A menina que não gostava de poemas

meninaquenaogostavadepoemas

por Clarice Casado

Para quem ama poemas.
Para quem ainda vai amar.

Descobri que minha filha não gosta de poesia. Fiquei arrasada, claro. Eu, que sempre amei e ainda amo o gênero, acima de todos os outros. Poemas podem ser lidos em qualquer lugar e a qualquer momento. Poemas podem ser levados na bolsa e podem ser rascunhados em guardanapos de papel. Poemas podem ser curtíssimos e carregados de significados, ou podem ser longuíssimos e não dizerem muita coisa, mas ainda assim, serem lindos esteticamente. Poemas podem cantar. Ou podem soar como teclas de computador, duros, insensíveis. Podem mesmo? Podem. E ainda assim serão belos. Podem levar cinco anos para nascerem, ou apenas cinco minutos. Podem ser lidos e relidos à exaustão, e ainda assim parecerem novos. Podem ser escritos à luz de velas, ou em meio a um estádio lotado. Podem falar ou podem calar. Revelar ou esconder. Revelar, escondendo. Esconder, revelando.

Ela me diz que não gosta de poemas porque neles não há ninguém contando ou conversando. Ela sente falta do narrador e dos diálogos. Ela, na sua doce inocência, ainda não percebeu que poesia narra mais do que qualquer romance; que dialoga mais do que qualquer texto teatral. Ela ainda não sabe (porque ainda não contei), quantos diálogos já travei com Quintana. Drummond. Plath. Vinicius. Auden. Ziraldo. Gelman. Borges. Shakespeare. Neruda. Cazuza. Clapton. Lennon.

Ela ainda não sabe que poemas dizem milhões de coisas, mesmo sem dizer. Ela ainda não sabe que poesia é a forma mais irracional de literatura. E ao mesmo tempo, a mais racional. Mais pensada, cuidada, trabalhada. Ela ainda não sabe os infinitos significados que podem ser encontrados em um poema. Ela ainda não sabe que poesia serve para se pronunciar o impronunciável. Que serve para se suspirar devagarzinho, escondidinho, de mansinho.

Ela não sabe ainda que pode ter um livro de poemas como companheiro em momentos de dor, angústia, alegria, êxtase, desespero. Ela não tem ainda ideia dos efeitos inebriantes de um bom poema; ela ainda não experimentou a satisfação de se ler pela primeira vez um verso que traduz um instante. Que penetra devagar no mais profundo âmago do ser. Que explica o inexplicável. Que toca o intangível. Que desestrutura o que parecia tão encaixado. Que provoca. Que acalma. Que une. Que tira o sono. Que faz adormecer. Que incendeia. Que fere. Que mostra o caminho. Que atinge. Que conversa.

Conversarão os versos contigo ainda, minha filha. Te asseguro. E poderás a eles dizer que um dia foste uma menina que não gostava de poemas.

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