O Evangelho segundo Saramago

saramago
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“Entrarei no nada e me dissolverei em átomos.”

José Saramago

No ano de 1990, entre estudos para o vestibular e festinhas do último ano do colégio, eu conheci José Saramago. Sim, tive o prazer de ver o polêmico escritor português, hoje prêmio Nobel de literatura, falecido no último dia 18 de junho de 2010.

Em uma tarde que poderia ser mais uma de estudos ou de conversas ao telefone com a minha melhor amiga, fui convidada por minha mãe, professora de língua portuguesa e literatura brasileira, para assistir a uma palestra que José Saramago daria no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Confesso, leitores, que não lembro detalhes da dita palestra, mas lembro-me muito bem que fiquei maravilhada pelo fato de estar assistindo um escritor famoso falar ali, bem na minha frente, uma simples adolescente gaúcha, que já na época amava livros e amava escrever, mas ainda não sabia bem como colocar todo aquele mundo interior que a perturbava tanto para fora.

A impressão que eu tive, naquelas poucas e preciosas horas passadas com um Saramago ainda entrando na melhor idade, foi a de uma catequese. Seu sotaque luso embalava os ouvintes, como se um canto melodioso fosse. Todos ali ficaram inevitavelmente encantados pela fala mansa – porém firme e categórica – do homem que viria a tornar-se o único prêmio Nobel de Literatura em língua portuguesa. Sim, uma catequese da melhor qualidade, ironicamente feita por um ateu convicto.

O tema da palestra, isso lembro-me bem, era a necessidade ou a possibilidade da sistematização do que Saramago chamou de uma “língua brasileira”. Pelas diferenças dialetais e ortográficas existentes entre o português “de Portugal” e o do Brasil, o que propunha Saramago era uma separação entre as duas “línguas”, não cultural, mas meramente linguística. Eu gostaria de ter assistido essa palestra hoje, aos 36 anos (na época, eu tinha 16), já tendo lido grande parte de suas obras, e o tendo estudado com profundidade na faculdade de Letras. Pena que não dá para voltar no tempo.

As lembranças dessa tarde na UFRGS vieram-me quando eu soube da morte de Saramago. Fiquei de fato muito triste. Eu ainda não tinha sentido a morte de alguém que não fosse meu parente ou amigo com tanta consternação. Pensei nos momentos em que li e reli Ensaio sobre a Cegueira, romance que mudou meu modo de ver a literatura, tanto como leitora, quanto escritora. Saramago é um dos escritores que influenciaram a minha escrita, não só na forma inovadora, como no jeitinho meio machadiano do autor de conversar discretamente com o leitor, que eu adoro e adoto até hoje. Quando se lê Saramago, sente-se claramente a presença do autor. Ele está ao seu lado o tempo inteiro durante a narrativa, acompanha-lhe como se fosse um guia. Isso não se encontra facilmente na literatura. E é tão bom, tão reconfortante saber que o autor não apenas está jogando a história no leitor, como se fosse um balde de água fria. Saramago tem esse dom: não assusta o leitor. Caminha ao lado dele, como um amigo, um companheiraço de anos.

O fantástico do mundo da literatura é que nada e ninguém morre de verdade. Na semana passada, comprei Caim, seu último livro, e encontrei de novo meu velho amigo. Reconheci-o totalmente nas páginas cheias de ironia dessa sua mordaz visão do Velho Testamento.

Foi-se Saramago, sim, porque não escreverá mais livros. Mas sua verve incomparável e sua peculiar maneira de contar histórias estarão para sempre mais do que vivas em seus livros, e eles estarão para sempre ao meu lado. Não perdi o companheiro, apenas se foi uma parte dele, a física. Discordo das palavras dele mesmo, que usei como epígrafe deste texto: Saramago não entrará no nada e nem se dissolverá, completamente, com a morte. Está ainda vivendo em suas obras, e assim permanecerá, pelo resto dos tempos.

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