Wall Street: Poder e Cobiça (Wall Street, Oliver Stone, 1987)

Wall Street - Poder e Cobiça.jpg

por Pedro Cunha

Em tempos de remakes e continuações pré-programadas, Oliver Stone vem, em pleno 2010, nos oferecer uma continuação para um filme de 1987. Enquanto “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” (Wall Street: The Money Never Sleeps, 2010) não fica pronto, eu resolvi rever o primeiro filme. É engraçado rever um filme de 1987, mas ele é muito, muito Oliver Stone.

Oliver Stone é um cidadão engajado e um diretor marcado por temas políticos. Seu primeiro filme engajado a ganhar notoriedade foi “Salvador: O Martírio de Um Povo” (Salvador, 1986), onde ele critica a intervenção norte-americana em El Salvador. A história, baseada claramente em fatos reais e em personagens reais, é chocante e tristemente atual. Logo em seguida Stone fez um dos melhores filmes sobre a Guerra do Vietnã já filmados: com “Platoon” (1986) ele ganhou os Oscars de filme e diretor, além do respeito da Academia e dos grandes estúdios. Foi com essa moral que ele pode enfim roteirizar e dirigir “Wall Street” em 1987.

O fim dos anos 80 era marcado pelo apogeu do estilo “yuppie”. A expressão surgiu do inglês como um acrônimo para “Young Urban Professional” ou “young upwardly-mobile Professional”, para designar os jovens americanos de vinte e poucos anos que ascendiam economicamente muito rápido devido à especulação financeira em Wall Street. A quebra da bolsa e a crise de 1987 fizeram com que Stone se interessasse pelo tema e resolvesse fazer o filme.

No filme Charlie Sheen faz o papel de Bud Fox, o jovem impetuoso que está disposto a tudo para subir na vida. Dizem que Tom Cruise foi cotado para o papel, mas acredito que o agora eterno Charlie Harper tenha sido a melhor opção além de ter interpretado o papel muito bem ainda tinha que contracenar com seu pai, Martin Sheen, no papel do sindicalista Karl Fox, pai de Bud. O jovem ambicioso ser o filho do velho sindicalista foi uma sacada legal de Stone, assim como o óbvio apelo ao escolher o nome para o sindicalista. Bud Fox está disposto a vender a mãe (ou o pai, enfim) para conseguir a admiração de Gordon Gekko, o megainvestidor que ele quer que o adote como aprendiz. Gekko é um dos grandes papeis da vida de Michael Douglas. Gekko é o arquetípico investidor dos anos 80, disposto a cortar gargantas e subir em cima de tudo e todos para conseguir o que quer. Todo o filme gira em torno da disputa moral entre Gordon Gekko e Carl Fox, que fazem os arquétipos opostos: Gekko é a ganância do capital enquando Carl representa o proletariado e a consciência do coletivo. É interessante ver como o debate entre as forças do capital e as forças do trabalho, entre a ética e o sucesso a qualquer preço continuam atuais. Talvez até por isso Stone, após a crise de 2008, tenha decidido resgatar Gekko e fazer essa continuação.

O elenco principal é fantástico. E o incrível é que os estúdios queriam Warrem Beatty e Tom Cruise nos papeis principais. Michael Douglas foi uma terceira escolha, depois das recusas de Beatty e de Richard Gere, o preferido de Stone para o papel. Hoje em dia é complicado tentar pensar em Gordon Gekko com outro rosto que não o de Michael Douglas. Sheen tem em Bud Fox talvez seu melhor papel no cinema (oquei, com exceção de Topper Harley em “Top Gang”…). Pena que seu personagem, pelo jeito, não está no novo filme. O papel que ele fez deve ficar, pelo que entendi no trailler, com o personagem do Shia LaBeouff, de quem eu gosto bastante também. Só quem destoa no elenco é Daryl Hannah, que parece que não tinha a menor vontade de estar ali. Ou então não entendeu a sua personagem, talvez.

No fim das contas “Wall Street” é um filme que envelheceu bem. Vinte e três anos depois muitas das perguntas que foram feitas durante o filme poderiam ser repetidas quase sem alteração de contexto. Gordon Gekko poderia ser Carlos Slim, Eike Batista, Donald Trump ou Roberto Justus, que se transformam em estrelas num mundo que cada vez mais concorda com o bordão eternizado por Gekko: “Greed is good!”. Pensando bem, dá para entender facilmente porque Oliver Stone decidiu fazer a continuação do filme…

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