Continuidade dos porquês

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imagem: Ana Nitzan

por Cassiano Rodka

Por entre as pedras que desabam morro abaixo, ele caminha. No disparo de uma manada de búfalos, ele se encontra na direção oposta. De encontro à avalanche, passo a passo, de mansinho, ele continua. Sob o sol quente, ele sua. Contra o vento frio, ele aperta a manta e o casaco. Em uma marcha rumo a algum lugar que o espera, o soldado anda desarmado. Sua parada solitária e invisível ganha os aplausos inaudíveis de ninguém. É uma procissão só sua onde não há santos ou salvadores. Abaixo da chuva de granizo, sem proteção ou razão, ele para. Assustado, ele se pergunta: “por quê?”. E as respostas parecem não chegar. Não há nada além dele e as marcas de sapato que sua sombra encobre. Mas, assim como ele, molhados, escoriados, frágeis e insistentes, os porquês começam a surgir. E são tantos, que preenchem de mansinho o vazio ao seu redor. Um a um, vão se empilhando, dando forma a algo que remete uma escada. A fragilidade ganha aspecto sólido e o seu impulso o leva ao primeiro degrau. Equilibrado entre amor e pura teimosia, sentindo a continuidade dos porquês nas solas dos pés, ele segue.

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