Abbey Road forever

abbeyroadparasempre
imagem: Anelise Schutz

por Clarice Casado

“You don’t look different but you have changed,
I’m looking through you, you’re not the same.”

“I’m Looking Through You”, RUBBER SOUL, The Beatles

Não há nada mais permanente que memórias de viagens. Eu sempre digo que não há investimento de vida melhor do que viajar. São aqueles segundos lembrados, sabe? Detalhezinhos nunca esquecidos. O lugar especial visitado, a história engraçada para contar aos amigos, o restaurante perfeito, a comidinha mais que especial, a bebidinha inesquecível, os regalos incomparáveis… E as memórias. Sim, as memórias. A melhor parte, sem a menor sombra de dúvida.

Em dezembro 2009 eu estive em Londres com meus filhos e meu marido. Uma viagem muito esperada e planejada. Dentre outras várias coisas que queríamos fazer naquela linda e próspera (em todos os sentidos: socioeconômico, cultural, histórico) terra, tínhamos um objetivo muitíssimo especial: aquela seria uma jornada em busca dos Beatles. Sim, os quatro rapazes de Liverpool, de quem somos fãs incondicionais, eram parte essencial de nosso roteiro.

Antes de irmos, tratei de pesquisar o que poderíamos ver em Londres que nos ligasse ainda mais aos nossos ídolos. Fiz um pequeno “roteiro Beatles”, que incluía algumas atrações imperdíveis: uma galeria especializada em fotos (a renomada Getty Images), duas lojinhas com memorabília da banda, uma delas localizada em um minúsculo Café temático na saída da estação de metrô St. John’s Woods e, como não poderia deixar de ser, a Abbey Road e seu famoso cruzamento, que aparece na capa do álbum de mesmo nome, com os quatro Beatles atravessando a rua onde até hoje fica o Abbey Road Studios, no qual foram gravadas grande parte das músicas da banda.

Londres respira e transpira cultura por todos os poros. Nossa passagem pela Getty Images em busca de fotos dos Beatles foi apenas uma pequena parte da “fanática” jornada. A galeria é famosa por clicar o pessoal do mundo artístico. Tinha muita coisa legal, mas acabamos comprando uma foto apenas dos Beatles, colorida, linda, que hoje reina absoluta em nossa sala de casa.

Foi por acaso que descobrimos que a National Portrait Gallery estava com uma exposição temporária intitulada The 60’s Exposed: from Beatles to Bowie. A National Gallery ficava a poucos passos do nosso hotel, localizado na St. Martins’s Lane, rua charmosa na chiquérrima e trendy região de Mayfair. Ficamos doidos! Chegamos cinco minutos depois do fechamento da exposição: tentamos entrar, mas como a pontualidade britânica não é apenas um mito, a única foto que vimos foi uma gigante (e linda!) de Paul e John juntos bem na entrada. Já valeu ter ido. Mas ainda deu tempo de visitarmos a lojinha da exposição, e foi perfeito, porque pudemos comprar algumas réplicas das fotos expostas, bem como alguns souvenirzinhos graciosos e um livro com fotos de Astrid Kirschner, fotógrafa austríaca que registrou os anos iniciais de John, Paul, George e Ringo juntos. Um achado. O livro traz, na sua maior parte, fotos dos bastidores das gravações de A Hard Day’s Night, em cujo set de filmagem George Harrison conheceu Pattie Boyd – modelo famosa na época e figurante do filme – com quem se casou pouco tempo depois. Pattie tornou-se icônica após ter servido de inspiração para algumas das canções de amor mais belas de todos os tempos: Something, de Harrison; Layla e Wonderful Tonight, de Eric Clapton, com quem também foi casada.

Uma surpresa que não estava no roteiro foi passar, por acaso, pela estação de metrô Mary Le Bone, onde foi gravada a cena inicial do mesmo A Hard Day’s Night, na qual uma multidão de fãs alucinadas corre atrás dos guris de Liverpool!

O ponto alto de nossa “excursão Beatles” ainda estava por vir: Abbey Road. Estávamos muito ansiosos. Em um dia cinzento (como o são, em sua maior parte, os dias em Londres) e muito, muito frio, pegamos o metrô na Trafalgar Square em direção à estação St. John’s Woods, de onde sairíamos, a pé, até a Abbey Road. Não preciso dizer que as crianças amaram andar de metrô, e a diversão começou ali.

Descendo do metrô, meus filhos, provavelmente dois dos beatlemaníacos mais jovens do mundo (!), mal conseguiam segurar a ansiedade. Confesso que meu coração também começou a enlouquecer à medida em que andávamos pelas ruas geladas (havia neve rala depositada nos jardins das casas) e pacatas que estavam nos conduzindo ao tão aguardado destino. Entramos em uma rua da qual não me recordo o nome, e andamos até o final dela. Foi quando demos de cara com a placa: ABBEY ROAD NW8 – City of Westminster. Logo à frente, o famoso cruzamento! Alguns fãs iam e viam, atravessando a movimentada rua diversas vezes, parando e posando para fotos. Os carros, acreditem, paravam, pois, penso eu, quem dirige regularmente por ali deve estar acostumado com o agito constante da região “sagrada”!

Nós, obviamente, também cruzamos a rua várias vezes, para conseguirmos fazer fotos bem legais. Quanta emoção naquele lugar! Fiquei imaginando o exato momento em que nossos ídolos ali pisaram, em algum momento de 1968. A lenda urbana de que Paul McCartney teria morrido em acidente de moto e sido substituído por um sósia foi reforçada nesta capa de Abbey Road, pelo fato de que Paul, por ter aparecido descalço, estaria mesmo morto (mortos eram enterrados descalços). Outras “pistas” da morte de Paul também foram identificadas por fãs “confirmando a tese”, como o fato de Paul estar de olhos fechados e haver um carro fúnebre estacionado na foto da capa do álbum. Loucuras de beatlemaníacos…! Várias outras pistas malucas como essas foram encontradas em capas de outros álbuns e nas letras das músicas. A verdade é que essa mitologia da morte do Paul rendeu muita grana aos Beatles, sem dúvidas, e Paul está vivo até hoje (!), tendo iniciado, pelo que ouvi dizer, sua última turnê mundial em 2010, que terá duração de dois anos. Houve boatos de que viria ao Brasil agora em abril, mas infelizmente foram apenas rumores do cyberspace… Vamos aguardar, quem sabe ele não dá mesmo uma passadinha por aqui?

Pois bem, na Abbey Road, tiramos muitas fotos e assinamos, emocionados, o famoso muro branco da gravadora, diariamente “batizado” por mensagens de fãs de todos os cantos do mundo. Meu filho, que tem Paul como o seu beatle preferido, escreveu “Paul Forever” e “Vito Something”, em referência à canção de mesmo nome, que ele adora, composta por George Harrison. Minha filha desenhou sua inicial, “A”, com um coraçãozinho ao lado, e me pediu para escrever “Dear Prudence”, o título de sua canção favorita, do White Album. Foi o máximo da emoção.

Deixamos a Abbey Road a caros custos: acho que, por nós, ficaríamos ali o dia todo… Na volta, passamos no mini Café temático Abbey Road Café, localizado na entrada da estação St. John’s Woods, com milhões de souvenirs de todos os tipos: chaveiros, canecas, camisetas, posters, CDs, livros, adesivos, bonés, um paraíso para qualquer aficcionado pelos Beatles.

No dia seguinte, ainda tivemos fôlego para visitar a Beatles Store, na Baker Street, que era muito maior e ainda muito mais completa que a do Abbey Road Café. Na Beatles Store, além de tudo que havia na outra, pudemos encontrar também itens de colecionador: réplicas de placas com discos de platina e ouro e dos instrumentos musicais dos rapazes, discos de vinil autografados, bonequinhos de todos os tipos e também alguns souvernirs vendidos na época de maior sucesso da banda, lancheiras, roupinhas antigas, mil coisas muito interessantes e caríssimas! Compramos mais algumas coisinhas legais, dentre elas, um conjunto de bonequinhos deles como apareceram no filme Yellow Submarine, em porcelana, com número de série e tudo. Ainda, meu filho comprou uma réplica do baixo de Paul e de uma guitarra, que não lembro se do John ou do George. Saímos mais do que satisfeitos, não preciso nem dizer.

A Londres dos Beatles mudou-nos para sempre. Foi uma experiência inesquecível, e só há uma palavra que pode descrevê-la: memorável.

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