Meu mundo em vermelho

meumundoemvermelho

por Clarice Casado

E não venham me dizer que não posso falar de futebol. Que não sou autorizada. Que não gosto. Que disso nada entendo. Que sou apenas mais uma mulher de um cara fanático pelo esporte mais assistido no mundo. Não só posso, como devo e vou falar hoje sobre futebol.

Quero contar sobre o dia em que descobri que sou uma desafortunada por não apreciar a nobre arte. Foi quando eu vi as fotos de meu marido abraçado ao time inteiro do Internacional de Porto Alegre, no aeroporto de Tóquio, em dezembro de 2006. Ele estava radiante. Nas feições dele, não cabia toda a felicidade que estava sentindo. Dava para ver com clareza a emoção. Costumo brincar com ele, dizendo que nunca o vi tão sorridente em foto alguma nossa. Mas havia uma razão. O “Colorado”, como o time dele é carinhosamente chamado no Rio Grande do Sul (em razão da cor vermelha de sua camiseta e, diga-se de passagem, também da torcida inteira), tinha vencido a Copa Mundial Interclubes da FIFA. Meu marido estava lá. Foi testemunha do acontecimento, que ficou na história do clube gaúcho. Fanático por futebol e insanamente doente pelo seu time do coração, acompanhou passo-a-passo a jornada do “Gigante Vermelho” rumo à capital do Japão. Jornada esta que terminou em contagiante glória, narrada com detalhes nos diários eletrônicos de viagem do apaixonado torcedor que comigo divide a vida há dezessete anos. Durante toda a sua estada na Terra do Sol Nascente, eu podia perceber que emanava dele algo que eu talvez nunca experimente: paixão sem limites e sem fim.

Paixão? Como assim? Nunca sentiu paixão na vida? Nunca se apaixonou? Nem pelo amor de sua vida, nem por uma causa, nada disso? Respondo-lhes, leitores, que estou falando de paixão infinita. É bem diferente de paixão normal. Sabem? Paixão, por natureza, é um negócio efêmero: se esvai com certa rapidez, com o passar do tempo. Pode-se amar alguém pelo resto da vida, amar de verdade, aquele amor de doer. Amar os filhos, o companheiro, a família toda. Alguns amigos do coração. Mas, paixão, todo mundo sabe: um dia, acaba. Aquele ardor, aquela coisa de ferver o sangue, de doer a alma, de apertar o coração, dura o tempo de um verão, de um outono, de uma viagem, de um projeto de trabalho. Ninguém se descabela por alguém ou por algo para sempre, ninguém sente o coração querendo sair pela boca a vida inteira por causa da namorada. Aquela coisa que você já conhece: paixão voa, amor fica plantado para sempre.

Porém, caros leitores, porém, a paixão pelo futebol não é assim, não: a cada jogo, a cada vitória, a cada lancezinho da bola, a cada grito da torcida, a cada minuto que antecede uma partida do seu time adorado, a cada locução emocionada no rádio, a cada discussão esportiva entre amigos, a cada debate acirrado sobre uma partida na televisão, a cada visão da bandeira do coração tremulando em estádio lotado, a paixão se reacende, fica doida, se agita febril no sujeito incondicionalmente apaixonado. Paixão por futebol escolhe apenas alguns poucos que podem de fato dedicar-se a ela. Torcedores, há milhões pelo mundo afora. Torcedores apaixonados, estes, sim, são pessoas especiais: gente sortuda que vai sentir eternamente aquele incomparável friozinho na barriga. E não adianta tentar curá-los. O melhor é juntar-se a eles.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s