Minha primeira melhor amiga

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por Clarice Casado

Para a Luciana, que até hoje é amiga de sua primeira melhor amiga.
Para a Angelina e a Raquel, que estão se iniciando na arte da amizade.

Não lembro dela, mas pode hoje morar ainda em algum lugar do interior do Rio Grande do Sul.

Ela pode estar casada, ou sozinha, ou com filhos. Ou viúva. Pode gostar de ler, como eu. Ou até escrever, como eu. Pode ser dona de casa. Passar o dia cuidando dos filhos dela, que nunca conheci. E provavelmente nunca vou conhecer. Pode adorar ler histórias para os filhos, como eu. Pode estar cozinhando para o marido. Ou pode estar criando roupas e acessórios para meninas. Roupas lindas, com flores e laços de fita.

Pode idolatrar os Beatles, como eu. Ou pode ser uma garota mais Rolling Stones. Pode ser ainda uma alta executiva de uma alta empresa no topo de um alto edifício na altíssima cidade de Nova York. E nem ter muito tempo de ser assim tão ligada em música e em livros.

Ela pode ter ganhado peso. Ou pode ter perdido. Pode ter feito plástica. Pode ter aplicado botox e ter passado creminhos no rosto e nos olhos religiosamente nos últimos dez anos. Ou pode aceitar-se totalmente como é. Tanto faz. No final das contas, somos iguais: mulheres de trinta e alguns anos, sempre em busca de algo sobre o qual nada sabemos.

Ela pode rezar todas as noites. Ou pode jamais rezar. Pode amar e pode odiar. Pode sofrer de tensões pré-menstruais terríveis, ou pode passar por tudo isso ilesa.

Pode gostar de festas e jantares, ou pode querer ficar entocada cuidando dos filhos todas as noites, até que eles um dia passem a ir às próprias festas sozinhos e esqueçam totalmente daquela de quem um dia tanto precisaram.

Ela pode ter ainda muitos anos pela frente. Ou pode estar com um câncer maligno e não saber. Pode se exercitar todos os dias. Ou preferir passar as manhãs dormindo.

Pode levar os filhos todos os dias na escola. E pode chorar de vez em quando (sem que eles percebam), quando os vê se afastando dela rumo ao portão da escola, puxando a mochilinha de rodas. Pode sorrir rapidamente no exato momento em que eles se viram para dar um último “tchauzinho”. Ou ela pode nunca acompanhar os filhos à escola: não porque não queira, mas porque a esta hora já está trabalhando.

Ela pode brigar regularmente com o companheiro. Ou pode estar com ele há vinte anos sem nem sequer saber o que seja uma discussão.

Ela pode dar gorjetas. Ou não. Pode gostar de banhos de chuva. Ou não. Pode fazer as unhas todas as semanas. Ou não. Pode gostar de celebrar os aniversários. Ou não. Pode amar ver desenhos na TV com os filhos. Ou não. Pode sempre visitar a avó no hospital. Ou não. Pode fazer leituras diárias de si mesma. Ou não. Pode um dia vir a ler esta crônica. Ou não.

Ainda assim, será sempre a minha primeira melhor amiga.

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