Toy Story 3

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por Pedro Cunha

Não faço parte da geração de crianças que conheceu Toy Story na infância. Quando Toy Story 1 (Toy Story, John Lasseter, 1995) eu tinha 17 anos e sinceramente estava muito mais ocupado com outras coisas. Não me lembro quando assisti, acho que foi na TV. Quando eu soube que Toy Story 3 seria lançado agora em 2010 não fui tocado no emocional. Mas enfim, Pixar é Pixar e sempre faz filmes interessantes. “Up – Altas Aventuras” (Up, Peter Docter, 2009), o filme anterior da Pixar, não só abocanhou o Oscar de longa de animação como também levou o de trilha sonora e foi indicado, pasmem, a melhor filme. Com algum merecimento: os primeiros 10 minutos de “Up” são parte mesmo do que de melhor foi feito em matéria de cinema no ano passado.

Toy Story, a franquia, já é história no cinema. O primeiro filme da série, em 1995, inaugurou uma nova era nas animações: as animações feitas em computador. Sem exageros o lançamento de Toy Story teve um significado para as animações semelhante ao lançamento de “Branca de Neve e Os Sete Anões” (Snow White and the Seven Dwarves, 1937). Ambos são filmes que definiram padrões de gênero. Paradoxalmente Toy Story faz isso contando a história de um antigo boneco de cowboy, Woody (voz de Tom Hanks), que fica ofuscado pela chegada de um novo brinquedo na casa de seu dono, Buzz Lightyear (voz de Tim Allen), o astronauta tecnológico. Os brinquedos acabam ficando amigos, como dizendo que a inovação tecnológica e a tradição podem conviver e ambos podem ganhar com isso.

Toy Story foi o cartão de apresentação da Pixar para o mundo. Depois dele vieram “Vida de Inseto” (Bug’s Life, 1998), a sequência que não deixou o nível cair “Toy Story 2” (1999), “Monstros SA” (Monsters INC, 2001), “Procurando Nemo” (Finding Nemo, 2003), “Os Incríveis” (The Incredibles, 2004), “Carros” (Cars, 2006), “Ratatouille” (2007), “Wall-E” (2008) e “Up – Altas Aventuras” (Up, 2009). São 10 filmes em 15 anos, sem deixar o nível de qualidade cair. Se “Carros” pode ser considerado o ponto mais baixo nessa sequência “Procurando Nemo” é considerado por muitos como a melhor animação de todos os tempos e “Wall-E” tem passagens em que deixa de ser um filme de animação e passa a ser um filme de arte sem, incrivelmente, deixar de agradar as crianças.

Toy Story 3 foi uma gestação complicada. Se entre o 1 e o 2 apenas quatro anos se passaram tivemos que esperar mais 11 anos pelo 3. A primeira data de lançamento do filme, 2004, foi atrasada diversas vezes em função de brigas e dissidências na equipe criativa. A demora acabou sendo positiva: o filme pôde incorporar a nova tecnologia 3D desde a época da produção. Diferente de “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, Tim Burton, 2010) ou “Fúria de Titãs” (Clash of the Titans, Louis Leterrier, 2010), que foram convertidos para 3D depois de realizados (uma maneira educada de dizer que transformaram a nova tecnologia em caça-níqueis para cobrar ingressos mais caros), Toy Story 3 foi inteiramente pensado em 3D. É um detalhe que torna o filme interessante: não é um filme de sustos, de imagens que saltam no nosso rosto. É um filme onde o 3D ganha um destaque discreto, dando vivacidade e um maior grau de realismo para o filme todo. É um filme muito bonito, e o 3D ajuda a construir isso.

O roteiro tem duas linhas de interpretação, como é comum nos desenhos da Pixar: uma mais linear, para as crianças, e uma mais profunda, que acaba agradando os mais crescidos. Andy, o dono dos brinquedos, cresceu. Está na hora de ir para a faculdade. E ele tem que decidir o que fazer com os seus brinquedos: trancá-los no sótão, jogá-los no lixo ou doá-los a uma creche. Andy havia decidido deixar seus brinquedos preferidos (Buzz Lightyear, Jessie, a vaqueira, Senhor e Senhora Cabeça de Batata, o Dinossauro, o Porquinho, os 3 ETs e o Cachorro-Mola; os brinquedos conhecidos dos outros filmes) no sótão e levar o especial, o cowboy Woody, junto com ele para a faculdade. Uma confusão faz com que todos os brinquedos acabem indo para uma creche, onde tem que lidar com uma “gangue” de brinquedos antigos da creche que monopoliza as crianças mais velhas, deixando os brinquedos “novatos” nas garras das crianças mais novas, que quando brincam acabam destruindo os brinquedos.

Num plano mais linear o filme segue com os brinquedos tentando fugir da creche e voltar para a casa de Andy. O destaque aí é para os brinquedos novos, os “vilões” do filme: o líder dos brinquedos, o ursinho “Lots’o”, um amargurado por ter sido abandonado pela sua criança, e seus amigos, dentre os quais o destaque, impagável, é o metrossexual Ken. Noutro plano Toy Story 3 é um filme sobre crescimento e amadurecimento. Seja de Andy, que tem que se desvincular dos seus brinquedos, seja dos próprios brinquedos, que tem que se acostumar com a ideia de que Andy não vai mais brincar com eles. Duas das melhores cenas do filme são o retrato dessa transição: a primeira, onde a brincadeira se confunde com a realidade e nós “a enxergamos” com os brinquedos tendo movimento e vida próprios. O próprio Andy não aparece na cena, ele não está nesse plano. Já a última cena, quando Andy conscientemente doa seus brinquedos para a menina Bonnie, é diferente: A brincadeira entre eles dessa vez tem os brinquedos inertes, sem vida, nas mãos das crianças, que tornam-se as protagonistas da brincadeira. Toy Story 3 poderia ser um filme que emocionasse por fazer parte de uma franquia muito querida. Mas não é. É um filme sensível e que emociona por si. Todos nós nos sentimos Andy, em algum momento da vida, precisando crescer e cortar laços que nos prendiam. Todos nós também já fomos Woody, o verdadeiro protagonista, aquele que se nega veementemente a desistir do amigo. Toy Story 3 é um filme sobre valores, lealdade e amizade, que vale a pena, sem sombra de dúvidas, ser assistido.

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