Sun Ra, um jazzista de outro planeta

por Cassiano Rodka

Egito, África e – por que não? – Saturno. Misturando elementos culturais dessas três (bem) distintas localidades, Sun Ra criou o som nada convencional que o consagrou como um compositor de jazz único e inesquecível.

sunra

Desde cedo, o pianista Herman Poole Blount deixou de lado seu nome de nascença para assumir o que ele considerava sua verdadeira identidade: Sun Ra, um ser de uma raça angelical posto na Terra para passar uma mensagem pacifista aos moradores deste planeta. Sua palavra vinha através de uma linguagem universal: a música. Neste caso, um jazz psicodélico, às vezes melodioso, às vezes atonal, mas sempre singular.

Sun Ra criou um verdadeiro séquito de músicos que o acompanhava não só em suas apresentações, mas em sua vida diária. Esse conjunto de jazzistas era chamado de Arkestra e funcionava como uma grande família. Moravam e tocavam juntos, praticamente deixando de lado qualquer rotina terrestre para se entregar inteiramente à música. A cada show ou disco, o nome variava: Sun Ra and His Solar Arkestra, Sun Ra and His Myth Science Arkestra, Sun Ra & His Intergalactic Research Arkestra, Sun Ra and His Intergalactic Astro-Solar Infinity Arkestra, só pra citar alguns. Tudo dependia da data, do show, da plateia e, é claro, do que estivesse na mente inquieta do músico.

A reação do público no anos 50 e 60 era tão diversa quanto suas músicas, alguns ficavam instantaneamente hipnotizados, outros saíam correndo daquilo que consideravam pura barulheira sem sentido. Encontrando dificuldade em lançar seus trabalhos, Sun Ra fez algo que, naquela época, não era nada convencional: abriu seu próprio selo e passou a distribuir sua música.

Sua filosofia cósmica influenciava as letras, capas dos discos e o inconfundível visual de sua orquestra. Indo de encontro aos ternos usados pelos músicos naquela época, Sun Ra decidiu que sua banda usaria roupas intergalácticas, ou seja, camisolões brilhantes cheios de símbolos egípcios e capacetes dourados. As vestimentas combinavam muito bem com a psicodelia das apresentações e influenciaram alguns artistas, como George Clinton e o seu Funkadelic.

A discografia de Sun Ra é extensa e cobre os mais diversos estilos de jazz, desde o ragtime até o free jazz. O músico também adotou apaixonadamente o sintetizador e os teclados eletrônicos muito antes deles se tornarem populares, produzindo sons que eram considerados à frente de seu tempo.

Com tamanha diversidade de gêneros musicais e quantidade de lançamentos fica difícil entrar em contato com todas as nuances do compositor. Mas uma boa maneira de adentrar o universo de Sun Ra é a coletânea “The Singles”, um apanhado das músicas de trabalho que o compositor lançou através de seu próprio selo. São dois CDs que vão desde o doo-wop de “Daddy’s Gonna Tell You No Lie”, passando pelo R&B amalucado de “Hot Skillet Mama” e indo até as viagens espaciais de clássicos como “Enlightenment” e “The Perfect Man”. Ponha pra tocar e boa viagem!

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