À Prova de Morte

por Pedro Cunha

Mais uma vez vamos começar um texto maldizendo as distribuidoras brasileiras e seus geniais planejamentos. “À Prova de Morte” foi feito e lançado nos EUA em 2007. Era parte de Grindhouse, um projeto conjunto de Tarantino e seu amigo Robert Rodriguez. O projeto todo era bem inovador e legal: produzir dois longas de terror e reproduzir as sessões duplas de matinê que existiam antigamente nos EUA. Rodriguez escreveu e produziu “Planeta Terror” (Planet Terror, 2007); Tarantino foi o responsável por “A Prova de Morte”. Não só fizeram os filmes juntos, com uma linguagem e uma fotografia comuns, como ainda produziram trailers falsos de outros filmes como “Machete”, “Werewolf Women from the SS” e “Thanksgiven”. Um assassino serial mexicano, nazistas e mulheres lobisomens (lobismulheres?) nos anos 70 e um assassino serial que mata no Dia de Ação de Graças. Só por aí dá para ter uma ideia do projeto e de como ele se caracterizava pelo conjunto e pelo próprio espírito de gozação. O mais genial da história toda, na minha opinião, é Tarantino e Rodriguez terem conquistado o mainstream de Hollywood e continuarem fazendo esse tipo de experiência, sem pensar em bilheteria, público ou crítica. Genial. Mas aqui no Brasil as distribuidoras não pensaram assim. Se acharam mais geniais que Tarantino e Rodriguez e lançaram “Planeta Terror” em novembro de 2007 e “À Prova de Morte” agora, em julho de 2010. Toda a ideia da sessão dupla, dos trailers falsos, tudo isso foi jogado privada abaixo. Afinal eles devem entender de cinema muito mais que Rodriguez e Tarantino, certo?

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Saindo da polêmica distribuidora, vamos ao filme em si. “À Prova de Morte” é um filme difícil, muito difícil de definir. É um pulp movie, talvez, se esse conceito existir. Um filme B sem a pretensão de ser nada além disso. É um filme que não se leva a sério e que, nesse sentido, lembra “Um Drink no Inferno” (From Dusk Till Dawn, 1996), filme de Robert Rodriguez com roteiro de Tarantino. Circula na internet, inclusive, uma intrincada linha de tempo que liga “Um Drink no Inferno”, “Planeta Terror”, “Kill Bill” (volumes 1 e 2) e “À Prova de Morte” através de personagens e referências. Todos esses filmes se passariam, teoricamente, no mesmo universo. É dentro desse universo que podemos entender os personagens arquétipos de “À Prova de Morte”. O filme nos apresenta um dublê (chamado de “Dublê Mike” e magistralmente interpretado por Kurt Russel) misterioso que aparentemente é um serial killer que persegue e mata grupos de mulheres. O modus operandi dele é interessante: na medida em que ele simula acidentes de trânsito graves nos quais sobrevive não pode ser culpado pelas mortes que provoca. O filme nos mostra o dublê fazendo isso duas vezes, e na segunda as coisas não terminam como ele planejou, para dizer o mínimo. E eu não posso falar muito mais sobre o roteiro sem estragar o filme para quem for assistir.

A direção de Tarantino segue genial e segura. Os closes inusitados, os cortes propositalmente abruptos e a imagem propositalmente envelhecida dão ao filme o tom exato que Tarantino queria. Algumas cenas são primorosas: a cena do acidente de trânsito, que acontece quatro vezes por ângulos diferentes, para mostrar a morte de cada uma das meninas. A culminância da cena é a última morte, em que o pneu do carro do Dublê Mike passa pelo rosto da menina. É nojento. É aviltantemente nojento. E é fantástico, ao mesmo tempo. Nada que Tarantino já não tenha explorado em “Kill Bill”, por exemplo. Mas ainda assim é inusitado.

Como foi inusitada também a escolha de Kurt Russell para o papel de Mike, o Dublê. Russell, o eterno Snake Plissken de “Fuga de Nova Iorque” (Escape from New York, John Carpenter, 1981) e do ultra-trash “Fuga de Los Angeles” (Escape from LA, John Carpenter, 1996) vinha fazendo papeis menores em produções secundárias quando foi chamado por Tarantino para “À Prova de Morte”. Ele é perfeito para o papel. E não dá para dizer que Tarantino nunca fez nada parecido: John Travolta (com mais sucesso) e Pam Grier (com menos) foram “resgatados” pelo diretor respectivamente em “Pulp Fiction” (1994) e “Jackie Brown” (1997). Russell está perfeito no papel, por mais bidimensional que ele propositalmente seja. Quase dá para acreditar nele.

O filme é Tarantino puro, do início ao fim. Talvez seja o mais autorreferente dos filmes do diretor. Não é uma obra-prima, mas definitivamente tem todas as marcas do diretor e roteirista. Uma delas, aliás, exacerbada: o fetiche por pés femininos. Do início ao fim eles aparecem. Outra “tarantinice” é a trilha sonora: cheia de lados B americanos garimpados pelo diretor pacientemente e diversas citações a trilhas sonoras anteriores do diretor. A cena do bar mexicano, onde Tarantino faz uma ponta como Warren, o dono do bar, é recheada de diálogos típicos de Tarantino. Nesse mesmo bar há uma jukebox, cuja seleção é formada por muitas músicas que já constaram em trilhas sonoras do diretor. O filme todo é repleto de referências à história do cinema: cinema italiano, clássicos norte-americanos e filmes que não existem, como alguns que estão em cartazes fictícios no primeiro bar onde as meninas param para tomar margaritas.

“À Prova de Morte” é um filme complicado de se falar sobre. Mas eu gostei de classificá-lo como a melhor bobagem dos últimos anos. É cáustico, é descompromissado, é leve. E é genial, ao mesmo tempo. É diversão do início ao fim. Não me lembro da última vez em que saí do cinema gargalhando tanto, mesmo que não tenha entendido direito o porquê. Recomendadíssimo.

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