O Segredo dos Seus Olhos

por Pedro Cunha

Prólogo

Antes de qualquer coisa gostaria de agradecer por esse espaço, onde pretendo dividir com vocês um pouco dessa paixão que eu tenho por filmes e cinema. Desde que recebi o convite do pessoal do PáginaDois estou ansioso pelo momento de começar. A ideia é que esse espaço funcione da seguinte maneira: toda quinta-feira haverá uma resenha de filme. Quando possível um filme novo, quando eu não tiver ido ao cinema, um filme antigo (ou nem tanto). Toda quinta, sem exceção. A partir de junho, nos outros dias da semana, farei pequenas atualizações (ou nem tão pequenas, costumo ser um pouco prolixo…) como em um blog, com novidades e comentários sobre cinema em geral. Enfim, obrigado a todos pela oportunidade. Acomode-se na sua poltrona, desligue o celular e respire fundo: a seção vai começar…

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O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Juan José Campanella, 2009)

Escolhi esse filme para começar com o pé direito. Foi certamente o filme de 2010 que mais me marcou, que mais me emocionou. O filme de Campanella entrou em cartaz no Brasil cheio de premiações internacionais e uma semana antes de levar o Oscar de melhor filme estrangeiro, batendo o (excelente) alemão “A Fita Branca” (Das Weisse Band, Michael Haneke, 2009), que havia por sua vez vencido a Palma de Ouro em Cannes. Com eu já tinha visto o filme do Haneke e gostado bastante dele, o já elogiado filme argentino entrou na minha lista de obrigatórios. Campanella era um diretor do bom “O Filho da Noiva” (El Hijo de La Novia, 2001) e de vários capítulos de séries como “30 Rock”, “Law and Order” e “House”. Campanella, além de dirigir, é o autor do roteiro do filme. E talvez seja melhor começar por aí.

“O Segredo dos Seus Olhos” tem um roteiro muito, mas muito bem costurado. Seria injusto dizer que o roteiro conta bem uma história. Porque ele conta duas. O grande charme do filme é justamente esse: são duas histórias. São duas histórias assimétricas, duas histórias diferentes e duas histórias que, num primeiro momento estão completamente desconectadas. O roteiro de Campanella flui e não comete aquele que é um dos grandes pecados dos filmes que contam mais de uma história, que é não conseguir encaixá-las harmonicamente. O filme flui, e flui tão bem que a direção de Campanella fica, num primeiro momento, quase invisível. Quase. Porque é um primor de trabalho. A escolha de cada ângulo de câmera, a construção de cada cena é cuidadosa. Um espetáculo à parte é a já famosa cena do estádio. O falso plano-sequência de Campanella mostra, naquele momento, o quão cuidadosa foi a direção durante todo o filme.

O trabalho dos atores do filme é (mais) um dos pontos altos. Soledad Villamil e Ricardo Darín seguram o filme muito bem. O trabalho da produção para modificar as idades dos atores também foi muito legal, já que as duas histórias do filme têm um hiato de algumas décadas entre elas. Darín e Villamil interagem de uma maneira muito natural e os diálogos entre eles saem rápidos e precisos (Aliás, abre parênteses: Como a língua espanhola soa bem… qualquer diálogo parece mais inteligente e mais ferino em espanhol… fecha parênteses). Guillermo Francella por muito pouco não rouba o filme com o seu Sandoval, o contraponto cômico do filme. Além dos três, todos os atores estão bem. E todos foram muito bem pensados para os seus papéis.

“O Segredo dos Seus Olhos” é um filme que conta uma eletrizante história de suspense. “O Segredo dos Seus Olhos” é um filme que conta uma linda história de amor. E faz as duas coisas ao mesmo tempo. O filme, no fim das contas, é sobre fortes sentimentos humanos. Vingança, amor, ódio, inveja, rancor, esperança e solidão, todos eles aparecem. E aparecem em medidas humanas. Os sentimentos que o filme argentino põe na tela não são super nada. Cada um de nós, vendo o filme, vê que poderia sentir aquilo, daquela maneira. Por isso o filme é tão fantástico. Por isso é o melhor do ano e um dos melhores de todos os tempos.

Se em vez de Buenos Aires a locação do filme fosse em Glasgow, se Irene Hastings e Benjamín Espósito se chamassem Claire e Malcolm, se o jogo fosse do Glasgow Rangers em vez de ser do Huracán e se o título original fosse “The Secret of Your Eyes”, o filme teria sido candidato sério aos prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Montagem e talvez Melhor Fotografia. Como o filme é argentino, levou o prêmio de Filme Estrangeiro. O segundo, aliás, dos argentinos, que já tinham levado por “História Oficial” (La História Oficial, Luiz Puenzo, 1985). E por ser argentino serve também para chamar a nossa atenção para a recente ótima safra de filmes argentinos e uruguaios.

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