As várias faces de Daan

daan_manhay

por Cassiano Rodka

Meu fascínio pela música produzida por Daan Stuyven começou quando escutei dois singles de sua discografia: “Boots”, de 1999, e “Type Ex”, de 2005. O que me impressionou de cara foi o enorme abismo musical entre uma canção e outra. A primeira é uma balada-rock estradeira e a segunda, um dance kitsch com claras referências à fase oitentista de Serge Gainsbourg. Era como se tivessem sido compostas por dois artistas completamente distintos. E este é o seu grande trunfo: Daan é um compositor com uma visão musical tão ampla, que é como se ele carregasse diversos músicos talentosos dentro de si. E isso resulta em álbuns tão ricos quanto singulares.

Seu quinto disco solo, “Manhay”, saiu no dia 27 de abril e mais uma vez surpreende o ouvinte. Depois de compor faixas dançantes em seus últimos discos, Daan deixou o sintetizador de lado para dar destaque ao piano, resultando em um álbum mais direto e mais próximo ao rock – estilo que andava se afastando de suas criações. As músicas são mais cruas e as letras, mais pessoais, duas decisões conscientes do compositor. Daan resolveu focar mais nas melodias do que nos arranjos e truques de estúdio, deixando as canções com mais espaço e um clima bastante intimista.

O primeiro single, “Exes”, traz o cantor exorcizando suas ex-namoradas em uma letra cheia de trocadilhos cantada sobre um instrumental rock que poderia muito bem ter nascido nos anos 90. O videoclipe criado para a música mostra Daan como um lenhador que anda pelo vilarejo de Manhay (município da Bélgica onde ele gravou as novas canções e que acabou dando nome ao disco) encorajando os habitantes a livrarem-se de qualquer lembrança de seus ex-namorados(as).

Depois de compor “Sunchild” para seu filho, agora chegou a vez de sua recém-nascida filhinha ganhar uma homenagem. A bela “Your Eyes”, segunda faixa do disco, foi composta para ela e dá o tom exato da nova fase do cantor: simples, frágil e humana. Logo em seguida vem “Icon”, uma das minhas preferidas. Ao som de uma divertida guitarra com ritmo circense, quatro Daans cantam uma bem humorada letra que reflete sobre o quanto uma pessoa pode mudar ao alcançar a fama, tornando-se uma personagem para a mídia e esquecendo quem ela é de verdade. “Mas quando não houver ninguém mais para enganar / Não vá se afogar na sua piscina”, declara sarcasticamente.

O lado roqueiro do compositor belga aparece em evidência em faixas como “Radio Silence”, onde a voz rasgada do cantor é acompanhada por um riff insistente de guitarra que remete às criações dos conterrâneos do dEUS. Já “Crawling from the Wreck” traz uma batida anos 80 com teclados a la OMD e um vocal carregado de delay. A letra descreve o que passa pela cabeça de uma pessoa segundos antes de bater o carro, uma experiência pessoal do pianista enquanto finalizava o álbum anterior, “The Player”.

“Você é um bad boy”. Foi o que a atriz francesa Jeanne Moreau sussurrou ao ouvido de Daan no Ghent Film Festival. E foi o suficiente para inspirar a faixa “Bad Boy”, uma estranha balada que poderia tocar em um bar cenográfico de um filme do David Lynch.

O lado tranquilo do piano do compositor se destaca em duas faixas: “A Great Retriever”, uma linda balada onde Daan se compara a um cachorro cansado de fazer tudo pela sua dona, e a canção que fecha o disco, “The Stealing Kind”, com os falsettos do cantor fazendo floreios sobre um instrumental que ecoa influências de Duran Duran e Depeche Mode.

“Manhay” é um disco repleto de melodias bem arquitetadas, criadas pela mente de um músico que sabe como valer-se das mais intensas emoções humanas para criar.

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