Uruguai: muito além do alfajor

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por Pedro Cunha

O Uruguai é um país pequeno e pobre. Tem uma área de 176 mil quilômetros quadrados, uma população total de cerca de 3 milhões e meio de pessoas e um PIB de 37 bilhões de dólares. Para efeito de comparação: O Rio Grande do Sul tem uma área de 281 mil quilômetros quadrados, uma população de 11 milhões de pessoas e um PIB de pouco mais de 100 bilhões de dólares. Ou seja: o Uruguai é menor, menos populoso e mais pobre que o Rio Grande do Sul. Se o Uruguai fosse um estado brasileiro, seria o oitavo ou nono mais rico, disputando posição com Pernambuco e Goiás. Quando pensamos no Uruguai, em geral pensamos nos free shops da fronteira, nos alfajores, nos kit-kats, nos vinhos mais baratos, na Conaprole. Ou então no glamour de Punta del Este no verão, no Conrad, na Casa Pueblo e na foto nos dedinhos saindo da areia. Mas dificilmente associamos o Uruguai ao cinema. Bom, deveríamos.

Os uruguaios têm experimentado, nessa primeira década do século XXI, um crescimento muito grande na produção cinematográfica. Esse crescimento é quantitativo e qualitativo. E é também espantoso.O novo cinema uruguaio não dispõe de grandes prêmios ou leis de incentivo à cultura. É um cinema, portanto, de autor. Um cinema que se foca nos diálogos e no desenvolvimento dos personagens. Não espere “Avatar”. Não espere “Harry Potter”. Não haverá grandes efeitos especiais. Também não espere “Se Eu Fosse Você” (Daniel Filho, 2006) ou “A Mulher Invisível” (Cláudio Torres, 2009), as produções brasileiras que tem tentado seguir a estética e o modelo das comédias românticas (argh!) de Hollywood. Os uruguaios não têm dinheiro nem estrutura para fazer isso. Suspeito eu que também não tem vontade…

O objetivo hoje é dar umas boas dicas de cinema uruguaio. O que tem de bom para assistir feito recentemente na terra de Jorge Drexler e Eduardo Galeano.

O filme que deu início a essa nova estética uruguaia de cinema foi “25 Watts”, de 2001. Os roteiristas e diretores Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, ambos com 26 anos, encantaram as plateias de diversos festivais. Ganharam prêmios em Gramado, Bogotá, Buenos Aires, Valência, Havana, Lima e uma série de outros importantes festivais. O filme, numa primeira descrição, é simples demais: retrata 24h na vida de três adolescentes num subúrbio de Montevidéu. Não é um filme adolescente, por mais que pareça. E dizer mais que isso sobre o filme pode estragar a experiência de quem for assisti-lo. A fotografia em preto e branco ajuda a tornar um pouco mais crua a realidade de um Uruguai que não encontramos nos calçadões da Gorlero, em Punta. É um Uruguai de verdade. E é um daqueles filmes sensíveis ao ponto de, falando da própria aldeia, falar do mundo todo. O subúrbio é de Montevidéu, mas poderia ser de Porto Alegre, São Paulo ou Paris.

“Coração de Fogo” (Corazón de Fuego) foi lançado em 2002. Dirigido por Diego Arsuaga, que é também um dos roteiristas, o filme retrata o interior do Uruguai a partir de uma trama simples, novamente: dois velhos trabalhadores das linhas férreas uruguaias, um garoto e um professor decidem “salvar” um último trem uruguaio, que havia sido vendido para servir de cenário a uma produção hollywoodiana. Com o trem funcionando decidem fugir para o Brasil e contam com a ajuda de muita gente pelo caminho. Há todo um simbolismo no filme sobre não se render e não se vender, que vale como metáfora para o próprio cinema uruguaio. O filme também foi bastante premiado nos principais festivais, como Gramado, Lima, Valladolid e Montreal. Além disso ganhou o Goya de melhor filme estrangeiro, uma espécie de Oscar espanhol. As atuações dos protagonistas, Héctor Alterio, Federico Luppi e José Soriano também foram bastante (e merecidamente) premiadas.

O mais premiado dos novos longas uruguaios é um dos quais não posso falar muita coisa, porque ainda não assisti. Horrível, eu sei. Mas não poderia deixar de indicar “Whisky” (2004), a feliz continuação da parceria de Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella. Não só continuação como fim da parceria, já que Rebella suicidou-se tragicamente em 2006. “Whisky” ganhou o Goya, o prêmio de roteiro original em Cannes e os Kikitos de melhor filme latino, melhor filme latino na escolha da audiência e melhor atriz para Mirella Pascual, que também foi premiada pelo filme em Buenos Aires, Lima, Tokyo e Guadalajara, entre outros.

“O Banheiro do Papa” (El Baño del Papa, 2007) é uma co-produção Uruguai-Brasil, com direção e roteiros do uruguaio Enrique Fernández e do brasileiro (nascido no Uruguai) César Charlone, conhecido no Brasil como diretor de fotografia de “O Homem da Capa Preta” (Sérgio Rezende, 1986), “Todos os Corações do Mundo” (Murilo Salles, 1995), “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles, 2002) e, mais recentemente, de “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness, Fernando Meirelles, 2008). Uma das coisas que mais se destaca no filme é a maravilhosa e naturalista atuação de César Troncoso como Beto, um homem pobre e simples que ganha a vida como contrabandista em Melo, no Uruguai, trazendo gás e outras coisas de Aceguá, no Brasil. Beto trabalha duro para contentar a esposa, dona de casa, e a filha, uma adolescente que sonha em sair daquele fim de mundo para estudar jornalismo e “ser alguém na vida”. A cidadezinha toda toma-se de expectativa quando anuncia-se, em 2002, a vinda do Papa João Paulo II a Melo. Todos na cidade pensam em faturar com a vinda de dezenas, centenas de milhares de pessoas para ver o Santo Padre. Enquanto a maioria das pessoas investe no mais simples, comida, Beto resolve construir um banheiro. Afinal de contas, se toda aquela gente comer, a comida vai ter que ir para algum lugar depois… Beto investe todas as economias da família, que eram destinadas aos estudos da filha, na construção do tal banheiro. E na medida em que se aproxima a vinda do Papa, aumenta também a expectativa das pessoas simples de Melo quanto à vinda dos turistas. Além da atuação de Troncoso o filme vale, de novo, por mostrar um Uruguai diferente daquele que estamos acostumados a ver. O Uruguai do interior, dos uruguaios de verdade. Uma gente muitas vezes sem esperança e sem perspectivas. Mas que teima em continuar. A fotografia de Charlone, como de costume, está linda e é mais um dos atrativos do filme. “O Banheiro do Papa” não foi nem de perto tão premiado internacionalmente quanto “Whisky”, mas teve uma repercussão muito grande aqui no Brasil. Ganhou prêmios em Gramado (Roteiro, Ator [César Trancoso], Atriz [Virgínia Mendez] e melhor filme, tanto da crítica quanto do público) e no Grande Prêmio de Cinema Brasileiro (Filme, Roteiro, Fotografia e Ator[César Troncoso]), o nosso Oscar. E aqui em Porto Alegre, em especial, ficou várias semanas em cartaz.

Por fim, para fechar a lista (sempre com cinco filmes), indico “Gigante” (Adrián Biniez, 2009). “Gigante” conta a história de Jara (Horácio Camandulle), corpulento segurança de um supermercado apaixonado por Júlia (Leonor Svarcas), faxineira do mesmo supermercado. Jara acompanha Júlia pelas câmeras de segurança do supermercado, sem que ela saiba que ele exista. O filme é quase um documentário, acompanhando o dia a dia de Jara, sua convivência com a família, com os colegas de trabalho e seu bico como segurança de boate. É mais um filme intimista e naturalista, é mais um filme que foi muito bem recebido na Europa: muitos prêmios em Berlim, incluindo o de melhor filme de estreia para Horácio Camandulle.

Enfim, o Uruguai tem muito mais a oferecer do que doce de leite, assado de tira, alfajor, Eduardo Galeano ou Jorge Drexler. A explicação para como os uruguaios conseguem, em condições tão adversas, manter uma produção de tanta qualidade pode estar na teimosia, na irredutibilidade dos uruguaios. Vimos isso recentemente na Copa do Mundo, onde uma desacreditada seleção uruguaia avançou, aos trancos e barrancos, até as semifinais desbancando favoritos como a França e peitando a vice-campeã Holanda nas semifinais. O Uruguai é Luisito Suarez tirando aquela bola com a mão no fim do jogo. O Uruguai é Sebastián Abreu batendo pênalti com cavadinha nas quartas de final da Copa do Mundo. O Uruguai é Forlán, melhor jogador da Copa, colocando na trave uma bola aos 46 minutos do segundo tempo contra a Holanda. “Nunca duvide de um uruguaio”, disse o jornalista Ariel Rodriguez. E não duvidemos. Lembremos, inclusive, que eles já tem um Oscar: o de melhor canção por “El Otro Lado del Rio”, de Jorge Drexler, do filme “Diários de Motocicleta”. Tentaram proibi-lo de cantar. Mas ele, uruguaio, venceu a proibição. Confere aí:

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