Alice no País das Maravilhas

alice-no-pais-das-maravilhas-01

por Pedro Cunha

Tim Burton. É, isso mesmo. O californiano de 52 conseguiu atingir um nível na sua carreira em que a simples menção do seu nome já torna qualquer projeto um sucesso imediato. Ele já tem plateia e bilheteria garantidos, não importa o que faça. E isso é um mérito que ele tem pela frutífera carreira que construiu. Depois de alguns curtas, algumas animações e bons trabalhos para a TV, Burton começou a chamar atenção com “Os Fantasmas Se Divertem” (Beetlejuice, 1988). O filme trazia alguns elementos que se tornariam clássicos na obra de Burton: o bizarro, as referências ao além, a ousadia e os personagens outcasts, aqueles que não conseguem se enquadrar no mundo no qual deveriam estar inseridos. Com um orçamento de 13 milhões de dólares, Burton apoiou-se num elenco confiável: além de um Michael Keaton ótimo no papel-título, tinha os bons Alec Baldwin e Geena Davis. O filme faturou mais de 73 milhões de dólares e virou franquia de bonequinhos e desenhos animados, além de ter lançado para o mundo uma atriz de 17 anos que seria um dos hypes dos anos 90, Winona Ryder. Antes mesmo do sucesso de “Os Fantasmas se Divertem”, Burton já tinha sido escalado para dirigir “Batman” (1989). O filme foi um sucesso estrondoso, arrecadando U$411 milhões, mais de 12 vezes o custo dele próprio. Além disso, o Coringa de Nicholson foi eternizado (bem, foi até 2008 quando Ledger tratou de deseternizá-lo, enfim) e a Gotham City de Burton, sombria e, bom, gótica, foi um dos pontos altos do filme, tanto que Burton foi convidado para conduzir a sequência “Batman: O Retorno” (Batman Returns, 1992). Entre um Batman e outro, em 1990, Burton lançou o seu trabalho mais poético e talvez mais seminal. Um trabalho que talvez seja o que o define ainda hoje, 20 anos depois. “Edward Mãos de Tesoura” (Edward Scissorhands, 1990), o conto de fadas gótico que mistura Frankenstein, Prometeu e Homem de Lata de “O Mágico de Oz”, é um dos filmes que definem os anos 90. A fotografia de Stefan Czapsky, que se tornaria parceiro constante de Burton, ajudou a tornar o filme um clássico. E Johnny Depp, tornou-se a persona do próprio Burton, seu ator de confiança.

Alice no País das Maravilhas 02.png

Burton cruzou os anos 90 fazendo bons trabalhos e provando-se prolífico, com o drama “Ed Wood” (Ed Wood, 1994), a debochada comédia “Marte Ataca!” (Mars Attack!!, 1996), a ótima animação “O Estranho Mundo de Jack” (The Nightmare Before Christmas, 1993) e mais um conto de fadas, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (Sleepy Hollow, 1999). Na primeira década do século XXI emplacou mais um conto de fadas lindo, “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (Big Fish, 2003) e voltou a experimentar a animação, com o bom “A Noiva Cadáver” (Corpse Bride, 2005). Em todos eles, o Tim Burton do gótico, do bucólico, do excluído e do estranho aparece, em maior ou menor grau.

alice-no-pais-das-maravilhas-03

É por aí que começa a aparecer um Tim Burton com a pretensão de revisitar obras consagradas na telona. “O Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, 2001), remake de um dos grandes clássicos da ficção científica, é sofrível e “A Fantástica Fábrica de Chocolates” (Charlie and The Chocolate Factory, 2005) volta à ideia do conto de fadas Burtoniano. Apesar de um filme bom, “A Fantástica Fábrica de Chocolates” é daqueles filmes que assistimos e ficamos nos perguntando se a refilmagem era mesmo necessária…

alice-no-pais-das-maravilhas-04

Tudo isso para chegar em Alice. Quando foi noticiado que Burton tinha assumido o projeto de refilmagem do clássico de Lewis Carroll, todos começaram a especular e projetar como seria a gótica Alice de Burton, a pirada Alice de Burton. E para ver o frisson que ele causou, basta dar uma folheada nos jornais e revistas do primeiro semestre de 2010: Alice (a Alice de Burton, já antes de ser lançada) dominou todo tipo de tendência e referencial, de desfiles de moda à Turma da Mônica Jovem.

Alice no País das Maravilhas 05.png

“Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, Tim Burton, 2010) dificilmente conseguiria cumprir com a expectativa que gerou. A produção custou salgados 200 milhões de dólares que já se pagaram com folga: o filme entrou em circuito dia 5 de março e até agora já faturou 980 milhões de dólares (lembrando que ingressos 3D são mais caros, o que inflaciona um pouco essa cifra na relação bilheteria/quantidade de espectadores…). Sem dúvida um sucesso comercial. Mas o filme é bom?

Desde o início fica claro que o roteiro de Linda Woolverton não pretendia ser fiel a nenhum dos dois livros de Lewis Carroll, seja “Alice no País das Maravilhas” ou “Através do Espelho”, a sequência. Woolverton misturou elementos de ambos os livros e criou ainda alguns mais. Muitas das decepções vieram de gente que esperava que Burton simplesmente recontasse a história de Carroll. Mas a história de Burton não é a do pedófilo britânico. Apesar disso, no filme estão todos os clássicos do universo de Alice: o Coelho Branco, a Lebre Maluca, a Lagarta com o narguilé, o Gato de Cheshire, as cartas de baralho… todos estavam lá (e maravilhosamente bem construídos, em termos de CG e figurino. O figurino, aliás, um espetáculo à parte. Figurino, direção de arte e fotografia foram, talvez, os grandes destaques do filme. Johnny Depp, o fiel escudeiro de Burton, foi escalado para fazer o Chapeleiro Louco. Helena Bonham-Carter, sem dúvidas a atriz mais à vontade no filme, faz a Rainha Vermelha, que incorpora muitas coisas da Rainha de Copas dos livros. Anne Hathaway é a Rainha Branca, a inimiga sem-sal da Rainha Vermelha. Os castelos de ambas são lindamente construídos (detalhe para as esculturas nas plantas no jardim da Rainha Vermelha, numa referência, eu achei, a Edward Mãos-de-Tesoura…), e as cenas de ação não quebram a continuidade. E daí? Bom, daí que fica faltando alguma coisa. O filme, a despeito da crítica tê-lo colocado abaixo do cocô do cachorro, é bom, mas só bom. Começa a faltar alguma coisa com Mia Wasikowska, a jovem atriz escolhida para o papel-chave do filme, o papel de Alice. A Alice dela é uma adolescente que não se encaixa na sociedade vitoriana. Tentando fugir de um casamento arranjado (com um rapaz ruivo) ela acaba caindo no buraco do coelho e voltando ao País das Maravilhas, onde esteve quando criança apesar de acreditar, até então, que aquilo havia sido um sonho. País das Maravilhas afora, Alice busca descobrir a sua própria identidade e livrar-se de ter o destino condicionado pelo que esperam dela. Seu “mentor” nesse sentido, a lagarta Absolem, é um dos personagens de CG mais legais do filme, fora o fato de ouvirmos Severo Snape falando cada vez que ele abre a boca. A Alice de Wasikowska é quase tão sem gracinha quanto a Rainha Branca de Anne Hathaway, um personagem sobre o qual a única coisa que sabemos é que tem um juramento de não matar seres vivos. Entre seus altos e baixos, chama um pouco a atenção o Chapeleiro Louco. Apesar da boa atuação de Depp, o personagem parece ter crescido um tanto artificialmente (comeu bolinho demais, será?) para dar mais espaço para Depp, que torna-se o par romântico de Alice.

alice-no-pais-das-maravilhas-06

“Alice no País das Maravilhas” está longe de ser o horror que alguns críticos descreveram, mas não será, certamente, um dos destaques na filmografia de Burton. Um filme lindo visualmente (coisa que ele já fez), mas com um roteiro linear e previsível. Não há surpresa ou reviravolta durante os 108 minutos de filme. O final é aquele que imaginamos com 10 minutos de filme. E falta um pouco de carisma a Wasikowska também. A Alice da animação da Disney, de 1951, é mais Alice do que ela. Mesmo Natalie Gregory, a Alice da série de TV de 1985, é mais interessante que a Alice do filme de Burton. Que ainda assim vale a pena ser visto. Não necessariamente em 3D, já que esse é daqueles filmes “adaptados” para 3D, e não feitos para isso, o que torna bastante dispensável pagar mais caro pelo filme. Vale a pena ser visto? Sim, vale. Mas para ver mesmo. Sem pensar muito, apenas fruir a estética do filme.

alice-no-pais-das-maravilhas-07

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s