Redenção

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imagem: Anelise Schutz

por Clarice Casado

Não há nada mais sagrado que o profano. Essa, para mim, é a frase que resume o futebol. Como arte, ou como religião, do jeito que quiserem tratá-lo: futebol é religiosamente artístico, fanaticamente incompreensível. Irracionalmente emocionante. Futebol é um paradoxo ambulante: sagrado e profano. E tenho dito?

Tudo isso, leitores, é por que arrastei-me para um campo de futebol. Sim, eu decidi que era hora de encarar. Eu, que dele nada entendo. Eu, que com ele tenho uma clássica relação de amor e ódio. Eu, que fui praticamente obrigada a saber dele. Já falei de futebol aqui, algumas vezes. Falei dele em forma de poesia, falei em forma de prosa, falei dele como forma de amor incondicional. Mas nunca tinha sentido um jogo. Não tinha colocado os pés em um estádio lotado, 40 mil pessoas entoando o mesmo grito. Tenho pavor de multidões. Porém, resolvi encarar.

E comecei bem, escolhi o clássico do futebol dos Pampas: o GreNal. Até quem não é gaúcho sabe da rivalidade irracional existente entre os dois grandes times do Rio Grande do Sul. Em dia de GreNal, tudo é guerra.

À medida em que fui me aproximando do estádio, podia ouvir ao longe sons de tambores e de vozes cantando: eram as torcidas organizadas, ainda fora do estádio, entoando seus gritos de guerra. Algo tribal, mesmo. Muitos dos gritos de torcida são quase ininteligíveis. Como aqueles mantras tribais, sabem como é? Você não compreende, mas se envolve totalmente por eles.

Quando pisei no estádio, com minha família, ansiosa, meu coração bateu descompassado ao ver a massa vermelha em festa. Muita gente me dizia, me contava, me cantava, emocionada, da sensação inigualável de entrar pela primeira vez em um estádio lotado. Eu não entendia. Foi instantâneo: entrei, e minha vida, a partir dali, mudou. Não porque passei a amar o futebol, ou a entender suas regras, mas porque comecei a compreender melhor o amor irracional e incondicional do torcedor por seu time do coração. Rendi-me.

Nas horas que se passaram, eu, espectadora por excelência, naquela tarde excepcionalmente cinza na sempre ensolarada Porto Alegre, observei de perto os tipos humanos que desfilaram ao meu redor. Por todos os lados, homens, mulheres e crianças movidos por um sentimento em comum, de luta, de euforia mesclada com tristeza e angústia, de êxtase. Ouvi atenta os gritos das torcidas organizadas, testemunhei os rituais de cada torcedor antes do início do jogo. Sinal da cruz, benzeduras, rezas. Religião? Que nada, muito mais forte que isso. Fanatismo? Talvez. Mas nada ao ponto de ser caso de internação em clínica psiquiátrica. Arte? Da melhor qualidade. Porque arte, em sua essência conceitual, provoca estranhamento. Choca, muitas vezes. Traz sentimentos dúbios, faz rir e chorar. Se futebol não for arte, desisto hoje de fazê-la.

Em um jogo de futebol, não é apenas questão de ganhar ou perder, é muito mais que isso: é sentir, é exacerbar sentimentos, é gritar, é dizer palavrões o tempo inteiro, é o extravasamento de si próprio. Nos momentos desconcertantes das faltas, nas falhas indignantes do árbitro, nos gritos de fúria, nas palmas elogiosas aos jogadores, no arrasador silêncio que sucede o gol do adversário, no emocionante coro de milhares a incentivar o time, no inigualável instante do gol.

Eu arrisco dizer que, em um estádio lotado, vale tudo. O seu subconsciente se revela de maneiras tais que vão muito além da sua própria compreensão. É mais ou menos o que ocorre nos sonhos. Em sonho, há aquele derramamento de angústias, aquela realização de desejos contidos e inconfessáveis. No futebol, dentro de um estádio lotado, sonha-se acordado. O que ali acontece, ali fica. O seu segredo estará para sempre guardado por 40 mil sonhadores.

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