É tarde

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por Clarice Casado

“Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e então, pare”

“Alice no País das Maravilhas”, Lewis Carroll

Eu só ouço todo mundo ao meu redor dizendo, “ultimamente, ando sempre na correria”. É uma coisa de louco: parece uma frenética competição entre toda a raça humana, onde os sujeitos descabelados e suados estão brigando para saber quem é que tem menos tempo na vida. Tempo para que, me pergunto? Nem nós mesmos sabemos mais ao certo.

Não há necessidade de muito esforço, é só olhar para o lado para perceber aquela multidão se esbarrando, num desespero inexplicável para fazer as coisas de sempre, ir e voltar dos lugares de sempre, de sempre, de sempre. A tempo! É a rotina. Ok, todo mundo sabe disso. Mas será que a maldita “correria” é de fato tão necessária assim? Então, vêm as desculpas: é o trânsito, é o chefe alucinado, são as crianças na escola, é aquela vida que me espera todos os dias e não vai de jeito nenhum afagar-me os cabelos… Opa! Poesia dos apressados? Não, não, esta última frase foi minha mesmo…

O problema se agrava quando você percebe que é um desses sujeitos apressadinhos. Porque o que provavelmente muitas pessoas (as que “correm”) não têm em mente é que todo mundo têm compromissos. TODO mundo: ricos e pobres, preguiçosos e trabalhadores, crianças e adultos. Acredite: pode-se pensar que o rico não faz nada, “ah, ele não tem problemas, não precisa se preocupar com dinheiro, não precisa trabalhar”. Errado! Qualquer criatura viva tem problemas. Cada um tem as suas complicações, as suas “correrias” (não interessa para onde: tenho uma amiga que morre se não chegar a tempo no salão de beleza; ora, os cabelos são importantes para ela, isso faz dela “menos importante” para quem?). Trocando em miúdos: compromissos, todos temos. A diferença é que algumas pessoas fazem questão de “correr”. Ou ainda, não conseguem impedir que seu corpo “corra” para todos os lugares. Não conseguem se organizar, verdade seja dita.

Mas esta que vos fala dizia que a coisa se complica quando o sujeito, de uma hora para outra, percebe que é um apressadinho… Confesso, então, aos leitores: eu sou um deles, sou um apressadinho. Sou como o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas. Lembram, aquele que estava sempre apressado e correndo, com um relógio na mão?

Alice’s Adventures in Wonderland, clássico romance do escritor britânico Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Dodgson, foi imortalizado nos cinemas sob a forma de desenho animado por Walt Disney. O romance de Carroll tornou-se famoso pelo uso da lógica, da matemática e de neologismos, que permeiam toda a narrativa. Trocadilhos, personagens estranhíssimos, simbolismos, animais falantes, micro-histórias aparentemente sem sentido compõem as páginas do aclamado livro. A narrativa de Carroll encontra-se incluída no gênero denominado literary nonsense, o que se poderia traduzir como “absurdo literário”, em razão da aparente ausência de sentido da história. Apenas aparente, sem dúvida. Muitas interpretações sociopsicológicas foram feitas ao longo do tempo que se sucedeu à publicação de Alice…, em razão do caráter enigmático e único da narrativa, bem como em razão dos boatos de que Carroll seria um pedófilo. Boatos esses, frise-se, nunca confirmados. Carroll escreveu a história, após narrá-la oralmente, para a menina Alice Liddell, filha de um reverendo).

Ora, se sou o Coelho Branco de Carroll, personagem de um romance considerado “sem sentido”, não posso deixar de fazer uma neurótica analogia: vivemos, sem dúvida alguma, em um mundo “de Alice”, complexo, caótico, sem sentido e ao mesmo tempo lógico, regido por abundantes neologismos e matemáticas enervantes e doentias…! Neste mundo aventuresco, somos Alices, somos Coelhos Brancos, somos Lebres Malucas, somos Chapeleiros Loucos, somos Gatos Risonhos, somos Reis e Rainhas de Copas…

Somos exatamente o que quisermos ser. Ninguém foge de si mesmo. É só escolher o seu personagem e seguir vivendo. Correndo ou não.

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