Estamos todos bem

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por Clarice Casado

Hoje eu vou falar de cinema, simplesmente porque há momentos em que não há como não se falar de cinema.

Em algum ano da década de 90 do século XX (1990, informou-me agora, com precisão, o Sr. Google), me lembro de ter ouvido meu pai comentando com especial atenção um filme italiano que se chamava Stanno tutti bene, estrelado por Marcello Mastroianni e dirigido por Giuseppe Tornatore. Eu era menina, não devia ter mais de quinze anos, mas me recordo perfeitamente dos comentários de meu pai sobre o filme, que pelo jeito deve tê-lo impressionado bastante.

Pois tal película recebeu em 2009 versão norte-americana, estrelada por ninguém mais, ninguém menos que Robert De Niro. Sou muito fã do De Niro há bastante tempo. O cara é fantástico. E está mais fantástico do que nunca neste sensível e tocante drama familiar.

Desde o início do filme pude entender o que deve ter sentido meu pai quando assistiu à primeira versão do filme: o filme toca naquelas partezinhas da alma e do coração da gente que ficam paradinhas boa parte de nossas vidas, vendo a vida passar pacata e lentamente, até que um dia são sacudidas pela visão das feições de um pai que atravessa um imenso país para visitar seus filhos, visitá-los sem aviso, de surpresa. O que me sacudiu com força, a ponto de me levar a lágrimas incontidas, foram as feições daquele pai, feições de arrancar qualquer coração (com raiz e tudo), ao ver, no momento em que encontra cada um de seus filhos, a criança alegre e inocente que um dia foram. Da criança alegre e inocente que sempre serão, aos olhos daquele pai. De qualquer pai, e de qualquer mãe. Mesmo tristes ou frustradas, na visão dos pais, serão sempre felizes e realizadas.

E então me veio a pergunta: para nossos pais, seremos sempre crianças? Eu, como mãe, verei meus filhos sempre como crianças, não importando que idade tenham? Pensarei sempre neles como os pequeninos que um dia precisaram de mim para tudo? Que um dia tiveram em mim um apoio sem o qual nada conseguiriam fazer bem? Será? Será que mesmo crescendo, nunca os verei como verdadeiramente adultos? Será que vou querer para sempre protegê-los e viverei para sempre na eterna dúvida se “estão todos eles bem”?

Everybody’s fine (em português seria “Estão todos bem”) é um retrato de todos nós: pais, mães, filhos e nossas vidas tão simples e ao mesmo tempo tão complexas. Nossa eterna luta para satisfazermos, sermos felizes e fazermos felizes os que nos rodeiam. Temas corriqueiros vistos sob um olhar tão magnífico fazem pensar sobre todos os momentos de nossa existência extremamente fugaz neste mundo, sobre nossa fragilidade frente às dores e mágoas, e, por outro lado, sobre nossa inigualável capacidade de fazer de tudo para não ferir, nunca, a quem amamos.

É um filme sobre o amor, na sua mais pura forma. É um filme sobre a ternura para com quem amamos, sempre doce, sempre presente. Um filme sobre todos nós. E sobre tudo que gostaríamos de fazer, e não fazemos. E sobre tudo o que sentimos e não temos coragem de dizer. Sobre tudo que não dizemos.

E é por isso que hoje eu quero dizer,

– Pai, estamos todos bem.

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