Festival de Cinema de Gramado

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por Pedro Cunha

Com o inverno vem o frio, a rinite, a lareira e os vinhos. Com o inverno vem os fondues, as mantas, os casacos e as notícias de nevascas de 15 minutos no interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. E com o inverno vem, também, o Festival de Cinema de Gramado, tão tradicional quanto brincar de dragãozinho cedo da manhã no inverno.

O Festival de Gramado talvez seja o mais tradicional do Brasil. Ele surgiu em 1973 e durante a década de 70 foi um dos responsáveis por tornar Gramado, (mais) uma cidadezinha de colonização alemã no interior do Rio Grande do Sul em um polo de atração turística. Celebridades do cinema nacional desfilavam suas mantas, gorros e casacos por lá e algumas delas, nem tão celebridades, desfilavam também sem nem tanta roupa, até para buscar alguma notoriedade. Nos anos 70 e 80 alguns importantes filmes da história do cinema brasileiro foram premiados por lá: Em 73 “Toda Mulher Será Castigada” (Arnaldo Jabor), em 82 “Pra Frente, Brasil” (Roberto Farias), em 85 “A Marvada Carne” (André Klotzel) e em 86 “O Homem da Capa Preta” (Sérgio Rezende). No final dos anos 80 e início da década de 90 o Festival sentiu, como todo o cinema nacional, a forte crise que se abateu sobre o setor com a extinção da Embrafilme. O festival correu sério risco de extinção. A solução encontrada para mantê-lo existindo acabou saindo melhor do que o soneto: transformar o festival em festival internacional. Num primeiro momento, latino-americano. Depois Íbero-americano. E por fim, simplesmente, “latino”, permitindo a presença de filmes em línguas francesa e italiana, além do espanhol e do português. O nível das produções apresentadas elevou-se bastante. Alguns filmes como o mexicano “Como Água Para Chocolate” (Como agua para chocolate, Alfonso Arau, 1992) e a coprodução Cuba/México/Espanha “Morango e Chocolate” (Fresa y Chocolate, Tomáz Alea, 1994) depois de exibidos em Gramado foram exibidos em outros importantes festivais e nomeados para premiações como o Goya, o Bafta e até o Oscar. Marisa Paredes, Javier Barden e Pedro Almodóvar estão entre os nomes que foram premiados em Gramado a partir dessa guinada no festival. O problema passou a ser outro: a diversidade e qualidade dos filmes latinos estava deixando os brasileiros de fora. Em 1994 apenas um Kikito, estatueta representando um fictício deus da alegria, foi parar em mãos de brasileiros. A partir de 1996 a premiação separou filmes brasileiros de filmes estrangeiros, para que a produção brasileira pudesse também ser premiada. De lá para cá o festival, como a cidade de Gramado, profissionalizaram-se. Se lá nos anos 70 tínhamos pessoas vinculadas ao cinema e cinéfilos circulando pela cidade hoje em dia há o negócio das celebridades. Os patrocinadores do evento montam barracas e promoções e excursões escolares sobem a serra gaúcha para ver os filmes e caçar as “celebridades”, que hoje em sua maioria são as estrelas de telenovelas globais. Não por acaso nos últimos festivais as celebridades mais badaladas foram Sandy e Xuxa, que por sinal recebeu em 2009 um prêmio especial pelo conjunto de sua “obra cinematográfica” (sic).

Apesar de ter se tornado um evento para promover principalmente o turismo de inverno e forrar os bolsos do comércio local, que majora absurdamente os preços de qualquer coisa, o Festival de Gramado ainda mantém aquilo que o criou: o cinema. Nos últimos anos bons filmes nacionais e estrangeiros tem feito as suas estreias em Gramado: “A Festa da Menina Morta”, de Matheus Nachtergale, foi exibido no Festival em 2008, assim como o bom “Juventude”, de Domingos de Oliveira. “O Banheiro do Papa” (Enrique Fernández e Cézar Charlone) não foi premiado em 2007, mas César Troncoso recebeu pelo filme o kikito de melhor ator em longa latino. O crescimento de dois segmentos que antes eram ignorados ajudaram o festival a manter o nível: os curta-metragens e os documentários. Em alguns dos últimos anos as mostras de documentários e de curtas chegaram a ofuscar os longas.

A programação completa para o festival, que está acontecendo desde o dia 6 de agosto e vai até o próximo sábado, dia 14 , encontra-se em http://www.festivaldegramado.net/2010/programacao.php. Uma dica, para quem pretende subir a serra: as sessões da manhã são gratuitas e muito, mas muito menos concorridas que as sessões noturnas, apresentando os mesmos filmes. O inconveniente é que pela manhã algumas vezes há excursões escolares no Palácio dos Festivais. Verdade seja dita: nas vezes em que lá estive nas sessões matutinas o comportamento dos estudantes sempre foi bom. Fica difícil opinar e dar dicas sobre os filmes do festival já que um dos critérios para a exibição em Gramado é o ineditismo: o filme tem que estrear em Gramado antes da sua estreia comercial. Mas um dos atrativos desses festivais, pelo menos para mim, é justamente essa: sentar na poltrona do cinema para assistir filmes, curtas e longas, sem ter a menor ideia do que me espera. Também é legal assistir aqueles filmes conceituais e os curta-metragens, que em geral não temos oportunidade de ver na tela grande. Para quem gosta de cinema, Gramado está pronta para recebê-los, com chocolate quente, fondue e café colonial superfaturado e bom cinema. Cinema ruim também, mas faz parte.

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