Existe algo mais humano que a liberdade?

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por Clarice Casado

Perguntou-me a Bibi (Bianca Rosolem, para os leitores deste PáginaDois), na semana passada, em seu tocante Dedicatória. Sim, eu sou a Dear Clarice a quem se refere ali a pequenina Bianca, com seu jeitinho de Audrey Hepburn dos trópicos…

Desde que a conheci, lá se vão seis anos, parecia que eu podia ver flutuando sobre sua mente brilhante aquela pergunta. Bianca foi uma das alunas mais questionadoras que já tive. Sobre a vida, os amores, as angústias de ser: aquelas coisas que todo mundo quer falar, mas nunca fala.

Um belo dia descobrimos que tínhamos em comum o gosto pela literatura e pelas coisas sensíveis da vida: pronto. Identificação imediata. Trocamos ideias e livros. Ela me emprestou Trópico de Câncer, de Henry Miller, um clássico da literatura norte-americana e mundial, e eu entreguei a ela The Hours (no original mesmo), romance de Michael Cunningham que inspirou o belíssimo filme com o mesmo nome, no ano de 2002, dirigido por Stephen Daldry. A original narrativa de Cunningham entrelaça as vidas de três mulheres, em diferentes épocas, ligadas por um mesmo elo, qual seja, o romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. O livro fala de liberdade, ou da falta dela, ou das razões pelas quais não se pode viver sem ela. Coincidência, Bibi?

O curioso desta nossa história é que nunca devolvemos os livros uma à outra, num mútuo gesto que significou o selo de nossa amizade, praticamente cultivada e mantida à distância, uma vez que convivemos por poucos meses. Temos um elo, assim como o tinham as personagens de The Hours. E é ele que nos mantém amigas, até hoje. Além, por óbvio, do nosso amor por escrever.

Bianca me surpreende então (mais uma vez) com uma dedicatória tardia ao livro de Henry Miller que só poderia ter sido escrita por ela mesma: traz aquela originalidade mesclada com sensibilidade e ousadia que só ela sabe fazer.

Pois te digo hoje, Bianca, sweetie, que tenho a certeza absoluta de que não há nada mais humano que a liberdade. Liberdade para criar, para dizer o que se quer, para não ter que explicar o inexplicável.

Sim, minha cara amiga, é a nossa ânsia por liberdade que nos impele a sonhar sobre a folha de papel. E não só sonhamos, tornamos reais e livres na folha de papel os proibidos mundos interiores, aqueles confinados, sem muita saída, sabe? O que desejamos libertar são as coisas que não foram ditas, os gestos que não foram feitos, os poemas nunca entregues, as atitudes nunca tomadas. Nosso momento de liberdade é aqui. Frente a frente com a folha branca.

O que desejamos libertar? Nós mesmas, dear. Nada além da nossa mais pura essência.

Obrigada.

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