Emergência

emergencia

por Clarice Casado

No dia 22 de agosto de 2008, uma sexta-feira, por volta das três horas de uma tarde como outra qualquer na cidade de São Paulo, entrei em um avião com destino a Porto Alegre, minha terra natal. Comigo estavam meu marido e meus dois filhos, à época com oito e dois anos. Tivemos que fazer um pouso de emergência no aeroporto de Guarulhos. Depois daquele dia, minha vida mudou de certa forma. Eu não tinha ideia de que mudaria tanto. Hoje sei que algo ficou diferente depois daquela experiência. Nada escrevi sobre o ocorrido logo após e pretendia nunca escrever coisa alguma a respeito, mas nesta semana, após mais um horrível desastre aéreo ter abalado o mundo, decidi que preciso liberar de dentro de mim essa história. Talvez seja uma boa maneira de digeri-la melhor.

Em uma das revistas semanais brasileiras que cobriram o acidente da Air France, o repórter coloca algumas questões: o que estariam fazendo os passageiros e tripulantes do fatídico voo nos minutos que antecederam a queda; em que estariam pensando; tiveram tempo de pensar em seus entes queridos; pensaram em se comunicar com eles, por mensagens eletrônicas ou por pensamentos; rezaram? Tais perguntas do escritor da matéria jornalística jogaram-me de volta àquele avião sobre o qual eu falava no primeiro parágrafo deste texto.

A questão que intriga a todos nós (não há como negar), é saber se as pessoas que estavam dentro do avião acidentado sofreram antes e durante o desastre. Não há como saber ao certo? Ou há, quando se descobrem mais detalhes e as causas de um determinado acidente? Posso lhes garantir: se você tem tempo de pensar sobre o que está acontecendo ou o que pode acontecer, ou ainda, se você tem consciência ou certeza de que algo está errado, você sofre, e muito.

Nosso voo deveria durar uma hora e quinze minutos, como normalmente dura até Porto Alegre. Um pouquinho a menos (se o piloto der uma “corridinha” e encontrar tempo bom no caminho) ou um tanto a mais, se houver qualquer tipo de atraso.

Foi uma decolagem tranquila. Eu morro de medo de avião. Mesmo uma decolagem tranquila me põe desesperada por alguns minutos. Até que o aviso luminoso do “apertar cintos de segurança” se desligue, vivo um pequeno inferno neurótico… Mas subimos muito bem naquele dia, sem turbulências, céu limpo.

Tudo transcorria na maior e santa paz, quando, passados quinze minutos da decolagem, o piloto é ouvido ao microfone: “Senhoras e Senhores, tivemos um pequeno problema e teremos que retornar a São Paulo”. Só. Silêncio absoluto. Eu não consigo ouvir piloto chamando em aeronave (nem para falar das condições do tempo no destino, coisas sobre o voo, hora que vai chegar, etc), que já entro em pânico… Imagina o cara falar que “temos um problema”, e você ali, a não sei quantos metros de altura e tantos quilômetros de velocidade… Bom, olhei imediatamente para o meu marido, que voa para tudo quanto é lado com impressionante regularidade. Ele estava sereno. Quase pegando no sono, até. Fiquei tranquila; pensei, “Bom, até aqui, tudo bem”. Meu filho mais velho perguntou-me o que estava acontecendo, e eu expliquei que teríamos que voltar a São Paulo, mas estava tudo bem (é horrível ter que fazer uma afirmação dessas para o seu filho quando você não tem a mínima ideia do que está acontecendo ao seu redor). As pessoas próximas a mim pareciam também tranquilas. Ao menos, pareciam.

Passados mais alguns minutos, o cara vem de novo ao microfone, “Por questões de segurança, pousaremos a aeronave em Guarulhos, que tem mais condições de receber-nos”. Ah, aí, “já era”, como diria meu filho. Toda a minha tranquilidade, serenidade, ou qualquer sentimento relacionado à calma e paz de espírito foi literalmente para o espaço. Olhei de novo para o meu marido, que nem me olhou. Parecia (agora sim), um pouco mais apreensivo. Algumas pessoas começaram a chamar a comissária por aquele botãozinho. A moça vinha e dizia que não sabia a razão do retorno, mas por questões de segurança estávamos voltando.

Os minutos que se seguiram ao segundo aviso do piloto foram os mais longos e tensos de minha vida. Ninguém gritou, nem se descabelou. Mas o clima era de tensão absoluta, dava para sentir. Silêncio absoluto. Uma turbulência leve se iniciou, juntamente com um apito bastante estranho. Virei-me para meu marido, perguntando se aquele era um barulho normal (ele conhece praticamente todos os barulhos de avião). Ele me disse que sim. Horas depois, já passado o susto, eu viria a saber que ele não estava achando normal coisa nenhuma, apenas não queria me apavorar.

Meu filho mais velho perguntou-me novamente o que estava acontecendo. Eu repeti que não sabia, apenas tínhamos que voltar a São Paulo, por segurança. Mas tudo ia ficar bem. Eu notei que ele estava entendendo que algo estava errado com o avião, tinha oito anos, afinal. Seu rostinho estava sério, olhava ora para a frente, ora pela janelinha, muito quietinho. Cortou-me o coração. Minha filha menor, pobrezinha, com apenas dois anos na época, era só alegria. Continuava a brincar e a falar sozinha, totalmente absorta em seu protegido e delicioso mundinho infantil.

Eu não sabia o que dizer ao meu filho. Eu só repetia, “Já vamos chegar. Está tudo bem”. E eu tinha que respirar muito fundo para dizer estas palavras sem chorar, gaguejar ou me engasgar. A estas alturas, eu estava já hiperventilando (aquela sensação de estar sem ar e ter que buscar o ar lá do fundo do pulmão para respirar) e tremia muito. Eu nem sentia mais minhas pernas e pés. Eu olhava mil vezes para o meu marido, que agora estava já também visivelmente preocupado e nervoso.

O que se pensa em um momento desses? Eu pensava que queria chegar bem. Pensava que não queria ver meus filhos sofrendo ou morrendo. Pensava que não queria morrer com toda a minha família dentro de um avião. Ou não pensava em nada, por alguns segundos. Ou pensava de novo (sério, pensei, sim), “Nós vamos chegar bem. Nós vamos chegar bem. É um problema que poderá ser superado. Nós vamos descer em Guarulhos sem problemas”. Eu fiz promessas. Várias promessas. Recorri a Deus. Rezei. Sim, rezei. Eu, uma católica não praticante que só reza de vez em quando e só a igreja em casamentos, batizados e funerais. Meu marido, que é ateu, disse-me que depois desta nossa horrível experiência, tem mesmo a certeza de que não crê em Deus, porque não rezou em momento algum. Disse que só pensava nos nossos filhos, no triste e precoce fim que teriam se nosso avião se acidentasse. E também no seguro de vida dele, que não iria para ninguém…

O que se faz em um momento desses? Eu não gritei. Não chorei. Não podia gritar e nem chorar. Estava com meus dois filhos pequenos. Eu era o porto seguro deles naquele momento, como deve ser qualquer mãe ou pai em qualquer momento. Eu tinha que passar a eles a impressão de que estava tudo bem. Mesmo sabendo que algo muito ruim poderia acontecer a qualquer momento. Sim, porque, como tivemos tempo (muito tempo) para “refletir” no ar, eu pensava, “Será que vai explodir? Será que vai cair? Será que vai aterrissar e explodir e colidir contra algo? Será que vai cair no mar?”. Sim, eu tive tempo de pensar em tudo isto, e provavelmente todos ali também tiveram.

Mas o incrível foi que ninguém entrou em pânico. Ninguém gritou. Eu não ouvi ninguém chorando. Meu marido me contou depois que ao lado dele havia uma moça chorando, mas devia ser discreta, porque não percebi.

Não chegávamos nunca. Nunca. Não olhei mais no relógio. Mas depois soube que ficamos quarenta minutos voando. Em quarenta minutos, daria para ir de carro até Guarulhos. Eu comecei a ter uma sensação de desmaio (eu já desmaiei várias vezes na vida). Minha visão ficou um pouco turva, porém, tive que ter uma conversa mental comigo mesma, avisando ao meu cérebro para que me controlasse e me desse forças para ficar alerta e segurar forte nas mãos dos meus filhos. Ao mesmo tempo, eu não queria segurar forte nas mãos deles, para não passar-lhes medo e insegurança. Respirei fundo e consegui voltar a mim.

O piloto não veio mais nenhuma vez falar conosco pelo microfone. Porém, dava-me um certo conforto ver que as comissárias estavam (ou ao menos pareciam) calmas. E eu pensava, “Será que elas estão calmas porque está tudo bem ou estão calmas porque não podem demonstrar pânico? Será que estamos em uma situação de real perigo? Ou será que o “problema” referido pelo piloto é algo comum e meu pavor é despropositado e exagerado?” Tudo isto você pensa em um momento destes, mas não pode falar. A sensação de aperto no peito é terrível. A incerteza, a impotência, a espera, a angústia, o medo, o desconhecido, o pavor do fim. Não há nada mais devastador para o espírito humano.

Em um dado momento, eu comecei a ter a impressão de que o avião estava indo muito rápido. Até hoje não sei se estava mesmo ou se era delírio decorrente do pânico.

Quando ouvi o piloto dizendo a clássica frase, “Tripulação, preparar para o pouso”, tive a sensação de que meu coração iria parar. Pensei que fosse desmaiar. Olhei mais uma vez para o meu marido, calado, expressão séria, olhos fixos no banco à sua frente. Pensei que agora era esperar. Tínhamos ido bem até ali. “Tripulação, pouso autorizado”. Neste momento, eu segurei as mãozinhas dos meus dois filhos. Neste momento, eu não pensei mais nada. Nada. Segundos depois, o avião pousava com suavidade em Guarulhos. Acredito que foi quando já em solo que a maior parte de nós, passageiros daquele sofrido e (agora sabíamos) afortunado voo, tivemos a certeza de que estivéramos em real situação de perigo nos quarenta minutos anteriores: ao redor da aeronave, espalhavam-se ambulâncias, carros de bombeiros, médicos a postos com maletas e macas nas mãos, uma loucura… As pessoas, certamente já aliviadas, olhavam pelas janelinhas, perplexas. Eu acho que meu filho comentou sobre as ambulâncias, não tenho certeza. Algumas pessoas comentavam coisas que eu não ouvia, ou não entendia, disso não consigo lembrar. Ouvimos então novamente a voz do piloto, “Senhores passageiros, posso agora informar-lhes que tivemos que voltar a São Paulo porque uma das turbinas da aeronave parou de funcionar em pleno voo”. Só. Foi a única e terrível explicação que tivemos. Nada de detalhes. Eu soube depois, por meio de um amigo que é piloto, que um avião pode voar com apenas uma turbina, mas por pouco tempo. Precisa pousar o mais rápido possível. Soube também que o motivo da demora no retorno foi o fato de o piloto precisar gastar gasolina (e também talvez pelo fato de estar com uma só turbina!). Creio que, para em caso de um pouso ruim, em razão da ausência de uma das turbinas, não haver perigo de o avião explodir.

Eu só consigo lembrar bem da sensação de alívio misturada com um resto de pânico, com um trauma que estava por vir, ou não. Não fiquei traumatizada. Nem meus filhos, ainda bem. Muito menos meu marido. Tivemos que trocar de avião. Meu filho disse que não queria ir. Explicamos a ele que não iria acontecer de novo. Que as chances matemáticas de algo parecido acontecer conosco novamente eram praticamente nulas. Não sei se acreditávamos no que estávamos dizendo. Mas precisávamos, mais uma vez, ser um porto seguro para nosso filho. Não podíamos apoiar uma decisão dele de deixar de voar de avião porque esteve em uma situação de perigo em uma aeronave. Passou. Pode acontecer? Pode. Mas a sua vida não pode parar por causa disso. Você não vai deixar de andar de carro se bater com o carro, você não vai deixar de usar o fogão se queimar a mão cozinhando um dia. Você não vai se mudar para Bali porque vive numa cidade perigosa e violenta e foi assaltado uma vez. É preciso conviver com a própria vida. É preciso superar os traumas. Sozinho ou com a ajuda de algum profissional.

Enquanto eu escrevia este texto, houve um momento em que senti novamente tudo o que senti naquele avião. Nem imaginava que isso fosse acontecer, mas revivi mesmo tudo. Posso até dizer que hiperventilei. Porém, precisava, hoje, escrever sobre isto. Dividir com alguém.

Hoje estamos bem, e isso é o que realmente importa. Hoje. Podem falar em clichê, mas a verdade é que cada momento é mesmo valioso. Ninguém tem a real noção disso, até que um dia a vida resolve brincar de morte com você.

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