os depoimentos e entrevistas dos artistas em 67 com seus depoimentos atuais. O ponto de vista dos próprios artistas sobre suas canções e sua participação no festival também mudou bastante, 40 anos depois.

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O Rei Roberto: sua mãe já era apaixonada por ele…

Os depoimentos dos envolvidos na organização do festival também ajudam a entender melhor o que o festival era, naquele tempo: um festival, um programa de TV. Os diretores, ao comporem o seu filme, tem uma intenção clara de desmistificar a tal “Era dos Festivais”. Evitam uma armadilha fácil: cair naquela nostalgia falsa e barata do “ahh, naquele tempo…”. Nesse sentido quem ajuda são os próprios depoimentos: Caetano, Chico, Gil, Roberto e Edu Lobo não parecem sentir nenhuma saudade de 67. Cresceram, de lá para cá. Amadureceram, fizeram outras canções e tocaram suas vidas. Não vivem eternamente no sonho de juventude daquele festival, quarenta anos atrás. Caetano, em algum momento, deixa escapar até um desejo de fugir de “Alegria, Alegria”, canção que segundo ele hoje em dia o incomoda um pouco. Essa impressão mais madura sobre o festival também evita vê-lo como um momento de manifestação política antiditadura, como é comum fazer com todos os festivais e com todas as manifestações culturais do final da década de 60. Nenhum dos artistas sequer fala nesse assunto, tanto nas imagens originais quanto nas entrevistas atuais. Se algumas daquelas canções, como Roda Viva, podem ser interpretadas com um profundo sentido político, talvez não tenha sido assim que foram concebidas. Talvez fossem, simplesmente, canções. Essa reflexão sobre o sentido (ou a falta de) dos festivais é a grande reflexão do filme.

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Gil, com Os Mutantes, conta a história do “Domingo no Parque”

Por outro lado o filme deixa a desejar justamente no aspecto mais documental. Foram 12 as canções finalistas do Festival, por exemplo, e o filme nem ao menos cita outras canções que não as cinco primeiras colocadas e “Beto Bom de Bola”, de Sérgio Ricardo. Elis Regina e outros artistas também cantaram naquela noite, o que o filme solenemente ignora. O próprio episódio de Sérgio Ricardo, que parou de cantar em meio a vaias, bateu boca com a plateia e lançou o violão no público fica mal entendido no filme. Não há uma explicação, que poderia ajudar, sobre o crescente daquela briga dele com o público que vinha desde as eliminatórias. Também falta uma explicação sobre o próprio comportamento da plateia durante não só aquele, mas todos os festivais, com suas vaias e aplausos. Há alguma coisa sobre a maneira como Caetano encarou as vaias para “Alegria, Alegria” e sobre toda a polêmica que existia na época a respeito de eletrificar ou não a música brasileira com as guitarras. Nesse sentido o filme poderia ser um pouco mais documentário, um pouco mais didático. Outra falta que senti no filme foi o de depoimentos de participantes que fossem coadjuvantes, como o maestro, algum câmera, algum dos músicos, o operador de vídeo. Esses depoimentos poderiam enriquecer o filme ao contrastar com os dos hoje medalhões da MPB.

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Sérgio Ricardo destrói o violão antes de atirá-lo ao público, com quem bateu boca por causa de “Beto Bom de Bola”

“Uma Noite em 67” é um filme que emociona. As performances (em especial, para mim, as de “Roda Viva”, “Domingo no Parque” e “Alegria, Alegria”) são arrepiantes e os diretores acertaram em cheio em colocá-las na íntegra, sem cortes ou interrupções. Os 85 minutos do filme passam sem que a gente perceba e são bem conduzidos pelos diretores. Um dos pecados comuns nos documentários é na hora da montagem, quando não raro temos a transformação do filme numa colcha de retalhos, o que não acontece aqui. Um filme que emociona, repito, e que definitivamente vale a pena ser visto por aqueles que gostam de música.

PS: Sei que existem (muitos) vídeos das apresentações desse festival no YouTube. Optei, deliberadamente, por não linká-los aqui. Quem for ver o filme merece ter a experiência completa, sem tira-gosto, na minha opinião…

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