Filmes de super-heróis

por Pedro Cunha

Antes de escrever sobre “Homem de Ferro 2”, eu quero fazer uma enoooorme digressão sobre filmes de super-heróis. Por mais que tentasse a sétima arte nunca tinha conseguido entrar de vez no filão dos super-heróis dos quadrinhos. Tirando fora os medalhões Super-Homem e Batman, da DC, nenhum filme de herói dava muito certo. Superman (Richard Donner, 1978) foi um bom filme com um elenco magistral: tinha Marlon Brando, Gene Hackman e um ótimo Christopher Reeve no papel que o definiu. Os Batman’s de Tim Burton (Batman, 1989 e Batman Returns, 1992), apesar do insosso Michael Keaton, tinham excelentes vilões. Jack Nicholson era considerado o Coringa definitivo (oquei, era.); Danny DeVito como o Pinguim e, especialmente, Michelle Pfeiffer como a Mulher-Gato eram ótimos também. Além disso, o diretor, melhor que qualquer outro, foi muito feliz em recriar a gótica Gotham City dos quadrinhos. Enfim, são três filmes em quinze anos. E são, caramba, o Superman e o Batman, os dois maiores ícones dos quadrinhos. A Marvel patinava no cinema com adaptações que beiravam ao ridículo. “Quarteto Fantástico” (The Fantastic Four, Oley Sassone, 1994) é uma verdadeira piada de mau gosto. Quase tanto quanto “Geração X” (Generation X, Jack Sholder, 1996). Esse é uma pérola que de vez em quando a Globo reapresenta na Sessão da Tarde. É um subgrupo dos X-Men que nos quadrinhos fazia muito sucesso na época…

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Bom, nos anos 90 mesmo as franquias que funcionavam conseguiram ser arruinadas. Joel Schumacher e seus terríveis Batman’s, “Batman Eternamente” (Batman Forever, 1995) e “Batman e Robin” (1997), conseguiram arruinar o homem-morcego. Além do Sr. Frio de pantufas de Schwarzenegger, fomos apresentados à Batmoça de Alicia Silverstone e ao Bat-Cartão de Crédito. Sim, você não leu errado. Os filmes acabavam por fracassar ao se perder tentando ser ao mesmo tempo um filme para os fãs, apresentando 50 anos de mitologia em duas horas, mas simplificando tudo para não perder o público “leigo”. Depois disso, apostar em filmes sobre heróis de quadrinhos parecia ser comprar uma briga certa com a legião de fãs dessa mídia.

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Ainda assim, a Marvel arriscou. Em 2000, entrou em cartaz “X-Men: O Filme” (X-Men, Bryan Singer, 2000). Lembro de ir assistir o filme no Cinemark do Bourbon Ipiranga com um amigo que, diferente de mim, não é fã de quadrinhos. Os X-Men tinham se tornado, nos anos 90, uma franquia milionária para a Marvel e crescido muito em popularidade. Wolverine se tornava um personagem pop tão importante quanto o Homem-Aranha e tornar-se filme parecia o caminho inevitável, assim como também parecia inevitável o fiasco de um filme que apresentaria um Magneto de colante vermelho e um Wolverine de amarelo e azul. Mas Bryan Singer, um diretor que jamais havia lido quadrinhos, matou a charada: mídias diferentes, linguagens diferentes. E mudou. Mudou e adaptou tanta coisa que o filme ficou bom e foi um estrondoso sucesso. O filme que custou U$ 75 milhões arrecadou fantásticos U$ 294 milhões. Os avanços recentes de computação gráfica e a falta de pudores de Singer, que pôs os X-Men em roupas de couro preto, ao invés das malhas coloridas, fizeram com que o filme funcionasse tanto para os fãs quanto para o público “normal”. O sucesso foi tão grande que, doce ironia, por algum tempo os personagens passaram a usar couro preto também nos quadrinhos.

Logo em seguida, Sam Raimi dirigiu o seu “Homem-Aranha” (Spiderman, Sam Raimi, 2002). O personagem maior da “Casa das Ideias” (como a Marvel é conhecida nos EUA) recebeu um tratamento carinhoso e um orçamento um tanto mais polpudo: U$ 139 milhões, quase o dobro de “X-Men: O Filme”. O resultado foi o ótimo filme com Tobey Maguire e a arrecadação de U$ 821 milhões, uma das dez maiores bilheterias de todos os tempos.

O resultado de “X-Men: O Filme” e de “Homem-Aranha” e de suas continuações criou uma trilha segura para novos filmes de heróis. A Warner tomou coragem e fez um reboot na franquia do Batman com o ótimo “Batman Begins” (Christopher Nolan, 2005), que custou U$ 150 milhões e rendeu U$ 372 milhões para a Warner/DC. Alguns filmes de gosto duvidoso vieram na esteira desses, como “Demolidor” (Daredevil, Mark Steven Johnson) ou “Mulher Gato” (Catwoman, Pitof, 2004), mas mesmo os leves e descompromissados como “Quarteto Fantástico” (The Fantastic Four, Tim Story, 2003) mantinham um nível mínimo de qualidade, aceitação e lucro que incentivava a indústria a seguir investindo no filão.

A Marvel, nesse momento, se colocava numa encruzilhada: até então seus filmes eram franqueados a outros estúdios, o que deixava a Marvel de mãos atadas e sem liberdade para decidir o que aconteceria com seus próprios personagens. A franquia X-Men pertence à Fox, a franquia Homem-Aranha, à Sony. A DC, editora rival, não tem o mesmo problema porque pertence à Warner, que tem seus próprios estúdios. A Marvel deu um passo adiante quando criou os Marvel Studios. A questão é que não poderia haver erro: era um investimento MUITO alto.

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O primeiro filme a ser produzido pela Marvel sem a interferência dos estúdios foi “Homem de Ferro” (Iron Man, Jon Favreau, 2008). Um orçamento modesto de U$ 140 milhões foi disponibilizado. Para efeito de comparação, “X-Men 3: O Confronto Final” (X-Men 3: The Last Stand, Brett Rattner, 2006) custou U$ 210 milhões e “O Motoqueiro Fantasma” (The Ghost Rider, Mark Steven Jhonson, 2007), um filme sobre um personagem muito menos importante, custou U$ 110 milhões. Homem-Aranha 3 (Spiderman 3, Sam Raimi, 2007), o mais fraco da franquia do aracnídeo, custou U$ 258 milhões. “Homem de Ferro” então era um filme que não podia errar. E não errou. Foi o filme de quadrinhos que unanimemente foi elogiado por “entendidos” e por “leigos”. O diretor Jon Favreau, mais conhecido pela condução em seriados como “Friends”, acertou a mão em cheio. A aposta em basear o personagem muito mais na linha Ultimate dos quadrinhos do que na linha regular livrou Favreau de ter que respeitar anos e anos de cronologia e deixou-o livre para construir um filme que é muito mais sobre Tony Stark do que sobre o seu alter-ego, o que foi um grande acerto. Talvez o maior acerto tenha sido no casting. Robert Downey Jr. parece ter nascido para interpretar o fanfarrão Tony Stark. Não fosse o personagem mais velho que o ator poderíamos dizer que tinha sido inventado para ele. Gwyneth Paltrow, como Pepper Pots, segura muito bem. O Obadiah Stane de Jeff Bridges é um vilão digno e típico das histórias em quadrinhos. A trilha sonora foi bem escolhida e o roteiro foi muito cuidadoso, com alguns “presentinhos” para os fãs de quadrinhos, como James Rhodes olhando para a armadura prateada ou o computador-mordomo chamado Jarvis. O filme foi um sucesso imenso e arrecadou U$ 585 milhões. A repercussão dele só não foi maior porque “Homem de Ferro” foi atropelado dois meses depois do seu lançamento por “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (Batman: The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008), o filme que elevou os filmes de quadrinhos a um novo patamar, que foi reconhecido pela crítica séria de cinema, que teve uma das atuações mais viscerais da história do cinema (sim, o Coringa de Heath Ledger, como se eu precisasse dizer) e que arrecadou mais de U$ 1 bilhão, sendo uma das três maiores bilheterias da história do cinema.

Apesar do furacão “Cavaleiro das Trevas”, “Homem de Ferro” foi um começo com pé direito para os Estúdios Marvel. E foi também um começo pretensioso. O próprio filme já mostrava que ele não se esgotava em si mesmo. Diferente de outros filmes que deixam ganchos para as próprias continuações, “Homem de Ferro”, para os fãs de quadrinhos, deixou algo muito mais interessante: a cena pós-créditos onde o primeiro choque acontece quando Samuel L. Jackson aparece encarnando Nick Fury e o segundo quando ele fala em “Iniciativa Vingadores”. Qualquer leitor de HQs da Marvel saiu do cinema dando pulinhos. Sim, ele disse Vingadores.

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O projeto Vingadores continuou em “O Incrível Hulk” (The Incredible Hulk, Louis Leterrier, 2008). Cinco anos antes, em 2003, a Marvel juntou-se à Universal para tentar lançar um dos mais populares personagens da editora, o Hulk, no cinema. “Hulk” (Ang Lee, 2003) não foi o que se esperava e fracassou, apesar de arrecadar quase o dobro do seu custo. Em 2008, a Marvel então faz uma aposta arriscada. Um reboot na franquia apenas cinco anos depois e com um diretor quase estreante, com apenas três longas no currículo. E não é que deu certo? “O Incrível Hulk” é um acerto em diversos níveis. Edward Norton é um Bruce Banner perfeito. Parece que era fã do personagem e que fez um baita lobby para entrar no filme. A Liv Tyler como Betty Ross foi… bem, a Liv Tyler. O que sempre torna um filme mais bonito. Tim Roth e William Hurt para os antagonistas também foram muito bem escolhidos. E o filme foi um primor de CG (computação gráfica). A cena de perseguição na favela carioca, no começo do filme, é assustadoramente real. As cenas do Hulk, principalmente a da Universidade, são muito boas. E o filme entrega aquilo que o fã do Hulk quer: calças roxas, Banner caminhando sozinho, na chuva e, principalmente, duas palavrinhas que Ang Lee negou aos fãs no outro filme: “Hulk esmaga!”. A cena pós-créditos, com Downey Jr. como Stark, mostra a já esperada integração entre os filmes.

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Logo após “O Incrível Hulk”, em 2008, a Marvel apresenta um cronograma: para 2010, “Homem de Ferro 2”. Para 2011, “Thor”. Ainda em 2011 “Capitain America: The First Avenger”, depois rebatizado simplesmente “Capitain America”. E para 2012… sim, “Avengers”, o filme que vai juntá-los todos.

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