Diários de viagem

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

À vó Zenyra

Nasceu sob o signo de Peixes, no Dia Internacional da Mulher. Sem igual era o jeitinho com que dava os parabéns a cada mulher que lhe ligava em seu aniversário. Recebia e oferecia, o que, aliás, sempre fez com perfeição. Era só dela a maneira especial com que celebrava o aniversário, com um imperdível chá da tarde para as amigas e para a família.

Foi das poucas mulheres no mundo que conseguiu fazer com que um homem por ela se apaixonasse à primeira vista. Encantava os filhos e netos contando a história de como tudo se deu, na casa da melhor amiga. O amado a viu descendo a escada e pensou, “Com essa morena, eu me casava hoje”. Precisava mais? Precisava. E teve mais, muito mais. Fizeram filhos, netos e bisnetos. Fizeram festas, e fizeram risos, e reuniões de família, e tiveram sempre a casa lotada de pessoas queridas, de comida, de música, de livros, e de bom vinho: ela amava um bom vinho. Fizeram amores e passaram por dores doídas, mas nada que o nascimento de um neto não curasse. Nenhuma ferida é tão eterna assim.

Até que chegou a hora em que o homem que tanto a amava se foi. Como se foram vários queridos seus. Difíceis tempos. Tempos em que a vida pareceu parar. Mas não parou. A vida é curta, mas muito longa. Tempos superados por mais netos, montes de netos. Por mais encontros, mais carinhos, mais amores, casamentos, formaturas, Natais alegres e divertidas entradas de Ano Novo, verões inesquecíveis com os filhos, jogos de canastra, histórias para dormir sobre bonecas mágicas e casinhas todas cercadas de flores para os netos, tardes recheadas de maragatos e memórias, churrascos memoráveis em família, contos engraçados sobre suas empregadas para os bisnetos.

Um dia, comunicou à família que sua companheira fiel de tardes de sábado e cinema a convidara para desbravar o mundo: iriam para a Europa. Lá sei foi a corajosa pisciana. Conheceu os mais belos lugares, até que em certo ponto da viagem, precisou separar-se da amiga. Decidiu, então, ir sozinha para Paris. Precisava mais? Precisava. Sozinha em Paris, sem ter com quem dividir experiências. Mas ela contou que mesmo assim, foi maravilhoso. Em um dos dias passados na cidade-luz, resolveu desgarrar-se da excursão para apreciar sozinha a Torre Eiffel. E foi um colosso. A imagem mais colossal da imensa torre que alguém pode ter tido na vida. Desceu da emblemática construção de ferro tão maravilhada e envolta em pensamentos de dias passados em família, que perdeu-se no caminho de volta. Chovia muito, e tentou comunicar-se com algumas pessoas, por meio de um francês aprendido no colégio, mas foi em vão. Ninguém lhe deu ouvidos, até que um homem resolveu ajudá-la, quando mostrou-lhe um cartão com o endereço de seu hotel. O sujeito chamou-lhe um táxi, e assim chegou com segurança em seu destino.

Essa foi uma história que ela queria que fosse escrita. Aqui está. E foi a melhor história que ela contou, até dia desses, quando veio, assim, sem aviso algum, e sem a ninguém incomodar, dizer que tinha resolvido viajar de novo. Pegou a família toda de surpresa… Antes de partir, porém, muito sensata, comunicou a todos: “Desta vez, queridos meus, não me perderei. Meu novo destino conta com guias experientes e conhecidos. Gente minha, que há muito não vejo e não sinto. Será inesquecível, tanto quanto foi essa minha jornada de oitenta e sete anos. Gosto muito de vocês”.

E partiu, colossal.

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