A Origem (Inception, Christopher Nolan, 2010)

por Pedro Cunha

“Se um tanto de sonho é perigoso, não é menos sonho que há de curá-lo, e sim mais sonho, todo o sonho. É preciso conhecer totalmente os nossos sonhos, para não sofrermos mais com eles”

Marcel Proust em “Em Busca do Tempo Perdido

 

É a primeira vez que eu começo um texto sobre um filme com uma epígrafe. Mas não tenha dúvidas, o filme merece. E merece também todo o confete que tem sido despejado sobre ele. Na verdade se Nolan exigisse traje de gala para cada um que fosse ao cinema ver o seu filme eu não acharia, depois de vê-lo, que ele estaria exagerando. O filme vale. Mas disso todo mundo suspeitava, vindo de quem veio.

Chris Nolan é um dos meninos de ouro da Hollywood de hoje. Ele apareceu para o mainstream com um filme no mínimo diferente: “Amnésia” (Memento, 2000). O próprio Nolan escreveu o roteiro, adaptado de um conto de seu irmão, Jonathan. O filme é um thriller de suspense onde o personagem de Guy Pearce é atormentado por uma doença rara que afeta a memória recente. Nolan caprichou na montagem do filme para passar ao espectador a mesma impressão que tem o personagem, construindo um filme que, em termos de montagem, é bastante surpreendente. Nolan se arriscou e fez um filme que poderia ser uma colagem ininteligível e que, em vez disso, se tornou badalado no circuito alternativo e lhe deu notoriedade. “Amnésia” custou cerca de 9 milhões de dólares e rendeu quase 40 milhões de dólares, fazendo com que Nolan aparecesse para os grandes estúdios. Seu filme seguinte, “Insônia” (Insomnia, 2002), já contou com um orçamento bem mais robusto (U$ 46 milhões) e respondeu positivamente nas bilheterias, arrecadando U$ 113 milhões e colocando Nolan numa categoria rara: um cineasta que se paga sem grandes campanhas de marketing ou sagas já existentes em outras mídias. Falando em personagens pré-existentes, o desafio seguinte de Nolan era reavivar a franquia Batman. Os dois filmes anteriores do morcego, feitos por Joel Schumacher, foram desastrosos e enterraram não só o Batman mas também os filmes de heróis em geral. Conseguiria Nolan, um diretor de filmes “realistas” e “pequenos”, levar o projeto de reavivar o Batman adiante? “Batman: o Retorno” (Batman Begins, 2005) zerou a franquia e mostrou que o diretor poderia atingir os grandes públicos, para a felicidade dos produtores. Nolan escalou um elenco sério e consagrado de atores reconhecidamente talentosos para o filme, alguns em papeis principais, outros mais secundários: Michael Caine fez o mordomo Alfred, Liam Neeson viveu Henri Decard, Gary Oldman foi o comessário (ainda detetive) Gordon, Ken Watanabe encarnou Ra’s Al Ghul e Lucius Fox foi interpretado por Morgan Freeman. Para o protagonista Nolan achou Christian Bale que recentemente havia feito o bom “Psicopata Americano” (American Psycho, Mary Harron, 2000). Bale deu conta do recado e se não é ainda o Batman/Bruce Wayne dos sonhos com certeza superou os antecessores Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney. “Batman: o Retorno” arrecadou mais de U$ 370 milhões e, mais importante do que isso, tornou Batman um produto sério e respeitável novamente. “O Grande Truque” (The Prestige, 2006), o filme seguinte de Nolan, foi uma volta à linha dos seus filmes anteriores, com mais uma atuação de Bale. O diretor lançou em 2008 a sequência de “Batman: O Retorno” e “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight) colocou, definitivamente, o nome de Nolan na história do cinema: o filme arrecadou estrondosos U$ 1 bilhão e contou com uma das grandes atuações de todos os tempos na telona, Heath Ledger como o Coringa. Ainda que não tivesse falecido logo depois do filme o Coringa de Ledger conseguiu um feito e tanto: é, indubitavelmente, melhor e diferente em relação ao Coringa de Jack Nicholson, de “Batman” (Tim Burton, 1989). “Batman: O Cavaleiro das Trevas” conseguiu andar numa linha muito tênue e ser unanimidade: sucesso de público, foi aclamado também pela crítica.

E agora? Para onde ir depois disso?

(atenção: o texto abaixo pode conter spoilers, ou seja, informações sobre a trama ou o conteúdo da história que podem frustrar aqueles que, como eu, gostam de não saber nada sobre o filme que vão assistir. Veja o filme e depois leia com gosto…)

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Dom Cobb, o Extrator

Nolan optou por realizar um sonho. O roteiro de “A Origem” era uma ideia dele mesmo na qual trabalhava desde os seus 16 anos. Depois de tanto burilar talvez tivesse chegado a hora de transformar o sonho em realidade. Ou a realidade em sonho, enfim. “A Origem” tem um roteiro denso. A quantidade de informação contida nos detalhes cuidadosamente calculados do filme incita o espectador a assistir o filme novamente. Nolan bebeu muito na fonte da psicologia e da interpretação dos sonhos. Há Jung para todos os  lados no filme em objetos, lugares e palavras. Nolan brinca com a ideia dos arquétipos: os personagens do filme, além do nome, todos eles são definidos pela função que desempenham: há “O Extrator”, “O Arquiteto”, “O Turista”, “O Falsário”, “O Alvo”, “A Sombra”, “O Químico” e tantos outros. O próprio filme segue um modelo tradicional de “filme de roubo”: o surgimento de uma missão, a montagem de uma equipe, o planejamento do golpe e por fim a execução. Cobb, o protagonista, (O Ladrão) é um especialista em entrar no subconsciente das pessoas e extrair informações escondidas lá. É um negócio que paga bem. Mas ele precisa de ajuda. Precisa de um Pesquisador, o responsável por conhecer o seu alvo em detalhes, para tornar os sonhos críveis. E também de um Arquiteto, aquele que vai conceber o sonho onde o roubo vai acontecer. Cobb recebe uma proposta de negócio irrecusável: se conseguir o que seu empregador deseja ele será inocentado da acusação de assassinato que pende sobre sua cabeça. Mas o seu empregador quer algo diferente: ele não quer extrair uma informação de alguém, mas sim inserir uma ideia na cabeça de uma pessoa. Ao contrário do que pensam alguns dos envolvidos Cobb afirma que é possível, mas tem que compor um time maior: precisará de um Químico, para manter o Alvo sedado, já que terá que trabalhar por muito tempo, e de um Falsário, especialista em incorporar outras pessoas em sonhos. Além disso Cobb tem que lutar contra A Sombra, o espectro de sua esposas morta que o persegue e cada vez que ele entra no sonho de alguém. Além da dificílima tarefa de inserir uma ideia na cabeça de alguém Cobb ainda tem que lidar com o seu próprio subconsciente sabotando-o o tempo todo. Quem percebe isso é Ariadne, uma jovem talentosíssima cooptada por Cobb para ser A Arquiteta na missão. Ariadne percebe o problema de Cobb e esforça-se para ajudá-lo a sair do labirinto tramado pela sua própria mente. Não por acaso A Arquiteta tem o nome de Ariadne, a princesa grega que segurou o novelo de lã e auxiliou o herói Perseu a sair do labirinto em Creta.

 

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Ariadne, a Arquiteta

 

Nolan monta a trama vagarosamente. Primeiro apresenta os personagens e familiariza-nos com eles. Depois apresenta a missão. E o terceiro momento, que toma toda a segunda metade do filme, é uma espetacular sequência de cenas de ação. É nesse momento que Nolan mostra que é um diretor completo: faz um filme de personagem onde os atores tem oportunidade para atuar e ao mesmo tempo faz um estupendo thriller de ação. As cenas de luta (em especial a cena em gravidade zero no hotel) são, repetindo um clichê, de tirar o fôlego. A superposição das camadas de sonho e os diferentes tempos, nas diferentes camadas do filme, Nolan dosa a tensão e quando nos damos conta o filme está frenético. É um caminhão desgovernado estrada abaixo, sem freio. Ao som de Piaf, Je ne regrette rien o filme aproxima-se do final. E o final, ao melhor estilo Nolan, não resolve a trama. Ou resolve, enfim. Isso é com cada um.

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Arthur, o Homem dos Detalhes

 

O elenco foi pinçado a dedo pelo diretor. Cobb é vivido por Leonardo DiCaprio. Antes eu suspeitava, hoje eu tenho certeza: é o melhor ator em atividade em Hollywood. O Pesquisador, Arthur é Joseph Gordon-Levitt. O ator que tornou-se conhecido por “(500) Dias Com Ela” ((500) Days of Summer) faz um papel completamente diferente, e coloca-se como uma espécie de contraponto de Cobb. Ellen Page, a eterna Juno, faz Ariadne, a Arquiteta. O resto da equipe é composta por Ken Watanabe (Saito, “O Turista”, o empresário que encomenda a inserção) e pelos menos conhecidos (mas ótimos) Tom Hardy (Eames, “O Falsário) e Dileep Rao (Yussuf, “O Químico). Cillian Murphy faz “O Alvo” e o sempre bom Michael Caine é o padrasto (ou sogro, enfim. Isso eu não achei claro) de Cobb. A oscarizada Marion Cotillard faz Mal, a projeção do inconsciente de Cobb da sua ex-mulher morta. O quão difícil é interpretar um personagem que não existe? Quão unidimensional tem que ser um personagem não é uma pessoa, mas sim a projeção que outra faz dela? Sem sombra de dúvida deve ser difícil, mas Cotillard tirou de letra. Além do elenco inteiro ser ótimo a direção de Nolan consegue tirar de cada um deles o que tem de melhor.

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Eames, o Falsário; Robert Fischer, o Alvo

 

Ainda, a trilha sonora: Hans Zimmer, né? As composições próprias dele dão o tom do filme, entremeando-se com a onipresente Piaf, que canta durante todo o filme. Há na presença da voz de Piaff, intermitente, durante o filme inteiro, uma referência à personagem de Marion Cotillard, que ganhou o Oscar pelo papel da cantora francesa? Isso é uma pista de onde termina a realidade e começa o sonho? Ou é simplesmente uma coincidência? Existem coincidências nos sonhos? A trilha de Zimmer, em especial nas cenas de ação, que se passam nos três planos de sonhos diferentes (A Cidade da Chuva, O Hotel, A Fortaleza na Neve. Locais arquetípicos, novamente.). Como explicado no filme, em cada camada de sonho o tempo funciona numa velocidade diferente. O que fez com que Zimmer (e Nolan junto, talvez?) brincassem, como pode-se ver aqui: http://www.brainstorm9.com.br/entretenimento/a-origem-e-o-segredo-da-trilha-sonora/ (agradecimentos ao Mau Oliveira pelo link).

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Mal Cobb, a Sombra

A fotografia e os efeitos visuais também são caprichadíssimos. O mundo onírico tem uma luz muito própria. Ela é difusa, um pouco sem origem alguma. Nos sonhos das pessoas destacam-se às inúmeras referências à Escher, o artista da simetria e da ilusão. A ilusão, como todos sabem, consiste em enxergar o que não existe. A ilusão nada mais é do que uma trapaça que confunde o cérebro, como os personagens do filme também fazem.

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A luta em gravidade zero no hotel já está na história do cinema.

O fim do filme retoma algumas das questões que estão na obra autoral de Nolan desde “Amnésia”, passando por “Insônia” e ainda em “O Grande Truque”. Uma dessas questões é o próprio fazer cinematográfico. Nada na vida é muito diferente de um filme, como o próprio Batman já mostrou em “O Cavaleiro das Trevas”. Sobre isso o Ticiano Osório escreveu um texto bem bacana na Zero Hora (http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3001096.xml&template=3898.dwt&edition=15272&section=999 ). E a principal questão de todas, talvez:  o que é a realidade? O que existe além da nossa própria percepção? Há como ter certeza da sanidade e da realidade? Qual o limite do sonho e da fantasia? Até que ponto o mundo em que vivemos é uma criação de nós mesmos? Eu não sei. Leonard, em Amnésia, não sabe. Cobb, em “A Origem”, também não. Desconfio que o Nolan sabe. Só sabendo mesmo ele poderia brincar tanto com isso da maneira que ele faz.

 

PS: “A Origem” estreou em circuito comercial dia 16 de julho. Até o último final de semana o filme, que custou U$160 milhões já havia arrecadado mais de U$480 milhões. Nolan acertou na mosca, de novo.

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