O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

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por Pedro Cunha

Esse filme foi um projeto pessoal de Terry Gilliam, ex-integrante do Monty Python. Gilliam foi uma das grandes cabeças por trás do melhor momento da trupe inglesa. Foi roteirista e diretor de “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” (Monty Python and the Holy Grail, 1975), certamente o filme do Monty Python que deixou o maior número de referências, desde os cavaleiros que dizem “Ni!” até as andorinhas do leste que voam para o oeste. Fora do Monty Python Gilliam sempre teve uma atração pelo fantástico e flertou seriamente com a ficção científica em “Brasil: O Filme” (Brazil, 1985) e em “Os Doze Macacos” (Twelve Monkeys, 1995). Seu trabalho mais recente que chegou por aqui foi “Os Irmãos Grimm” (The Brothers Grimm, 2005), onde mais uma vez o diretor/roteirista britânico namora a fantasia.

“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” é um filme daqueles com parto complicado. Depois de finalizado Gillian ficou mais de um ano procurando uma distribuidora para poder lançar o filme. E o fim da produção e a pós-produção também foram muito complicados. Vale lembrar que um dos protagonistas do filme era encarnado pelo já lendário Heath Ledger, que morreu de overdose antes do final das filmagens. Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell terminaram o papel de Ledger e doaram seus cachês à família dele. Qualquer avaliação sobre o filme, sobre continuidade ou sobre o próprio roteiro tem que levar isso em consideração.

O filme retrata o cotidiano de uma trupe formada por um velho monge, o Dr. Parnassus (Christopher Plummer), Valentina (Lily Cole), sua filha adolescente, um anão que acompanha o Dr. Parnassus presumivelmente a muito tempo e um companheiro de trupe, Anton (Andrew Garfield) que é visivelmente apaixonado por Valentina. A rotina da trupe é transformada quando eles encontram, presumivelmente por acaso, um desconhecido pendurado pelo pescoço embaixo de uma ponte. Retirado de lá por Anton e Valentina o homem (Heath Ledger) está desorientado e aparentemente sem memória. Acaba se juntando à trupe e, previsivelmente, formando um triângulo com Valentina e Anton.

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O show do Dr. Parnassus consistia numa espécie de truque circense real: O Doutor entrava em transe e com isso energizava o “imaginário”, um espelho falso pelo qual as pessoas entravam em um mundo onde podiam vislumbrar e escolher entre seus maiores sonhos e desejos. A grande questão é que o “truque” é real. Como descobrimos com o desenrolar da história os poderes do Dr. Parnassus são uma dádiva do Diabo (Tom Waits), resultado de antigas apostas do Dr. com ele. Enquanto no Imaginário as pessoas fazem escolhas. As que escolhem pela luxúria, pelos prazeres carnais e mundanos acabam nas mãos do Diabo. As que escolhem os valores mais sublimes e nobres são almas que se salvam. O teor das apostas entre Parnassus e o Diabo é esse: enquanto o monge aposta no “lado bom” das pessoas o Tinhoso acredita que mais delas escolherão o “lado ruim”. Pelo menos isso foi o que eu entendi. O roteiro não é suficientemente claro nas questões envolvendo o Diabo ou o Imaginário.

O Diabo foi quem aparentemente colocou Tony (o personagem de Ledger) no caminho de Parnassus, às vésperas do décimo sexto aniversário da menina. A menina estava, em função de uma aposta antiga entre Parnassus e o Cão, prometida para ele, no dia em que completasse dezesseis anos. Dois dias antes da fatídica entrega o Diabo novamente aparece para Parnassus, propondo uma nova aposta: o primeiro deles que conseguisse cinco almas ficaria com Valentina. Pelo menos para mim não ficou claro aqui o que o Diabo teria a ganhar com essa aposta, uma vez que tecnicamente ele já tinha o prêmio que poderia ganhar. Parnassus topa e essa última aposta sobre o destino de Valentina é o clímax do filme. O interessante é que Parnassus, o Diabo, Anton e Tony, todos dão a impressão de saber o que é melhor para Valentina. Mas ninguém nunca pergunta para ela o que ela quer.

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Quando eu fui ao cinema eu não tinha ideia exata de sobre o que tratava o filme. Saindo do cinema eu não sei se tenho certeza de sobre o que ele trata. É um filme sobre escolhas, sem sombra de dúvidas. Mas a que conclusões ele chega? Eu não sei. É um filme, talvez, sobre acreditar na fantasia e na imaginação num mundo onde o real e o racional são tão torpes? Não sei, pode ser. O próprio Gilliam, falando sobre o filme, disse que o objetivo dele era “levar alguma fantasia a Londres”. Pode ser. Mas a mensagem não é passada tão claramente. O roteiro tem alguns furos, mas isso era esperado, pelo menos por mim. Perder um dos protagonistas e ter que refazer o roteiro durante as filmagens é como trocar o pneu de um carro em movimento: por melhor que você faça é impossível não perceber que algo aconteceu. Não é nada que torne o filme ruim, mas também prejudica um pouco a compreensão. E se eu não sabia nada sobre o enredo eu confesso que esperava bastante da parte visual do filme. O filme é bonito, sem sombra de dúvidas. O figurino é encantador. Mas eu esperava mais dos efeitos visuais. As cenas no Imaginário, principalmente, eu achava que poderiam ter sido mais ricas. O orçamento do filme, 45 milhões de dólares, não é tão enxuto quanto eu imaginei. A parte de computação gráfica poderia, portanto, ser um tantinho mais caprichado. Destaque aqui para as cenas do “jovem” Parnassus no monastério, a cena mais bonita do filme. O figurino, esse sim, impecável. Escolhas de um extremo bom gosto, com aquele ar de retrô-brechó-chique.

Sobre as atuações, a aposta de Gilliam na novata Lily Cole foi acertada. O rosto da menina tem uma beleza invulgar e ela consegue dar profundidade a um personagem que teria tudo para parecer caricato. Plummer faz um Parnassus muito bom. Durante o filme eu pensei (e um amigo depois me confessou que pensou a mesma coisa) que ele faria um Dumbledore muito bom, na “saga” (ando com nojinho dessa palavra) “Harry Potter”. E temos Heath Ledger. Ledger era um ator que vinha numa carreira sólida e em ascensão. Foi em “Irmãos Grimm”, do mesmo diretor Terry Gilliam, que Ledger apareceu como protagonista. Depois disso vieram os (justamente) muito elogiados “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain, Ang Lee, 2005) e “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008). Esses dois papeis são fundamentais para entender por que Ledger pode ser considerado o James Dean dos anos 00s: não teve medo nem do papel de cowboy gay em Brokeback Mountain e muito menos de fazer o Coringa, um personagem dificílimo e que já tinha uma versão “definitiva” no cinema, por ninguém mais, ninguém menos que Jack Nicholson. Ledger não só fez o seu Coringa como tornou o de Nicholson quase… ridículo. A atuação dele em “O Imaginário…” (pelo menos na parte em que ele é ele mesmo) mostra que Ledger não morreu no auge. Ele ainda iria crescer como ator. O filme, não por acaso, pertence a ele. Pelo menos é o que diz o próprio Gilliam nos créditos, não dedicando o filme a Ledger, mas dizendo que o filme _é_ dele.

“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” é um bom filme que poderia ser melhor, na minha impressão. Mas é um filme que absolutamente vale a pena ser visto. Primeiramente porque ele foge do usual, o que hoje em dia é muito difícil de encontrar no cinema. E depois porque é a despedida de Heath Ledger, um ator que vai fazer falta para qualquer um que goste de cinema.

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