O ponteiro dos minutos

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por Cassiano Rodka

Bastou escutar as vozes da mãe e da empregada costurando-se na sala para Davi pôr seus pés de vento para correr.

Postando-se levemente atrás do sofá, como que camuflado de um inimigo desconhecido, o pequeno detetive começava sua investigação. A empregada pedia desculpas com sua cabeça baixa enquanto a mãe a perdoava com tapinhas nas costas. Davi já sabia – pelos tapinhas e pelo tom da voz – que ela não estava de fato satisfeita. Olhavam seguidamente para a parede e para a mão da empregada, que segurava um objeto pontiagudo. A visão aos poucos foi se aclarando. Maria Eugênia havia quebrado o ponteiro dos minutos do velho relógio da sala.

Davi ficou aflito. Nunca tinha visto algo assim acontecer e temia o que isso podia significar. Como as horas passariam agora? Como Maria Eugênia podia ter sido tão descuidada? Para as mãos pesadas da empregada até o tempo se via frágil.

Logo que o pequeno tumulto se desfez, os olhinhos curiosos da infância botaram-se a postos na frente do relógio. A imagem era aterradora: um ponteiro apenas, pequerrucho, apontava para o número 12. Estático. Imutável. Que horas seriam agora? Davi aprendera a ler as horas recentemente na escola e já estava ficando bom nisso, mas agora sem o ponteiro dos minutos… Como? Quando comer? Quando dormir? Como não chegar atrasado à escola sem saber quantos minutos lhe restavam? Lembrou da imagem da professora ralhando com ele certa vez, cobrando-lhe a impossível devolução de alguns minutos que ele já tinha gasto na companhia de seu PlayBox. Engraçado que, quando ela chegava tarde, sempre tinha uma boa razão que ela fazia questão de compartilhar em tom seríssimo com os alunos – para desinteresse total dos ouvintes. Lembrou do relógio e balançou a cabeça para afastar aquelas recordações em preto e branco protagonizadas pela chata da professora.

Davi já descobrira que, se observado com muito atenção, o ponteiro dos minutos pode ser visto se movimentando. São pequenos e discretos deslocamentos da setinha de metal em uma marcha lenta que se opõe diretamente à quantidade de afazeres que se tem no dia. Se o ponteiro das horas também se mexe, certamente ele conseguiria pegá-lo desprevenido, deslizando circunspecto sob o vidro redondo e envelhecido que separava doze números de dois olhinhos atentos. Debruçou os cotovelos no balcão e começou sua vigília. Parecia mais difícil perceber, mas Davi estava decidido a flagrar o ponteiro em seu tímido passeio. Suas pálpebras mal piscavam, pois ele temia que o movimento ocorresse bem nesse obscuro instante em que nossos olhos fecham as cortinas da visão.

Passaram-se alguns minutos até que Davi deu-se conta de algo horrível: ele poderia ficar horas na frente daquele relógio sem sequer saber quanto tempo havia passado. E, pensando bem, será que ele passaria? Poderia o tempo ter parado no momento em que as desastradas mãos de Maria Eugênia romperam o braço mais longo da máquina que nos dita o tempo? Olhou em volta para conferir se nada tinha se alterado bruscamente e começou a imaginar o que aconteceria se as horas não passassem mais. A primeira coisa que surgiu em sua mente foi a cara feia da professora reprovando seus constantes atrasos. Ele nunca mais saberia como chegar na classe na hora! E o horário de seus desenhos animados preferidos? De que adiantava ele ter todos de cor em sua cabeça se nunca teria certeza da hora?

Seus olhos arregalados descansaram um pouco no minuto em que ele percebeu que a suspensão do tempo também teria as suas vantagens. Sua mãe nunca mais saberia se já estava na hora de dormir ou não. Talvez ele não tivesse mais hora para dormir! Na verdade, ele não teria mais hora para nada! Riu sozinho com o pensamento. De fato, havia possibilidade de uma vida mais livre com a perda do tempo. Talvez cada segundo fosse vivido com mais intensidade se ele não precisasse mais se preocupar com o término do que estivesse fazendo. Se nada tinha hora para acabar, ele poderia deixar que tudo fosse feito no tempo que fosse necessário. Se ele sentisse vontade de encurtar a duração do banho, assim o faria. E quando quisesse passar o dia brincando, não teria nada que o impedisse. Ele sempre considerou estranha a ideia de usar todos os dias a mesma quantidade de horas para fazer o que a gente gosta – e o que a gente não gosta também. Se o desejo de fazer as coisas variava dependendo do dia, por que não fazer o relógio acompanhar nosso ritmo em vez do contrário? Mas de agora em diante seria assim! O tempo que ele levaria para cada coisa hoje seria do tamanho que tivesse que ser, diferente de ontem, diferente do dia seguinte. E por aí em diante. Não seria mesmo perfeito se fosse assim?

… Um grito desfez sua nuvem de pensamentos. Era Maria Eugênia, a destruidora do tempo, avisando que o almoço estava pronto. Davi olhou para o relógio banguela novamente. Tentou voltar à trilha de reflexões que afloravam em sua mente, mas não conseguiu reorganizar os vagões de ideias. Balançou a cabeça e deu de ombros. Estava com muita fome, então desconfiou que já devia ser hora de comer. Pôs seus pés de vento a funcionar e correu até a mesa de jantar onde Davi saboreou seu bife com purê de batatas como se não houvesse amanhã.

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