Dr. Jivago

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por Pedro Cunha

A Sala Redenção, aqui em Porto Alegre, é vinculada à UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sempre promovem ciclos interessantes e fogem um pouco do trivial. Durante o mês de junho está em cartaz lá o ciclo “Imagens, Fragmentos e Cenas de Amor”. O tema é uma alusão a junho, mês dos namorados. Na sexta da semana passada eu estava de feriadão e fui ver quais eram as estreias da semana. Me deparando com “Príncipe da Pérsia” e “Marmaduke” resolvi conferir a programação da Sala Redenção aqui e me deparei com a possibilidade de assistir no cinema ao clássico “Dr. Jivago”. Eu adoro clássicos e sempre procuro as oportunidades de assisti-los no cinema. Não perdi a chance.

O filme de David Lean é baseado no romance do poeta e romancista russo Boris Pasternak, prêmio Nobel de literatura de 1958. O romance foi publicado em 1958 e é um retrato-denúncia das agruras pelas quais os russos passaram durante a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa de 1917. Em função dessas denúncias e acusado de “subjetivismo” Pasternak teve sérios problemas políticos na URSS e seu livro só pode ser publicado na Rússia em 1989, após a Glasnost de Gorbachev.

A épica história de Yuri Jivago é narrada por David Lean da maneira mais clássica e linear, o que cabe perfeitamente bem em um épico. A história começa quando da morte da mãe de Jivago, que adotado por uma família de amigos dos pais cresce destinado a tornar-se médico e a casar com Tonya, com quem cresceu junto. Eles representam a Rússia rica e aristocrática da nobreza e da burguesia próximos ao Czar. A Rússia proletária é representada pela família da jovem sonhadora Lara, filha da costureira e namoradinha de um operário que é ativista sindical e sonha em derrubar o corrupto governo de Nicolau II. As vidas de Jivago e Lara cruzam-se quase que por acaso quando ele, jovem médico, vai ajudar um professor da faculdade que, a pedido de um amigo, vai fazer um atendimento discreto a uma “amiga” que havia “passado mal” (entende-se que houve uma tentativa de suicídio ou aborto, o filme não deixa claro. A paciente acaba por ser a costureira mãe da bela Lara e daí para frente as vidas dela e de Jivago passam a cruzarem-se junto com a história da Rússia: ambos servem juntos durante a I Guerra Mundial, ele como médico e ela como enfermeira, quando o sentimento entre ambos cresce mas não se consuma já que Jivago, casado, preserva-se para a esposa Tonya e o jovem filho. Mais adiante as agruras da Guerra, da Revolução e da Guerra Civil vão fazer com que Jivago encontre-se e desencontre-se com Lara e Tonya uma série de vezes.

A narrativa de Lean é segura e sólida. O filme tem uma linearidade de começo-meio-fim que serve para que o espectador não se perca no meio da confusão política da Rússia das décadas de 10 e 20. Os 200 minutos de filme, com um direito a um intervalo e tudo, são de um tempo em que as histórias, de fato, passavam-se mais lentamente. A fotografia do filme divide-se em dois momentos muito claros: o primeiro, antes da Guerra e da Revolução, é urbano e em ambientes internos. Nessa hora o diretor abusa do recurso dos vidros e espelhos mostrando partes da cena. No segundo momento, quando os personagens vão para o interior, tudo muda. Lean usa quadros bastante aberto para mostrar a vastidão das paisagens russas. A sequência da viagem de trem, durante a qual Jivago observa pela janelinha do vagão as mudanças visuais, é linda. Os campos nevados (as locações foram no Canadá e na Finlândia) cortados pelo trem com a floresta ao fundo compõe com o sol, ora nascendo, ora se pondo, um quadro magistral. Fica ainda mais lindo se lembrarmos que não há photoshop ou qualquer tipo de manipulação das imagens. As duas tentativas de Jivago de fixar-se no campo, a primeira com Tonya e a segunda com Lara, também rendem sequências visualmente fantásticas: na primeira é o colorido das primaveras e das colheitas e, na segunda, o branco marmóreo, puro e estéril da neve e do gelo. Se o filme não tivesse enredo, elenco ou história valeria a pena no mínimo em função das imagens lindas.

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Falando em elenco, o filme é sustentado por três atuações fantásticas nos papeis-chave. Omar Sharif, o galã franco-egípcio que ainda está em atividade, vive o seu melhor momento. Depois de “Lawrence da Arábia” (1962), filme pelo qual David Lean ganhou o Oscar de Melhor Diretor e Sharif foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante, Sharif viveu o papel-título em “Gengis Kahn (Henry Levin, 1965) e encontrava-se nas graças de Hollywod. Seu tipo físico encaixou-se perfeitamente para viver o médico, poeta, idealista e sonhador Yuri Jivago, que fez suspirar no cinema as moças na década de 60 (e na semana passada a minha namorada também, enfim). O Dr. Jivago de Sharif tornou-se um clássico e marcou o ator que contava então com 35 anos e que conquistou, com esse papel, o direito de encarnar tipos que não fossem tão somente os exóticos em Hollywood.

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Geraldine Chaplin, a filha de Charles, foi um grande acerto do casting. Além da participação, ainda criança, em “Luzes da Ribalta” (Limelight, Charles Chaplin, 1952) Geraldine tinha feito apenas dois filmes. Seu personagem talvez seja o mais cativante do drama de Pasternak: Tonya não tem a paixão fulgurante de Lara nem o idealismo heróico de Jivago, porém seu amor incondicional e sua fidelidade canina nos cativam durante o filme. Geraldine torna crível a figura da patricinha da alta sociedade russa que estudara em Paris e, em função da Revolução, instantaneamente tem que tornar-se uma dona de casa e tomar para si serviços que até pouco tempo antes eram feitos por empregadas e serviçais. Não é fácil cuidar do pai, do marido e do filho e ainda manter-se linda e sorridente, como Tonya Faz.

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A personagem mais forte do filme, sem dúvida, é Lara. Julie Christie tinha 24 anos e maravilhosos olhos azuis quando encarnou Lara e o fez com toda a energia que a personagem merece. Uma mulher obstinada e que sempre buscou suas paixões. A expressividade de Christie (apelidada, em função de seu bom humor, de “Girassol” por David Lean) pode ser percebida no olhar. São muitas as cenas em que os olhos de Lara nos dizem tudo o que deve ser dito. Era o início da carreira da atriz que seria definida por Al Pacino como “A mais poética de todas as atrizes”.

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O trio Sharif-Chaplin-Christie é muito feliz em suas atuações. A direção de Lean acerta na mosca o tempo e o andamento do filme. A fotografia é deslumbrante. A trilha sonora é marcante (e por vezes repetitiva com o Tema de Lara). Não, não é exagero. Estamos falando de um dos filmes que frequenta assiduamente as listas de melhores filmes de todos os tempos. Assisti-lo na tela grande? Não tem preço. Aliás, não tem mesmo: as sessões na Sala Redenção são GRATUITAS. Fica a dica.

(Falando em dica: além dos clássicos da lista eu não posso deixar de indicar “Once” (John Carney, 2006), que vai passar dia 11, sexta, às 19h. um dos filmes mais lindos que eu vi em 2010.)

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